“O cinema pode fazer com que voltemos a ver aquilo que deixamos de enxergar”
Exibido no Festival do Rio de 2025 e vencedor do prêmio de Melhor Filme no Festival de Cinema de Londres, Nuestra Tierra amplia uma das principais preocupações da cineasta argentina: a disputa pela memória, pelos territórios e pelas narrativas que moldam a identidade de um país. Em entrevista ao Cinema com Crítica, Lucrecia Martel reflete sobre o papel do cinema na preservação de arquivos, na valorização dos povos originários e na transformação da percepção do espectador.
Considerada uma das vozes mais importantes do cinema latino-americano contemporâneo, Lucrecia Martel construiu uma filmografia marcada pela atenção ao que escapa ao olhar imediato. Em obras como O Pântano (La Ciénaga), A Menina Santa (La Niña Santa) e A Mulher Sem Cabeça (La Mujer Sin Cabeza), a diretora argentina desenvolveu uma linguagem singular, em que sons, silêncios e elementos fora de quadro revelam tensões sociais, históricas e políticas muitas vezes invisíveis.
Em seu mais recente trabalho, Nuestra Tierra, Martel volta seu olhar para a disputa por territórios ancestrais e para a luta de comunidades originárias por reconhecimento e direitos. Exibido no Festival do Rio de 2025, o longa teve sua estreia mundial fora de competição na 82ª edição do Festival de Veneza e posteriormente conquistou o prêmio de Melhor Filme no Festival de Cinema de Londres (BFI London Film Festival). Aclamado pela crítica por sua abordagem das heranças coloniais na Argentina, o filme estreou comercialmente no país em março de 2026.
Durante sua passagem pelo Rio de Janeiro para participar da mostra Foco no Cinema Argentino e ministrar uma masterclass no Teatro Sesc Ginástico, Martel conversou com o Cinema com Crítica sobre memória, arquivos, colonialismo, identidade latino-americana e a capacidade do cinema de alterar nossa forma de perceber o mundo.
“Existe uma memória paralela construída por imagens e sons”
Alvaro Goulart – Durante Nuestra Tierra, tive a sensação de que o centro do relato não está apenas no julgamento, mas na reconstrução de uma memória coletiva. As fotografias, os relatos e a relação com a comunidade parecem construir um outro tipo de arquivo, diferente do arquivo oficial do governo e do Estado. Você acredita que o cinema pode construir uma memória sobre aquilo que as narrativas oficiais tentam apagar ou controlar?
Lucrecia Martel – Sim. Eu acredito que isso é algo que todas as pessoas que se aproximam para fazer um filme sobre comunidades que estão sofrendo a expulsão de seus territórios, em qualquer lugar do mundo, precisam considerar.
Há muitas maneiras de falharmos ao fazer um filme. Podemos nos equivocar, romantizar situações, fazer julgamentos errados. Podemos cometer muitos erros como diretores. Mas, se durante esse processo conseguimos construir um arquivo, reunir materiais daquela comunidade, independentemente do resultado final do filme, esse arquivo permanecerá para as próximas gerações. Quem sabe até para futuros diretores da própria comunidade realizarem seus filmes.
Por isso, o poder do cinema não está apenas no arquivo que aparece dentro da obra, mas também naquilo que conseguimos organizar durante os processos de pesquisa e pré-produção. Isso é algo muito valioso e que eu mesma não compreendia plenamente antes de fazer este filme.
Além disso, toda a nossa história moderna foi construída a partir de documentos escritos. Os Estados-nação latino-americanos nasceram, em sua maioria, de projetos liberais e conservadores. E o documento escrito acabou funcionando como um filtro que limitava o acesso de determinadas comunidades aos seus próprios territórios.
Isso é algo que precisamos resolver com urgência. Não é aceitável que existam cidadãos de segunda categoria em nossos países. Por isso, sim, acredito que existe uma memória paralela que pode ser construída por meio das imagens, dos sons e da criação de arquivos.
