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Homem-Aranha: Um Novo Dia

Classificado como 3 de 5

Homem-Aranha: Um Novo Dia

2026

144 min

Classificado como 3 de 5

Diretor: Destin Daniel Cretton

Esgotamento físico e mental, sentimentos negativos relacionados ao trabalho, sensação de incapacidade, falta de energia e distanciamento emocional. No Brasil, a Síndrome de Burnout é classificada como doença pela CID-11 (QD85), que a define especificamente como resultante de estresse crônico causado pelo trabalho. O número de brasileiros que sofrem com esse adoecimento é assustador: cerca de 30% dos trabalhadores ativos, ou seja, quase 31 milhões de pessoas – o que coloca o nosso país na segunda posição em número de casos, atrás apenas do Japão. 

Você pode – e deve – estar se perguntando: o que as estatísticas sobre burnout têm a ver com Homem-Aranha: Um Novo Dia? Isso não é, ou não deveria ser, uma crítica sobre um filme de herói?

Pois bem. Em seu novo filme, dirigido por Destin Daniel Cretton, Peter Parker (Tom Holland), em que pesem seus hormônios aracnídeos e habilidades sobre-humanas, torna-se mais uma vítima das mazelas do adoecimento mental por estresse crônico de trabalho. Esse cenário é agravado, principalmente, pelo rito de passagem que ele enfrenta de forma solitária, quando assim não o deveria ser: a transição da juventude para a vida adulta.

Seu corpo sente e sinaliza o esgotamento. Parker é tomado por dores corporais causadas pelo esforço físico demasiado e por dores de cabeça frequentes que ameniza com analgésicos; sofre com a falta de foco decorrente de seus sentidos apurados e sobrecarregados, além de enfrentar crises de ansiedade que refletem sua incapacidade de compreender os próprios sentimentos e necessidades.

A vida do Homem-Aranha, uniformizado ou não, passa a resumir-se a deveres e obrigações – das mais complexas, como salvar o dia, às mais simples, como lavar a roupa ou comprar flores para o túmulo da Tia May (tarefa cumprida graças ao lembrete diário do celular). A sobrecarga é nítida, mas ele custa a perceber que não está dando conta. Essa história soa familiar para alguém?

Peter Parker talvez seja o mais humanizado dos super-heróis do Universo Marvel, justamente porque, além de não ter nascido nem escolhido ser privilegiado (ou amaldiçoado) com superpoderes, é um jovem com uma projeção de futuro comum a qualquer outro de sua idade: crescer, namorar, ir para a faculdade e viver os ciclos da vida.

Em Homem-Aranha: Um Novo Dia, o “amigo da vizinhança” vive isolado e em prol exclusivo do trabalho. Afinal, carregando a culpa pela morte da Tia May (Marisa Tomei) no filme anterior, ele tomou a decisão de apagar a memória de seu melhor amigo, Ned (Jacob Batalon), e de sua namorada, MJ (Zendaya), sobre tudo o que diz respeito a ele. Incapaz, entretanto, de lidar com esse distanciamento, Peter continua a acompanhá-los pelas redes sociais, e o sofrimento claro e constante torna a reaproximação, por fim, inevitável.

Peter Parker (Tom Holland) e Frank (Jon Bernthal) – Imagem: Divulgação

Enquanto isso, em seu universo laboral, ele combate criminosos locais ao lado da detetive Jean DeWolff (Liza Colón-Zayas), até que uma ameaça muito maior do que simples assaltantes e delinquentes se torna o seu foco: um telepata de identidade desconhecida busca informações do Serviço Secreto do Governo, órgão liderado por Metzger (Tramell Tillman), e o único não afetado por seus poderes é, justamente, o Homem-Aranha. 

Cretton equilibra bem os alicerces que sustentam, em especial, a franquia produzida pela Sony: carisma, humor leve, ação e emoção. Para isso, ele conta com o elenco certo em mãos: é inegável o magnetismo de Holland e Zendaya, que ultrapassa, inclusive, as telas. Além disso, destaca-se aqui Jon Bernthal, que concede a seu Frank Castle uma dose eficaz de brutalidade amenizada por humor e humanidade; sua presença ao mesmo tempo dialoga e contrapõe muito bem o protagonista, apresentando as possibilidades diversas de facetas entre o herói e o anti-herói. 

