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Pequenas Criaturas

Classificado como 3 de 5

Pequenas Criaturas

2025

100 min

Classificado como 3 de 5

Diretor: Anne Pinheiro Guimarães

A sobrecarga materna e suas manifestações, traduzidas em sentimentos, estados, ansiedades e no caos interior, encontram nos meios imagéticos mais extravagantes e explícitos do cinema um canal de representação. Produções recentes, como Nightborn, de Hanna Bergholm, e Mother’s Baby, de Johanna Moder, vêm associando a figura filial a criaturas das mais diversas naturezas monstrificadas, personificando a relação por vezes alienígena que se estabelece entre mães e filhos, sobretudo durante o período pós-parto. Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria, de Mary Bronstein, por sua vez, reflete a ansiedade de uma mãe madura por meio de uma composição angustiante de elementos fílmicos, todos convergentes para simular o estado de inquietação extrema vivenciado pela protagonista interpretada por Rose Byrne. Há, portanto, recursos dos mais criativamente turbulentos à disposição para que o cinema se torne, também, espelho da não idealização materna. 

Os filhos – isto é, as criaturas sob a tutela materna – nem sempre assumem contornos monstruosos, tampouco nascem biologicamente de suas genitoras, limitam-se à fase neonatal ou pertencem à espécie humana. Em Pequenas Criaturas, longa brasileiro dirigido por Anne Pinheiro Guimarães e eleito o melhor filme no Festival do Rio 2025, são tomadas decisões importantes na representação desse vínculo. A obra não só caminha na direção oposta às produções mencionadas, como amplia o entendimento do dever de cuidado, revelando-se uma virtuosa faceta do mesmo tema. 

A mãe em questão é Helena (Carolina Dieckmann), mulher que se muda com o marido e os dois filhos – Dudu (o adorável Lorenzo Mello), de sete anos, e o adolescente André (Théo Medon) – para a promissora e futurista Brasília de 1986. O marido, figura sem rosto, parte para uma viagem de negócios às vésperas do aniversário do filho caçula, sem previsão de retorno, deixando a família para trás. Estrangeira numa terra para ela absolutamente desconhecida, isolada num apartamento tomado por caixas de mudança e responsável por duas crianças, Helena se fecha em frustração e melancolia. A dinâmica familiar se converte, assim, em três formas de existência insuladas, divididas pela circunstância, mas visceralmente dependentes uma da outra. 

Carolina Dieckmann e Caco Ciocler em Pequenas Criaturas (Imagem: divulgação)

O silêncio é a medida que dimensiona o dilema materno em Pequenas Criaturas – um dilema sob a ótica da maternidade idealizada, mas um estado plenamente humano sob a perspectiva realista. Helena é, antes de tudo, uma mulher solitária que carrega a amargura de notar seu relacionamento amoroso ruir, derrocada que desestrutura a família que ela precisa carregar, agora, sozinha. Como a Brasília que carece de identidade, a protagonista interpretada por Dieckmann custa a reencontrar a sua. Na cidade planejada, que abriga prédios imponentes e descampados vazios, Helena é um ponto desorientado e em sufocamento. Essa relação é ilustrada pela direção ao posicioná-la diante da grandeza árida urbana, ou mesmo nos cantos escuros e reclusos de seu apartamento e automóvel, onde fuma sem trégua em busca de alento, bem como pela interpretação da atriz, que elabora a melancolia com poucas palavras e um olhar profundamente deserto. 

Em que pese a mulher que tenta reunir seus cacos, há as pequenas criaturas que dela dependem – coexistem suas versões, e nem sempre há equilíbrio. Sua introspecção a aliena dos acontecimentos ao redor, principalmente com relação aos filhos. O ápice da compreensível desatenção e, ao mesmo tempo, a virada de chave em prol do retorno de sua alma ao corpo, é o atropelamento de um cachorro em um dos muitos momentos passados em trajeto, quase que numa constante rota incerta. O peso na consciência a faz retornar ao local do ocorrido, resgatar o animal e levá-lo para casa para que se torne mais uma das pequenas criaturas que vivem sob seu cuidado: uma forma de autorredenção que guiará o desenvolvimento do longa a partir disso. 

O animal é uma fêmea, batizada de Cacau, uma criatura que surge já sentenciada. Seus ferimentos e estado de saúde indicam que, no ambiente doméstico, ela não sobreviverá, ainda que apenas Helena dentre os membros da família mostre-se incapaz de enxergar esse destino. Pequenas Criaturas aborda com delicadeza e ternura a inabilidade momentânea da protagonista em se conectar com aqueles ao seu redor: a humanidade no reconhecimento de suas falhas parte do acolhimento do fardo emocional suportado pela personagem, dispensando qualquer verbalização para que a compreendamos. 

A densidade dessa abordagem quase claustrofóbica sobre uma mulher dual é bem compensada pela ternura que advém dos demais personagens e elementos fílmicos. Os vínculos de afeto, embora distantes, são fortes, sobretudo nas relações de amizade e nas descobertas da infância e da adolescência vivenciadas pelos filhos. Essa leveza sobressai também no destaque dado às diversas formas de vida que compõem o leque abrangente das pequenas criaturas: as crianças, a cadela e os pequenos insetos que roubam o nosso olhar em breves pausas contemplativas. Assim, ao mesmo tempo que paira a atmosfera melancólica, Anne Pinheiro Guimarães a equilibra com um calor que, aos poucos, se achega à cinzenta e seca Brasília. 

Há, inclusive, uma certa idealização na formação gradual da boa vizinhança que vai tornando aquelas existências mais felizes e unidas – e tal, no contexto, não é demérito, visto que a aura oitentista permite a inserção de elementos que funcionam como esses pontos de conforto que vão tornando a família menos alienígena no local. Pequenas Criaturas, cuja fotografia nostálgica é tão bem conduzida por Pablo Baião, aproveita com habilidade o tempo do filme para se permitir fugazes momentos de magia. Esses respiros tornam mais aprazíveis, inclusive, certas convenções do roteiro que incomodam – como, por exemplo, o surgimento de Carlos (Caco Ciocler), o galã que a auxilia a trocar os pneus na estrada e, coincidentemente, reside no mesmo prédio de Helena. 

Pequenas Criaturas afasta o mito da maternidade irretocável e expõe a crueldade do isolamento feminino em um cenário frio que, com afeto e humanidade, vai se tornando um caminho de recomeço e novas páginas. Se produções recentes preferem a monstruosidade explícita para dar conta do esgotamento e da alienação maternas, o longa de Anne Pinheiro Guimarães busca o humano na própria vulnerabilidade do dia a dia. No acolhimento daquilo que é frágil, da forma como se dá e se é possível no momento – seja um animal ferido, um laço comunitário que se desenha ou as próprias falhas -, é que a obra abraça mulheres como Helena, convertendo sua melancolia e desamparo no ponto de partida para a sua reconstrução – e, por que não, para o surgimento de uma nova versão de si mesma. 

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