“O cinema deveria desafiar nossas percepções automáticas”
Alvaro Goulart – Quando um território está em disputa não apenas economicamente, mas também histórica e culturalmente, como o cinema pode se posicionar diante dessa realidade?
Lucrecia Martel – Eu acredito que existe uma aventura que o cinema pode viver. Alguns a exercem, muitos outros não. Essa aventura consiste em incomodar o establishment e o status quo.
Mas não por uma atitude rebelde vazia. E sim por desativar análises automáticas e percepções automáticas que temos sobre determinados temas.
Seria uma grande pena se o cinema servisse apenas para entreter pessoas que passam horas consumindo narrativas audiovisuais sem que isso provoque qualquer alteração em sua percepção do mundo.
Acredito profundamente nessa possibilidade. Para todos nós que fizemos Nuestra Tierra, o filme representou uma verdadeira mudança em nossa vida profissional.
“É difícil construir um país quando parte dele não possui os mesmos direitos”
Alvaro Goulart – Existe uma construção histórica da Argentina como uma nação profundamente ligada à imigração europeia, enquanto as raízes indígenas foram frequentemente invisibilizadas. Como você enxerga essa dificuldade da Argentina em se reconhecer também como um país de forte herança indígena?
Lucrecia Martel – Tenho a sensação de que muitos dos traumas que se manifestam hoje em nosso país — na economia, no descrédito da política e na falta de representação que os cidadãos sentem — estão relacionados a isso.
Esta é uma percepção pessoal, mas acredito que seja muito difícil construir um país a partir de uma invenção mítica. Porque um país é uma invenção. Quem define seus limites? Quem estabelece as fronteiras de um território?
Quando parte da população não possui os mesmos direitos que os demais cidadãos, cria-se uma turbulência permanente. Essa desigualdade acaba afetando a história, a economia e a cultura.
Por isso acredito que precisamos enfrentar esse desafio com urgência. Se queremos uma nação verdadeiramente independente e soberana, devemos garantir que todos os cidadãos tenham acesso aos mesmos direitos.
“Uma das maiores potências do cinema é alterar a percepção”
Alvaro Goulart – Em seu filme existe uma tensão constante entre o invisível e o oculto. Aquilo que está presente, mas não é reconhecido. Você acredita que o cinema pode revelar uma realidade que está diante de nós, mas que a sociedade aprendeu a não enxergar?
Lucrecia Martel – Claro. Acho que essa é uma das maiores potências do cinema.
Alterar a percepção.
Fazer com que voltemos a ver aquilo que deixamos de enxergar.
Fazer com que voltemos a ouvir aquilo que deixamos de escutar.
O poder da narrativa audiovisual nesse sentido é extraordinário. Às vezes sinto que deveríamos voltar a confiar mais nisso. A capacidade de transformação existe. Não por causa de um único filme, mas por causa de muitos filmes que podem ser feitos sobre o mundo.
“A narrativa não acontece apenas na história, mas na linguagem”
Alvaro Goulart – Há algo muito marcante em sua filmografia: a maneira como o som constrói aquilo que está fora de quadro. Existe uma elaboração muito forte daquilo que não é visto.
Lucrecia Martel – Porque ainda estamos lutando contra uma ideia de cinema baseada apenas na trama.
O cinema é uma arte jovem. Ainda precisamos refletir e reinventá-lo entendendo que a narrativa não acontece apenas na história ou no roteiro. Ela acontece também na linguagem utilizada para contar essa história.
Caso contrário, corremos o risco de acreditar que estamos promovendo mudanças apenas porque alteramos alguns elementos superficiais. Veja os filmes de super-heróis. Hoje os estúdios estão mais preocupados com representatividade e fazem filmes com heroínas.
Mas, se a solução dos conflitos continua sendo resolver tudo na base da violência, então não avançamos muito na forma como imaginamos a resolução dos problemas humanos. E continuamos alimentando a lógica do inimigo, uma lógica que, no fundo, apenas legitima pensamentos de guerra.
