Posso voltar? As imagens que a anistia não conseguiu apagar
Em 2026, tive a oportunidade de assistir a dois documentários apoiados em imagens de arquivos que existem praticamente há meio século, mas que, para mim, pareciam ter sido filmadas ontem. A imagem continua em 8 ou 16mm, granulada, envelhecida, ainda que continue dialogando com assuntos contemporâneos e com o fato de ter sido tornada pública pela primeira vez. Enquanto o belíssimo Once Upon a Time in Harlem recuperou uma gravação feita cinco décadas atrás, durante o reencontro de personagens essenciais do Renascimento do Harlem, Anistia 79 parte de registros realizados por Hamilton Lopes dos Santos durante a Conferência Internacional pela Anistia e pelas Liberdades Democráticas no Brasil, realizada em Roma, em junho de 1979.
Encontradas pela diretora no acervo da Universidade de Nanterre, nos arredores de Paris, essas imagens permaneceram armazenadas antes de encontrarem novamente aqueles que foram filmados. O que acontece quando uma pessoa encontra, cinquenta anos depois, uma imagem de si mesma que nós estamos vendo pela primeira vez? É a pergunta que a diretora Anita Leandro pretende responder.
Mas, antes de refletir sobre ela, confesso que existe uma segunda questão, menos confortável. Eu não conheço essas pessoas. Não conheço a maioria delas; na verdade, praticamente nenhuma. Reconheço os acontecimentos históricos aos quais estão relacionadas, mas não reconheço aqueles rostos. Meu desconhecimento, que poderia ser apenas uma ignorância individual, começa a me parecer uma evidência de algo maior: quantas pessoas ou histórias que participaram da resistência à ditadura militar brasileira nós deixamos desaparecer da nossa memória? Quantas histórias foram reduzidas a algumas fotografias, algumas notas de rodapé em livros, alguns episódios repetidos até que os indivíduos que os protagonizaram fossem apagados por eles? O documentário restitui à História os rostos que o tempo ousou apagar.
E devolve a esses rostos a possibilidade de se reconhecerem. Uma das maiores belezas do documentário está quando os sobreviventes, agora idosos, assistem às imagens registradas há décadas. Eles reconhecem a si mesmos, reconhecem amigos, companheiros e pessoas que já morreram, pessoas que estiveram ao seu lado, cuja presença talvez houvesse sido preservada somente pela memória. A diretora poderia transformar essas imagens em um documentário ilustrativo de um arquivo histórico – e isto já seria bastante interessante, aliás. Ela dá um passo em um outro sentido. O de observar as reações daqueles homens e mulheres observando o registro recém descoberto e, enquanto isto, “observar” o espectador observando-os. Cada personagem descobre aquelas imagens no próprio tempo. O que seria um acontecimento histórico torna-se uma experiência individual e dramática, enquanto o passado reaparece diante do presente, como fantasmas talvez. Não para nos assustar, mas para não esquecermos.
Assim, o documentário é tanto um filme sobre a anistia propriamente dita quanto um filme sobre o ato de olhar para uma imagem. A diretora interfere muito pouco no campo visual. Quando intervém, entretanto, seus gestos são precisos. A câmera lenta, por exemplo, prolonga a permanência de alguns rostos, como se Anita se recusasse a permitir que aquelas pessoas desaparecessem novamente no arquivo. A bem da verdade, o registro de Hamilton dos Santos é simultaneamente histórico, reconhecendo o momento de expor para todo o mundo o Brasil da ditadura, quanto é humano, deixando que a humanidade evidencie-se na dimensão cotidiana dos encontros. Além do mais, enquanto se observam, as pessoas elogiam, recordam e refletem de situações que, hoje, parecem impensadas: em certo momento, Heloísa Greco (ou seria Marijane Lisboa?) assiste a um momento em que aparece fumando ao lado da filha e comenta, com algum espanto, que estava grávida sem ainda saber disso.
O título poderia sugerir um filme exclusivamente dedicado à Lei da Anistia de 1979, mas Anita está interessada em algo mais amplo e humano. Mas isso não impede o documentário de refletir sobre a auto-anistia que beneficiou os torturadores e terroristas de Estado, os agentes responsáveis por assassinatos, desaparecimentos e todo o aparato repressor. A anistia possibilitou o retorno de exilados – que era o equivalente a arrombar uma porta aberta naquele momento – e contribuiu para preservar a impunidade dos criminosos. A democracia não se sobrepujou, mas acabou atravessada pelos interesses do próprio regime. A distância aproximada de 50 anos entre as imagens de arquivos e as imagens dos sobreviventes que as observam termina enfatizando um diálogo silencioso entre expectativa e resultado prático.
O Brasil ao qual essas pessoas retornaram já era outro, mas continuou carregando estruturas de violência que não desapareceriam com a abertura política. A repressão apenas mudou de forma: grupos de extermínio, milícias paramilitares, salvaguardas constitucionais etc. Anita evita tornar tudo explicativo, embora não possa evitar sê-lo em certa medida. Melhor é quando encontra um momento poderoso e ricamente cinematográfico. Durante o encontro com Denise Ciprim, a cineasta, que até então havia mantido sua presença discreta ou até mesmo invisível, pergunta: “Posso voltar?” E rebobina o trecho que a personagem acabara de observar. Anita interrompe o fluxo e a memória da observadora para retornar à imagem. Ao fazê-lo, encena o ato de retornar ao passado. Estabelece o diálogo entre anistia e o retorno dos exilados ao Brasil e o gesto cinematográfico que possibilita tal retorno.
Entretanto, voltar não significa necessariamente recuperar o que existia antes. Aquele Brasil não existe mais; aquelas pessoas não são mais quem eram. O que existe é a possibilidade de olhar novamente e perceber algo que a primeira vez não permitia enxergar. E sim, não conhecia aquelas pessoas, mas agora aprendi a reconhecer seus rostos (desculpa, Heloísa e Marijane por confundi-las, risos). E há um abismo entre observar as pessoas envoltas em um acontecimento histórico e vê-las diante de uma câmera, conversando, sorrindo, olhando para alguém fora do quadro. O arquivo cinematográfico restitui uma presença que a História frequentemente transforma em abstração, no fim das contas.
E quando a diretora pergunta “posso voltar?”, a resposta mais importante é aquela que nos lembra por que precisamos continuar fazendo isso. Porque precisamos continuar voltando à ditadura militar, como criticam os críticos do cinema brasileiros. Pois se há imagens que demoraram 50 anos para serem tornadas públicas, ou pessoas que demoraram 50 anos anos para se reencontrarem consigo e com outros, há o Brasil, que ainda precisa aprender a olhar para o seu passado sem confundir anistia com esquecimento.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.



