A comédia que a Warner Bros. Discovery tentou engavetar
Durante décadas, Wile E. Coyote sobreviveu a explosões, quedas, atropelamentos, esmagamentos e todo tipo de acidente provocado pelas engenhocas com que tentou capturar o Papa-Léguas; nós, do outro lado da tela, aprendíamos que aquela violência não possuía consequências. O coiote podia ser achatado por uma bigorna por exemplo e, no plano seguinte, voltar inteiro à perseguição do Papa-Léguas. A repetição era a gag; e a insistência obsessiva do personagem, uma parte da piada.
Coyote vs. Acme, de Dave Green, parte dessa tradição para fazer uma pergunta curiosa: e se, depois de décadas sendo vítima de seus fracassos, Coyote decidisse que já era hora de responsabilizar alguém? A resposta é uma comédia de aventura que compreende que o absurdo de levar um personagem de desenho animado a um tribunal só funciona quando, por baixo do humor, existe uma percepção concreta sobre o fracasso individual e o poder das corporações.
A premissa do roteiro transforma a mistura entre animação e live-action em uma comédia jurídica dentro do universo dos personagens criados por Chuck Jones, quando Coyote decide deixar o deserto de Albuquerque para processar a ACME pelos produtos defeituosos e responsáveis pelo seu infortúnio. Ele encontra Kevin (Will Forte), um advogado especializado em casos de personagens animados e que abandonou a ambição profissional para acomodar-se em assinar acordos insignificantes. A estrutura é simples, mas eficiente, em reunir dois zé ninguém em uma história sobre como cada personagem decide lidar com o seu fracasso pessoal; Kevin aprendeu a abraçar sua insignificância; já o Coyote continue tentando com a esperança de que o seu plano funcionará dessa vez.
Nesse cenário, Coyote não é apenas um perdedor, mas alguém que continua tentando. A associação com o mito de Sísifo é evidente: todos os dias ele empurra a mesma pedra morror acima, sabendo que provavelmente ela voltará a rolar morro abaixo, esmagando-o provavelmente. O fracasso não é o fim do ciclo. Ele acorda no dia seguinte (desenhos animados acordam?), senta diante da prancheta, elabora planos mirabolantes, fracassa de novo. Já Kevin transformou as derrotas profissionais em alinhamento de expectativas e tática de sobrevivência baseada em não arriscar mais. Contra o advogado interpretado por John Cena, que abunda confiança, a insegurança de Kevin se torna maior.
Dave Green acentua a tradição da animação de explorar o corpo do Coyote: além de ser um instrumento de humor, é ainda narrativo. Cada acidente carrega uma consequência adicional que antes era apenas piada. A fisicalidade do Coyote é também desejo, frustração, esperança, humilhação, obsessão, compaixão. A câmera permanece com o personagem tempo suficiente para que vejamos para além das piadas; há inclusive um elemento melancólico nisso tudo, porque, embora não vamos torcer para o Coyote capturar Papa-Léguas, percebemos que existe uma engrenagem emocional maior por trás do personagem. Nisso tudo, a ACME não é somente uma empresa fictícia que vende produtos absurdos, melhor dizendo experimenta protótipos nos desenhos animados, mas é a materialização de um sistema que se alimenta do fracasso transformando-o em um modelo de negócio.

É aqui que a narrativa se torna mais interessante quando lembramos que sua existência esteve submetida a mesma lógica corporativa que satiriza. A Warner Bros. Discovery considerou o filme somente como um ativo que poderia ser descartado e deduzido como perda tributária. O público reagiu, a mobilização nas redes sociais cresceu e a existência do longa passou a carregar uma ironia impossível de ser ignorada: uma história sobre um personagem tentando responsabilizar uma corporação pelos danos que ela lhe causou quase foi eliminada por uma decisão corporativa. O tribunal fictício, portanto, adquire uma dimensão que ultrapassa o roteiro. Quando a ACME tenta convencer o público de que seus produtos são necessários apesar dos danos provocados, a sátira encontra um eco retumbante.
Mas o roteiro de Samy Burch não reduz a ACME a uma caricatura. A companhia é particularmente assustadora porque sequer precisa esconder aquilo que faz. A defesa jurídica de seus interesses transforma o absurdo em argumento aceitável, como quando os testes de produtos são justificados pelo fato de terem sido realizados sobre uma população que supostamente não possui a mesma importância que as demais (substitua desenhos animados por minorias, e reflita). A piada ácida funciona porque reconhecemos, por trás do exagero cartunesco, uma lógica de utilização desigual dos riscos e benefícios produzidos por grandes empresas. O filme não precisa abandonar o bom humor para introduzir sua política. Ao contrário: ao surgir dentro de uma aventura dos Looney Tunes, essa lógica corporativista perversa inicia no riso e termina na reflexão.
Coyote vs. Acme reúne todos os principais personagens criados por Chuck Jones (do Pernalonga ao Patoline, passando pelo Piu-Piu e pelo Taz) e, durante 100 minutos aproximadamente, entretém crianças e adultos. Particularmente, entreteve-me de uma forma singular por ser um exemplo material de uma batalha Davi contra Golias. Um filme que quase teve seu destino decidido pela lógica corporativa que coloca sua ACME no banco dos réus acaba encontrando sua maior força justamente nessa contradição, graças à movimentação do público nas redes sociais e à boa vontade (?) da Ketchup Entertainment em adquirir a produção da Warner Bros. Discovery e distribuí-la. Claro que não sou ingênuo e sei que o interesse é o mesmo de qualquer corporação; mas às vezes, esse lucro vem ao encontro de um prazer nostálgico e de quem procura um compromisso agradável para toda a família.
O Coyote passou décadas tentando capturar o impossivelmente veloz Papa-Léguas. Acabou capturando algo maior e significativo para mim: o carinho do público e a esperança de que a arte pode, de algum jeito, contornar a corporação.