A obra de Lucrecia Martel também será tema da 39ª edição do Clube do Crítico, dedicada ao Cinema Latino-Americano. Na ocasião, os participantes irão analisar O Pântano (La Ciénaga), longa de estreia da diretora e uma das obras mais influentes do cinema latino-americano do século XXI. Vinte e cinco anos após seu lançamento, o filme permanece como uma chave fundamental para compreender não apenas a filmografia de Martel, mas também as transformações estéticas e políticas que marcaram o Novo Cinema Argentino.
Versión en español
ENTREVISTA | Lucrecia Martel y la historia reescrita por el cine
“El cine puede hacer que volvamos a ver aquello que dejamos de mirar”
Exhibida en el Festival do Rio de 2025 y ganadora del premio a Mejor Película en el BFI London Film Festival, Nuestra Tierra amplía una de las principales preocupaciones de la cineasta argentina: la disputa por la memoria, los territorios y los relatos que construyen la identidad de un país. En conversación con Cinema com Crítica, Lucrecia Martel reflexiona sobre el papel del cine en la preservación de archivos, la visibilización de los pueblos originarios y la capacidad transformadora de las imágenes y los sonidos.
Considerada una de las voces más importantes del cine latinoamericano contemporáneo, Lucrecia Martel ha construido una filmografía marcada por la atención a aquello que escapa a la mirada inmediata. En películas como La Ciénaga, La Niña Santa y La Mujer Sin Cabeza, la directora desarrolló un lenguaje singular en el que los sonidos, los silencios y los elementos fuera de campo revelan tensiones sociales, históricas y políticas que muchas veces permanecen invisibles.
En Nuestra Tierra, su trabajo más reciente, Martel dirige su mirada hacia la disputa por los territorios ancestrales y la lucha de las comunidades originarias por el reconocimiento de sus derechos. La película tuvo su estreno mundial fuera de competición en la 82ª edición del Festival Internacional de Cine de Venecia y posteriormente obtuvo el premio a Mejor Película en el BFI London Film Festival. Aclamada por la crítica por su exploración de las herencias coloniales en Argentina, la obra se estrenó comercialmente en marzo de 2026.
Durante su visita a Río de Janeiro para participar en la muestra Foco no Cinema Argentino y ofrecer una masterclass en el Teatro Sesc Ginástico, Martel conversó con Cinema com Crítica sobre memoria, colonialismo, identidad latinoamericana y el poder del cine para alterar nuestra percepción del mundo.
“Existe una memoria paralela construida a partir de imágenes y sonidos”
Alvaro Goulart: Durante Nuestra Tierra, tuve la sensación de que el centro del relato no está solamente en el juicio, sino en la reconstrucción de una memoria colectiva. Las fotografías, los relatos y la relación con la comunidad parecen construir otro tipo de archivo, diferente del archivo oficial del gobierno y del Estado. ¿Crees que el cine puede construir una memoria sobre aquello que las narrativas oficiales intentan silenciar o controlar?
Lucrecia Martel: Sí. Creo que eso es algo que todas las personas que se acercan a hacer una película sobre comunidades que están padeciendo la expulsión de sus territorios deberían considerar.
Podemos equivocarnos haciendo una película. Podemos romantizar situaciones, juzgar mal o cometer muchos errores como directores. Pero si durante ese proceso logramos construir un archivo de materiales de esa comunidad, ese archivo permanecerá para las generaciones futuras, independientemente del resultado final de la película. Ojalá pueda servir incluso para que futuros realizadores de la propia comunidad hagan sus propias películas.
Por eso, el poder del cine no está solamente en el archivo que aparece dentro de la obra, mediante fotografías o documentos, sino también en aquello que podemos construir durante los procesos de investigación y preproducción. Eso me parece enormemente valioso, y es algo que yo misma no comprendía plenamente antes de realizar esta película.