Fato é também que o diretor o faz da forma mais segura possível, ou seja, com um tom protocolar e discreta identidade, garantindo-se, sobretudo, no carisma do elenco, na humanização dos personagens, e na exacerbação pertinente dos sintomas de estresse que são vivenciados por Peter. Ressaltar essas características não é, exatamente, um demérito, pois há filmes que vão caminhar por vias mais genéricas por razões estratégicas. 

Aqui, existe uma dupla necessidade: a de manter um público anterior e a de engajar um novo público. Homem-Aranha: Um Novo Dia não exige que o espectador assista aos filmes anteriores deste ciclo para compreender a história, já que conta com flashbacks e explicações mais do que suficientes para isso. O engajamento com o espectador, por sua vez, se costura justamente no diálogo com a contemporaneidade: um mundo que enfrenta, em escala global, uma severa crise de saúde mental no trabalho. 

A figura do herói inatingível e irrepreensível já não parece despertar o mesmo interesse no espectador de outrora. Se olharmos para as estatísticas destacadas sobre o burnout, percebemos que estamos inseridos em um cenário catastrófico diante do número espantoso de pessoas adoecidas. Há de se considerar que boa parte dessas pessoas frequenta os cinemas e encontra nos filmes um meio de entretenimento, descompressão, reflexão e, consequentemente, identificação.

Só no Brasil, são 31 milhões de pessoas afetadas pela Síndrome de Burnout, portanto, a chance de elas se identificarem com a perfeição heróica é improvável. Pelo contrário, a exposição a ideais inatingíveis pode gerar ainda mais ansiedade. Assim, é fato que experimentar cinematograficamente a crise do herói –  que, com humanidade e reconhecimento de suas falhas, se supera para tornar-se melhor e fazer o que é possível – atrai e conforta de forma muito mais certeira.

Em Homem-Aranha: Um Novo Dia, Peter Parker não lida apenas com as nuances de suas transformações nesse coming of age – uma transição para a vida adulta repleta de colapsos, tropeços e alguns acertos -, mas maneja suas lutas para ser não só um herói melhor, mas, principalmente, alguém minimamente feliz, o que ele aprende ser impossível na dedicação exclusiva ao trabalho.

O Homem-Aranha percebe-se infeliz em seu isolamento – e nem mesmo heróis sustentam a infelicidade. Não há, aqui, qualquer idealização de uma felicidade plena, mas sim a busca por um ponto de equilíbrio entre altos e baixos, dias melhores e piores, e modos de tornar nossa jornada um pouco mais leve. Trata-se, assim, da consciência do “novo dia” – aquele que inevitavelmente vem depois do outro.

Quiçá a síntese dessa conscientização que advém da crise seja a cena em que Cretton coloca um Parker já amadurecido e calejado caminhando em meio a uma multidão que o espera ansiosamente. Sem a máscara, porém, ele é apenas um jovem adulto que passa despercebido, resgatando a normalidade que lhe fora tirada pelos superpoderes. 

Enquanto investe na aproximação do herói aos dilemas modernos para atrair o espectador, Homem-Aranha: Um Novo Dia tem dificuldades de amarrar seus vilões de forma satisfatória. Na verdade, é possível depreender quem é a real figura vilanesca antes mesmo de sua revelação, a despeito das idas e vindas que tentam induzir o público – e o próprio Peter Parker – ao erro sobre a verdadeira ameaça a ser enfrentada.

O filme parece possuir, na prática, dois finais: primeiro parece se encaminhar para o encerramento ao começar a resolver o arco da separação dos amigos (Peter, Ned e MJ); em seguida, dá início a um novo arco focado no confronto com o “mal maior”, o que nos conduz de maneira prolongada ao trabalho pouco complexo de Sadie Sink como Jean Grey.

Por fim, Homem-Aranha: Um Novo Dia, o filme de herói do momento, sustenta que é impossível ao seu protagonista viver apenas como “super-herói”, da mesma forma que franquias do gênero não se mantêm com personagens perfeitos. O heroísmo – ou, transpondo para a nossa realidade, a sobrecarga de trabalho — cobra seu preço no corpo e na mente e se reflete em sintomas e sofrimento. Vencer o dia a dia, ou ainda, ser minimamente feliz, no fim das contas, não significa ser imbatível, mas sim aprender a recomeçar: um dia de cada vez. 

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