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Franz

Classificado como 3.5 de 5

Franz

2025

127 minutos

Classificado como 3.5 de 5

Diretor: Agnieszka Holland

Poucos artistas tiveram a honra, o privilégio, ou mesmo o fardo de dar origem a um adjetivo. Franz Kafka é um deles. O escritor checo revolucionou a literatura do século XX, e a sua visão de mundo sobreviveu à própria obra. Kafkiano deixou de designar apenas o estilo literário do autor para nomear situações absurdas, burocracias sufocantes e sensações de deslocamento diante da realidade. Assim, o desejo de biografá-lo obriga enfrentar o paradoxo: como retratar a vida de um homem literalmente engolida pela obra criada?

A experiente cineasta polonesa Agnieszka Holland enfrenta esse impasse desde os minutos iniciais. Com base no roteiro originalmente escrito por Marek Epstein, Agnieszka estabelece uma relação entre passado e presente essencial para compreender a ambição estética dessa empreitada. Uma que procura o homem comum no gênio literário, e dialoga com o agora para revelar a relevância sua histórica. Enquanto o pai (Peter Kurth) corta diligentemente o cabelo do pequeno Franz, o posicionamento e a movimentação da câmera cortam essa ação à idade adulta dando a ilusão de continuidade. Franz (Idan Weiss) continua sufocado pela figura dominante do patriarca, num recurso formal elegante e pragmático. O tempo deixa de ser cronológico, passa a ser fluido. O passado deixa de anteceder o presente, a fim de permanecer vivo dentro dele.

Holland realiza uma cinebiografia narrativamente convencional, mas não formalmente. Os acontecimentos conhecidos ou não da vida do escritor estão todos presentes: a relação opressora com o pai, os romances, a dificuldade de encontrar seu lugar no mundo, o nascimento das obras que mais tarde redefiniriam a literatura moderna costurados dentro de causos do dia-a-dia. Entretanto, a diretora parece menos interessada em pontuar cada um desses elementos e o sentimento de Franz em relação a eles, mais em experimentar esteticamente como permanecem até os dias de hoje.

Idan Weiss interpreta Franz Kafka.

Naturalmente, o filme não é experimental. Algumas sequências funcionam como pílulas que ilustram a sua personalidade, como na cena em que Franz exige a devolução de uma coroa dada a uma pessoa em situação de rua para refletir qual é o significado do peso exato das palavras. Em outro momento, uma leitura pública é recepcionada com uma oscilação entre o desconcerto e a rejeição, pois o público-alvo não estava preparado para uma obra bem à frente daquele tempo. Esses episódios ajudam a construir o homem por trás do mito de uma maneira que agrade o fã de uma biografia convencional.

Nas brechas e rupturas, porém, Holland dá ao filme a sua personalidade. Franz criança aparece na idade adulta. Alguns momentos mais reconhecíveis dos livros invadem o mundo real, como quando Franz experimenta a sua metamorfose ao flertar com o adultério. Autor e criação/criatura se envolvem de um jeito inseparável. E Holland parece constantemente procurar novas maneiras de contar uma história que, em linhas gerais, já conhecemos, especialmente quando o presente, o nosso presente, invade o tempo presente da narrativa.

Franz estranha estar sendo observado, e o que parecia ser somente paranoia manifesta-se como imagem cinematográfica. De fato, Franz está sendo observado por pessoas… nós. Enquanto visitantes percorrem o museu dedicado a Kafka ou turistas fotografam a sua escultura em Praga, Franz continua vivendo. Ao mesmo tempo em que está dentro de seu apartamento, lidando com dramas íntimos e familiares, os visitantes do museu passeiam pelos mesmos cômodos. Ou enquanto é atirado no lago para aprender a nadar, turistas contemplam o mesmo corpo d’água. É uma abordagem coerente, já que leitores ainda estudam e aprendem sobre sua obra mais de um século depois; cinéfilos assistem a adaptações ou inspirações em sua obra e procuram significados análogos; e nós, espectadores da biografia, também invadimos a sua privacidade com o nosso olhar.

O efeito é mais curioso porque transforma a própria recepção de Franz em parte da biografia. Holland sugere que ninguém permanece vivo somente através daquilo que escreveu, mas também através da forma como continua sendo lido, interpretado ou apropriado pelas gerações subsequentes. A partir daí, a diretor também posa uma crítica silenciosa à materialidade. Se o pai de Franz construiu a sua vida acreditando no trabalho e patrimônio acumulado e na autoridade patriarcal, e assistiu a tudo desaparecer, o incompreendido Franz, que enfrentou incompreensão, rejeição e publicou relativamente pouco em vida, torna-se um dos escritores mais influentes da modernidade. O que o pai criou acabou, enquanto o que Franz fez permanece vivo.

Holland não transforma isso em panfleto. Ela prefere resolvê-lo através de imagens, e a de Kurth sozinho entre as paredes da casa que construiu é uma das imagens mais poderosas que o filme produziu. E, embora Franz nem sempre encontre o equilíbrio entre biografia, experimentação e reflexão, com momentos em que as propostas parecem disputar espaço dentro do mesmo filme, prejudicando-o em matéria de ritmo e coerência, as escolhas revelam uma diretora interessada em desafiar as convenções do gênero, igual faz o biografado.

Agnieszka Holland compreende algo essencial sobre Franz Kafka. Explicá-lo talvez seja impossível. O máximo que o cinema pode fazer é aceitar suas ambiguidades e seu estranhamento, e permitir que o absurdo se torne, aos poucos, natural. E o filme faz isso com segurança.

Franz estreia quinta-feira (2) nos cinemas brasileiros.

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