Además, toda nuestra historia moderna se basa en documentos escritos. Los Estados-nación latinoamericanos surgieron en gran medida de proyectos liberales y conservadores, y el documento escrito funcionó muchas veces como un filtro que limitó el acceso de ciertas comunidades a sus propios territorios.
Eso es algo que debemos resolver con urgencia. No puede haber ciudadanos de segunda categoría. Por eso creo que existe una memoria paralela que puede construirse a través de imágenes, sonidos y archivos.
“El cine debería desafiar nuestras percepciones automáticas”
Alvaro Goulart: Cuando un territorio está en disputa no solamente en términos económicos, sino también históricos y culturales, ¿cómo puede posicionarse el cine frente a esa realidad?
Lucrecia Martel: Creo que existe una aventura que el cine puede vivir. Algunos la ejercen y muchos otros no. Esa aventura consiste en incomodar al establishment y al statu quo.
Pero no por una actitud rebelde vacía o ingenua, sino por la posibilidad de desactivar ciertos análisis automáticos y ciertas percepciones automáticas que tenemos sobre algunos temas.
Sería una gran pena que el cine se limitara a entretener a personas que pasan horas consumiendo narrativas audiovisuales sin que eso produzca ninguna alteración en su percepción del mundo.
Yo deseo profundamente esa aventura para los cineastas, para los equipos y para toda la gente que hace cine. Para nosotros, hacer Nuestra Tierra fue un punto de inflexión en nuestra vida profesional.
“Es difícil construir un país cuando parte de su población no tiene los mismos derechos”
Alvaro Goulart: Argentina suele ser presentada como una nación profundamente vinculada a la inmigración europea, mientras que las raíces indígenas han sido frecuentemente invisibilizadas. ¿Cómo observas esa dificultad para reconocerse también como un país con una fuerte herencia indígena?
Lucrecia Martel: Tengo la sensación de que muchos de los traumas que hoy se manifiestan en nuestro país —en la economía, en el descrédito de la política y en la falta de representación que sienten los ciudadanos— están relacionados con eso.
Esta es una percepción personal, pero creo que es muy difícil construir un país a partir de una invención mítica. Porque un país es una invención. ¿Quién define sus límites? ¿Quién establece las fronteras de un territorio?
Cuando una parte de la población no tiene los mismos derechos que el resto, se genera una turbulencia permanente que termina afectando la historia, la economía y la cultura.
Por eso creo que debemos afrontar ese desafío con urgencia. Si queremos una nación verdaderamente independiente y soberana, debemos garantizar que todos los ciudadanos tengan acceso a los mismos derechos.
“Una de las mayores potencias del cine es alterar la percepción”
Alvaro Goulart: En tu película existe una tensión constante entre lo invisible y lo oculto. Aquello que está presente, pero no es reconocido. ¿Crees que el cine puede revelar una realidad que está frente a nosotros, pero que una sociedad ha aprendido a no mirar?
Lucrecia Martel: Claro. Creo que esa es una de las cosas más poderosas que tiene el cine.
Alterar la percepción.
Hacer que volvamos a ver aquello que dejamos de mirar.
Hacer que volvamos a escuchar aquello que dejamos de oír.
El poder de la narrativa audiovisual en ese sentido es extraordinario. A veces siento que deberíamos volver a confiar más en esa capacidad. La transformación existe. No gracias a una sola película, sino gracias a muchas películas que pueden hacerse sobre el mundo.
“La narrativa sucede también en el lenguaje”
Alvaro Goulart: Hay algo muy particular en tu filmografía: la manera en que el sonido construye aquello que permanece fuera de campo. Existe una elaboración muy fuerte de lo que no vemos.
Lucrecia Martel: Porque todavía estamos luchando contra una idea del cine basada únicamente en el argumento.
