Crítica em português
May Contain: My Life Film é um documentário que não pretende ser uma experiência narrativa ou estética, mas uma peça de consciência e difusão de conhecimento. A sua prioridade não está na construção de uma linguagem narrativa sofisticada, mas na urgência de comunicar e, sobretudo, esclarecer e tornar visível uma realidade que permanece amplamente negligenciada nos Estados Unidos.
Misturando depoimentos documentais com uma encenação dramática, o filme acompanha crianças, adolescentes e suas famílias na rotina de quem convive com alergias alimentares potencialmente fatais. Em vez de privilegiar casos extraordinários, o documentário preocupa-se no cotidiano banal. Uma festa de aniversário, um almoço escolar, uma reunião familiar ou uma ida ao restaurante e supermercado podem transformar-se em situações de risco, caso não haja a devida cautela. O que para a maioria das pessoas é um ato corriqueiro e automático para outros exige um estado constante de alerta.
O mérito maior do documentário está em desmontar a percepção comum de que alergias alimentares representam apenas uma restrição ou preferência alimentar inconveniente. Ao longo dos relatos, compreende-se que elas constituem uma condição médica séria, e capaz de provocar reações graves e até fatais. Dessa forma, o documentário desempenha um papel didático ao discernir conceitos frequentemente confundidos pelo público, como alergia, intolerância e preferência alimentares. A presença de advogado da causa e especialista contribui para organizar essas informações sem tornar a narrativa excessivamente técnica.
Mas a discussão mais oportuna proposta pelo documentário não é médica, e sim social. O filme evidencia como as pessoas com alergias alimentares frequentemente ocupam uma posição de invisibilidade ou de marginalidade. São jovens que precisam explicar por reiteradas vezes por que não podem comer determinados alimentos; adolescentes vistos como exagerados ou difíceis; famílias obrigadas a negociar com escolas, restaurantes e organizadores de eventos para garantir condições de segurança adequadas para o seu familiar.
Essa invisibilidade acaba produzindo diferentes formas de exclusão. Festas escolares, encontros familiares e atividades coletivas deixam de ser momentos de socialização e integração para se tornarem espaços de ansiedade. O receio da contaminação cruzada, a necessidade de conferir ingredientes e a preocupação com os utensílios utilizados no preparo dos alimentos transformam experiências a princípio simples em pequenos tormentos. Imagina, então, precisar explicar-se por ter descartado os brownies carinhosamente produzidos por um interesse amoroso?
A crítica também se estende às políticas públicas estadunidenses. O documentário questiona a ausência de protocolos mais consistentes nas escolas, a dificuldade de acesso imediato a canetas de adrenalina e a escassez de programas educacionais voltados para professores, estudantes e funcionários. A falta de ação é também o sinônimo da falta de empatia e de reflexões sobre inclusão. Afinal, uma criança não deveria deixar de participar da vida escolar porque os outros ao seu redor desconhecem os riscos envolvidos em sua condição, ou sequer se interessam em atendê-los.
Do ponto de vista cinematográfico, May Contain: My Life permanece convencional. A narrativa opta por uma linguagem transparente, funcional e inteiramente subordinada à transmissão das informações. Os depoimentos seguem a cartilha tradicional do documentário tradicional – com as cabeças falantes dos personagens compartilhando a sua alergia e suas experiências. Já a reconstituição dramática procura ilustrar, de um jeito não arrojado ou despojado, situações de risco e conscientização de maneira acessível ao público-alvo.
Essa dramatização funciona como um recurso pedagógico adicional, com um desenvolvimento igualmente didático. Assim, o filme parece confiar mais na transmissão clara e inequívoca da mensagem do que na força das imagens. Não é uma obra preocupada em experimentar formas, criar ambiguidades ou explorar as possibilidades expressivas do documentário contemporâneo, mesmo que o filme proporcione a oportunidade de alguns personagens interpretarem versões deles mesmos, reduzindo qualquer distância entre realidade e representação.
Também merece destaque a valorização da autonomia. Pois em vez de retratar esses jovens exclusivamente como vítimas, o documentário mostra indivíduos aprendendo a administrar sua própria condição, em vez de permanecer à espera de que a sociedade altere a legislação. A mensagem deixa de ser sobre vulnerabilidade para tornar-se também um discurso sobre autonomia e responsabilidade.
