O Brasil também faz ficção científica
Existe a percepção equivocada de que o audiovisual brasileiro não produz ficção científica. Wagner Moura tentou conquistar Alinne Moraes em O Homem do Futuro, uma comédia romântica costurada com viagem no tempo. Adirley Queirós encarou o (afro)futuro em Branco Sai, Preto Fica, Era uma Vez Brasília e Mato Seco em Chamas. Gabriel Mascaro imaginou cenários distópicos em Divino Amor e O Último Azul, premiado no Festival de Berlim de 2025. Até Kléber Mendonça Filho, ao lado de Juliano Dornelles, já investiu no gênero em Bacurau, Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 2019. Na Netflix, 3% e Boca a Boca são produções igualmente ambientadas em um futuro próximo. Mesmo a partir desse recorte necessariamente incompleto, já é possível afirmar que o Brasil produz ficção científica. A diferença, porém, é que as produções do gênero evitam as convenções e formas do cinema hollywoodiano para investir em formas de imaginar o futuro mais condizentes com a realidade do audiovisual nacional.
Aí chegamos a Futuro Futuro. Escrito e dirigido por Davi Pretto, o roteiro ambienta-se em um futuro próximo, em que os avanços em inteligência artificial provocaram uma ruptura social e existencial. Ao mesmo tempo em que a sociedade está segregada entre a camada mais rica habitando os condomínios verticais e a mais pobre, em comunidades marginalizadas, o indivíduo também perdeu o contato com quem é. Isto é evidenciado em K (Zé Maria Pescador), um homem sem memória que desperta no lado mais pobre dessa sociedade distópica. Ele é acolhido por Sílvio (João Carlos Castanha), um trabalhador idoso e solitário, e Joana (Carlota Joaquina), uma professora de inteligência artificial que dispõe de um dispositivo, o Oráculo, que é capaz de ajudar as pessoas a recordar quem são ou, ao menos, uma versão de quem são.
Uma mistura de Alexa com HAL-9000, o Oráculo é um Cíclope que resgata, a partir da leitura facial do usuário, as imagens escondidas ou adormecidas dentro de cada um. Memórias factuais ou reconstruções extrapoladas, interpoladas e até fabricadas, projeções que embaralham invenção e realidade até torná-las indistinguíveis. O Oráculo é tanto o reflexo de experiências informatizadas orientadas ao usuário, que apenas entregam o que esse acredita desejar, como um substituto ou um simulacro do cinema, uma projeção audiovisual (re)construída a partir de fragmentos de memória. Torna-se ainda mais curioso porque o dispositivo basicamente não é mais usado pelos moradores do condomínio, tendo sido relegado às camadas mais baixas e alçado à condição de tecnologia viciante.
As imagens produzidas pelo Oráculo orientam K na sua missão de autodescoberta, e dão ao filme o seu aspecto mais contraditório: o emprego de inteligência artificial para criticar a inteligência artificial. Para a criação dos condomínios, Pretto emprega softwares de IA, narrativamente justificados pelo fato de ser o Oráculo o autor da criação das imagens banhadas em um filtro vermelho como se esse cenário fosse tão alienígena quanto é Marte, por exemplo. Logisticamente, a decisão é também compreensível, considerando o orçamento ínfimo da produção e a necessidade de procurar soluções alternativas. Nesse sentido, a realidade distópica imaginada pelo roteiro não está tão distante de um mundo sustentado pela lógica da permuta – há placas por toda parte oferecendo a troca de serviços por comida ou cigarros – e pela distribuição de rações lançadas por drones.

Da mesma maneira em que o Futuro Futuro é um cenário de abandono absoluto do poder público, em que as forças de segurança e controle são as responsáveis por furtar os itens de subsistência como água e comida, também o contexto real da produção, que além do apoio módico do poder público, ainda enfrentou a tragédia ambiental das enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul em 2024, afetando toda a população, mas de forma profundamente desigual. Os mais pobres amargaram maiores perdas humanas e materiais do que os mais ricos, já que o desequilíbrio climático também é acentuado pela desigualdade social e econômica. Ainda que existam razões concretas para empregar a inteligência artificial, é impossível não achar contraditório o seu uso mesmo quando pedagógico em um filme crítico à tecnologia, uma tecnologia que prometeu eficiência e democratização, mas vem aprofundando desigualdades já existentes.
Aos personagens mais pobres – e, em alguma medida, a nós também – resta a busca por propósito em um mundo em que não há mais trabalho, senão o subemprego de uma economia de bicos, e muito menos humanidade, exercida como um impulso erótico e não como um desejo construído. Embora, do lado mais rico, a situação não seja tão diferente, em festas sem fim e encontros sem prazer sugestivos de um apocalipse inadiável. A ansiedade não tem as mesmas origens, e certamente não é possível compará-las, senão pelo fato de compartilharem o mesmo destino. Um em que todos precisaram se adaptar à velocidade das máquinas, ao custo de suas humanidades. Quando Joana bombardeia os seus alunos com imagens sucessivas e, aparentemente, não relacionadas, a ânsia de ajudá-los a encontrar o seu lugar no mundo da IA, é paradoxalmente o convite para que percam o pouco que lhes resta de humanidade, num estado zumbi diante da tela e do Oráculo.
É onde a crítica de Pretto é mais eficiente. A tecnologia que veio nos ajudar nos processos de trabalho é a tecnologia que retira de nós humanidade, conexão e propósito. O apocalipse pode não ser material, apenas metafórico, como a revelação do fim de um estágio da humanidade. O cinema desempenha um papel nisso. Uma arte que tem se adaptado à evolução da tecnologia, às vezes sufocando-nos com tantos estímulos e impondo um imaginário monolítico da ficção científica. O futuro em tons néon, os robôs, os carros voadores, a inteligência artificial e o apocalipse climático, tudo isso pode ser verdade num amanhã próximo e iminente, mas Futuro Futuro entende que qualquer futuro compartilhará uma mesma característica:: a captura de mentes e a desumanização da sociedade.
Futuro Futuro adapta a ficção científica ao Brasil, e não o contrário. Por isso, a sua profecia não aponta para um amanhã distante, mas para um presente que temos aprendido a naturalizar. Se se chamasse Presente Presente, não seria tão absurdo.
O filme estreia quinta-feira nos cinemas brasileiros.
Minha entrevista com o diretor e roteirista.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.