The Comedy Warner Bros. Discovery Tried to Shelve
For decades, Wile E. Coyote survived explosions, falls, run-ins, crushing blows, and every kind of accident caused by the contraptions he used to catch the Road Runner; we, on the other side of the screen, learned that this violence had no consequences. The coyote could be flattened by an anvil, for example, and in the next shot return intact to his pursuit of the Road Runner. Repetition was the gag; and the character’s obsessive persistence was part of the joke.
Coyote vs. Acme, directed by Dave Green, takes this tradition and asks a curious question: what if, after decades of being the victim of his own failures, Coyote decided it was time to hold someone accountable? The answer is an adventure comedy that understands that the absurdity of taking a cartoon character to court only works when, beneath the humor, there is a concrete perception of individual failure and corporate power.
The screenplay’s premise turns the combination of animation and live action into a legal comedy set within the universe of the characters created by Chuck Jones, as Coyote decides to leave the Albuquerque desert to sue ACME over the defective products responsible for his misfortune. He finds Kevin (Will Forte), a lawyer who specializes in cases involving animated characters and who has abandoned his professional ambitions in order to settle for signing insignificant agreements. The structure is simple but effective in bringing together two nobodies in a story about how each character chooses to deal with personal failure; Kevin has learned to embrace his insignificance, while Coyote keeps trying, hoping that this time his plan will work.
In this scenario, Coyote is not merely a loser, but someone who keeps trying. The connection to the myth of Sisyphus is obvious: every day, he pushes the same stone up the hill, knowing that it will probably roll back down, probably crushing him. Failure is not the end of the cycle. He wakes up the next day (do cartoons wake up?), sits in front of his drawing board, comes up with elaborate schemes, and fails again. Kevin, meanwhile, has transformed his professional defeats into lowered expectations and a survival strategy based on no longer taking risks. Against the lawyer played by John Cena, who exudes confidence, Kevin’s insecurity becomes even more apparent.
Dave Green emphasizes the animation tradition of exploring Coyote’s body: beyond being an instrument of humor, it is also narrative. Each accident carries an additional consequence that was previously nothing more than a joke. Coyote’s physicality is also desire, frustration, hope, humiliation, obsession, compassion. The camera remains with the character long enough for us to see beyond the jokes; there is even something melancholic about it all because, although we are not going to root for Coyote to catch the Road Runner, we realize that there is a larger emotional mechanism behind the character. In all of this, ACME is not merely a fictional company that sells absurd products — or rather, experiments with prototypes on cartoon characters — but the embodiment of a system that feeds on failure by turning it into a business model.

This is where the narrative becomes more interesting when we remember that its own existence was subjected to the same corporate logic it satirizes. Warner Bros. Discovery considered the film merely an asset that could be discarded and written off as a tax loss. The public reacted, the mobilization on social media grew, and the existence of the film itself came to carry an irony that was impossible to ignore: a story about a character trying to hold a corporation accountable for the damage it caused him was almost eliminated by a corporate decision. The fictional courtroom, therefore, acquires a dimension that extends beyond the screenplay. When ACME tries to convince the public that its products are necessary despite the damage they cause, the satire finds a resounding echo.
But Samy Burch’s screenplay does not reduce ACME to a caricature. The company is particularly frightening because it does not even need to hide what it does. Its legal defense transforms the absurd into an acceptable argument, as when product testing is justified by the fact that it was carried out on a population that supposedly does not have the same importance as everyone else (replace cartoon characters with minorities, and think about it). The acidic joke works because, behind the cartoonish exaggeration, we recognize a logic of the unequal distribution of the risks and benefits produced by large corporations. The film does not need to abandon its good humor to introduce its politics. On the contrary: emerging from within a Looney Tunes adventure, this perverse corporate logic begins with laughter and ends with reflection.
Coyote vs. Acme brings together all the major characters created by Chuck Jones (from Bugs Bunny to Daffy Duck, along with Tweety and Taz) and, over approximately 100 minutes, entertains children and adults. Personally, it entertained me in a singular way because it is a tangible example of a David-and-Goliath battle. A film whose fate was almost decided by the very corporate logic that places its own ACME in the dock ends up finding its greatest strength precisely in this contradiction, thanks to the public’s mobilization on social media and the goodwill (?) of Ketchup Entertainment in acquiring the production from Warner Bros. Discovery and distributing it. Of course, I am not naive and I know that the interest is the same as that of any corporation; but sometimes that profit coincides with the pleasure of nostalgia and with the search for an enjoyable experience for the whole family.
Coyote spent decades trying to catch the impossibly fast Road Runner. In the end, he captured something greater and more meaningful to me: the affection of the public and the hope that art can, somehow, find a way around the corporation.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.