No fim das contas, May Contain: My Life não permanecerá na memória por sua realização cinematográfica. A sua linguagem é simples, sua construção dramática é previsível e sua ambição estética é limitada. No entanto, essa constatação não enfraquece a sua importância, nem a sua missão de informar, conscientizar, visibilizar e, quem sabe, transformar quem assista a compreender a diferença que existe entre um alimento e uma emergência médica.
English review
May Contain: My Life is a documentary that does not aspire to be a sophisticated narrative or aesthetic experience, but rather an instrument of awareness and public education. Its priority lies not in crafting an elaborate cinematic language, but in the urgency of communicating, informing, and, above all, bringing visibility to a reality that remains largely overlooked in the United States.
Blending documentary interviews with dramatic reenactments, the film follows children, teenagers, and their families as they navigate the daily challenges of living with life-threatening food allergies. Rather than focusing on extraordinary cases, the documentary is concerned with the ordinary routines of everyday life. A birthday party, a school lunch, a family gathering, or even a trip to a restaurant or supermarket can quickly become dangerous if proper precautions are not taken. What is a simple, automatic act for most people demands constant vigilance from others.
The documentary’s greatest strength lies in dismantling the common misconception that food allergies are merely inconvenient dietary restrictions or personal preferences. Through its testimonies, it becomes clear that food allergies are serious medical conditions capable of triggering severe—and even fatal—reactions. In this respect, the film fulfills an important educational role by distinguishing concepts that are often confused by the general public, such as food allergies, food intolerances, and dietary preferences. The participation of both a legal advocate and a medical specialist helps organize this information without making the narrative overly technical.
Yet the documentary’s most compelling discussion is not medical but social. The film reveals how people living with food allergies frequently occupy a position of invisibility or marginalization. Children and teenagers must repeatedly explain why they cannot eat certain foods; adolescents are often perceived as difficult or overly cautious; families find themselves constantly negotiating with schools, restaurants, and event organizers simply to ensure that their loved ones can participate safely.
This invisibility ultimately produces different forms of exclusion. School parties, family celebrations, and social gatherings cease to be occasions for inclusion and become sources of anxiety instead. The fear of cross-contamination, the need to scrutinize ingredient labels, and the concern over shared cooking utensils transform seemingly simple experiences into everyday ordeals. Imagine, then, having to explain why you declined the brownies lovingly baked by someone with a romantic interest in you.
The documentary also extends its criticism to public policy in the United States. It questions the absence of stronger school protocols, the limited availability of epinephrine auto-injectors, and the lack of educational programs for teachers, students, and school staff. This institutional inaction also reflects a broader lack of empathy and a failure to engage seriously with the principles of inclusion. After all, no child should be excluded from school life simply because those around them either fail to understand—or fail to care about—the risks associated with their condition.
From a cinematic standpoint, May Contain: My Life remains conventional. The film adopts a transparent, functional style entirely devoted to conveying information. Its interviews follow the familiar talking-head format, allowing participants to share their allergies and personal experiences directly with the audience. Meanwhile, the dramatic reenactments illustrate situations involving risk and awareness in a straightforward, accessible manner, without attempting stylistic innovation.
These reenactments function primarily as pedagogical devices, reinforcing the documentary’s educational objectives. Consequently, the film places greater trust in the clarity and accessibility of its message than in the expressive power of cinematic imagery. It is not concerned with experimenting with form, cultivating ambiguity, or exploring the artistic possibilities of contemporary documentary filmmaking, even though it occasionally allows some participants to portray themselves, narrowing the distance between lived experience and representation.
Another noteworthy aspect is the emphasis on personal autonomy. Rather than portraying these young people solely as victims, the documentary depicts individuals learning to manage their own condition instead of passively waiting for society or legislation to change. As a result, its message shifts from one centered exclusively on vulnerability to one that also celebrates responsibility, independence, and self-advocacy.
Ultimately, May Contain: My Life is unlikely to be remembered for its cinematic achievements. Its visual language is simple, its dramatic construction predictable, and its aesthetic ambitions modest. Yet these limitations do not diminish either its importance or its mission. More than an artistic accomplishment, the film succeeds as an educational tool—one that informs, raises awareness, gives visibility to an often-overlooked reality, and perhaps encourages viewers to recognize the profound difference between an ordinary meal and a life-threatening medical emergency.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.