El cine es un arte joven. Todavía necesitamos reflexionar e inventarlo entendiendo que la narrativa no ocurre solamente en la historia o en el guion. También ocurre en el lenguaje con el que esa historia es contada.
De lo contrario, corremos el riesgo de creer que estamos produciendo cambios cuando apenas modificamos algunos elementos superficiales. Pensemos en las películas de superhéroes. Hoy los estudios están más preocupados por la representación y producen películas protagonizadas por heroínas.
Pero si la resolución de los conflictos sigue siendo la violencia física, entonces no hemos avanzado demasiado en nuestra forma de imaginar cómo los seres humanos pueden resolver sus problemas. Y seguimos alimentando la lógica del enemigo, una lógica que termina legitimando cualquier pensamiento de guerra.
La obra de Lucrecia Martel también será tema de la 39ª edición del Clube do Crítico, dedicada al Cine Latinoamericano. En esa ocasión, los participantes analizarán La Ciénaga, ópera prima de la directora y una de las películas más influyentes del cine latinoamericano del siglo XXI.
English Version
INTERVIEW | Lucrecia Martel and history rewritten by cinema
“Cinema can make us see again what we have stopped seeing”
Screened at the 2025 Rio International Film Festival and winner of the Best Film award at the BFI London Film Festival, Nuestra Tierra expands one of Argentine filmmaker Lucrecia Martel’s central concerns: the struggle over memory, territory and the narratives that shape a nation’s identity. In this interview with Cinema com Crítica, Martel reflects on the role of cinema in preserving archives, giving visibility to Indigenous communities and transforming the way we perceive the world.
Widely regarded as one of the most important voices in contemporary Latin American cinema, Lucrecia Martel has built a filmography distinguished by its attention to what escapes immediate perception. In films such as La Ciénaga (The Swamp), La Niña Santa (The Holy Girl) and La Mujer Sin Cabeza (The Headless Woman), she developed a unique cinematic language in which sound, silence and off-screen space reveal social, historical and political tensions that often remain unseen.
In her latest work, Nuestra Tierra, Martel turns her attention to the struggle for ancestral lands and the fight of Indigenous communities for recognition and rights. The film had its world premiere out of competition at the 82nd Venice International Film Festival and later won the Best Film award at the BFI London Film Festival. Praised by critics for its exploration of Argentina’s colonial legacy, the film was released theatrically in Argentina in March 2026.
During her visit to Rio de Janeiro for the Focus on Argentine Cinema program and a masterclass at Teatro Sesc Ginástico, Martel spoke with Cinema com Crítica about memory, colonialism, Latin American identity and the transformative power of cinema.
“There is a parallel memory built through images and sounds”
Alvaro Goulart: While watching Nuestra Tierra, I felt that the film’s core is not simply the trial itself, but the reconstruction of a collective memory. The photographs, testimonies and relationship with the community seem to create a different kind of archive, distinct from the official archives of governments and institutions. Do you believe cinema can build a memory of what official narratives attempt to suppress or control?
Lucrecia Martel: Yes, absolutely. I think this is something that anyone making a film about communities facing displacement from their territories should keep in mind.
We can fail in many ways while making a film. We can make mistakes, romanticize situations, misjudge people or events. But if, during that process, we manage to create an archive of materials from that community, that archive will remain for future generations regardless of the final result of the film itself. Hopefully, it may even help future filmmakers from those communities tell their own stories.
The power of cinema is not limited to the archive that appears on screen through photographs or documents. It also lies in what we are able to gather and preserve through research and pre-production. That is something extremely valuable, and something I did not fully understand before making this film.
Our modern history is largely built upon written documents. Latin American nation-states emerged from liberal and conservative projects, and written records often functioned as a filter that prevented certain communities from accessing their territories and rights.
This is something we urgently need to address. There should not be second-class citizens in our countries. That is why I believe a parallel memory can be built through images, sounds and archives.
“Cinema should challenge our automatic perceptions”
Alvaro Goulart: When a territory is disputed not only economically, but also historically and culturally, how can cinema position itself in relation to that reality?
Lucrecia Martel: I believe cinema has the potential for a kind of adventure. Some filmmakers embrace it, many do not. That adventure consists of challenging the establishment and the status quo.
But not through a simplistic rebellious attitude. Rather, by disrupting the automatic ways in which we analyze and perceive certain issues.
It would be a great loss if cinema existed only to entertain people who spend hours consuming audiovisual narratives that do not alter their perception of the world in any meaningful way.
I deeply wish for that adventure to continue. For all of us who worked on Nuestra Tierra, the film became a turning point in our professional lives.
“It is difficult to build a country when part of its population does not share the same rights”
Alvaro Goulart: Argentina is often portrayed as a nation closely linked to European immigration, while Indigenous roots have frequently been marginalized or denied. How do you view Argentina’s difficulty in recognizing itself as a country with a strong Indigenous heritage?
Lucrecia Martel: I feel that many of the traumas we experience today — in our economy, in the loss of faith in politics and in the lack of representation people feel — are connected to that issue.
This is a personal perception, but I believe it is very difficult to build a country based on a mythical invention. Because a country is, in many ways, an invention. Who defines its borders? Who determines the limits of a territory?
When part of the population does not enjoy the same rights as everyone else, a permanent turbulence is created. That inequality inevitably affects history, economics and culture.
That is why I believe we must confront this challenge urgently. If we want a truly independent and sovereign nation, we must ensure that all citizens enjoy the same rights.
“One of cinema’s greatest powers is its ability to alter perception”
Alvaro Goulart: In your film there is a constant tension between the invisible and the hidden — things that are present but not acknowledged. Do you believe cinema can reveal realities that are right in front of us, but that society has learned not to see?
Lucrecia Martel: Absolutely. I think that is one of cinema’s greatest powers.
To alter perception.
To make us see again what we have stopped seeing.
To make us hear again what we have stopped listening to.
The power of audiovisual storytelling in that sense is extraordinary. Sometimes I feel we should trust that power more. Transformation is possible — not because of a single film, but because of many films that help us understand the world differently.
“Narrative also exists in the language of cinema”
Alvaro Goulart: One of the most remarkable aspects of your filmography is the way sound constructs what remains outside the frame. There is a powerful exploration of what is not seen.
Lucrecia Martel: That is because we are still struggling with an idea of cinema that is based solely on plot.
Cinema is a young art form. We still need to rethink and reinvent it by understanding that narrative does not exist only in the story or the screenplay. It also exists in the language through which that story is told.
Otherwise, we risk believing we are creating change when we are merely altering superficial elements. Think about superhero films. Today, studios are more concerned with representation and produce films led by female heroes.
But if the solution to every conflict remains physical violence, then we have not truly advanced in our understanding of how human beings might resolve their differences. We continue to reinforce the logic of the enemy — a logic that ultimately legitimizes war and conflict.
Lucrecia Martel’s work will also be the subject of the 39th edition of Clube do Crítico, dedicated to Latin American Cinema. Participants will discuss La Ciénaga (The Swamp), Martel’s groundbreaking debut feature and one of the most influential films in twenty-first-century Latin American cinema. Twenty-five years after its release, the film remains essential for understanding not only Martel’s artistic vision, but also the aesthetic and political transformations associated with the New Argentine Cinema movement.
JORNALISTA, PUBLICITÁRIO E CRÍTICO DE CINEMA. Cresceu no ambiente da videolocadora de bairro, onde teve seu primeiro emprego. Ávido colecionador de mídia física, reune mais de 3 mil títulos na sua coleção. Já participou de produções audiovisuais independentes, na captura de som e na produção de trilha musical. Hoje, escreve críticas de filmes pro site do Cinema com Crítica e é responsável pela editoração das apostilas do Clube do Crítico. Em 2025, criou seu perfil, Cria de Locadora, para comentar cinema em diversos formatos.



