A família vira conteúdo, trabalho e produto
Vivemos um momento em que famílias compartilham as suas vidas com desconhecidos por meio das redes sociais, transformando em conteúdo aquilo que antes só pertencia à esfera privada: o nascimento dos filhos, os primeiros passos, as primeiras palavras, as refeições, as viagens, os conflitos e até os momentos de intimidade. A lógica dos reality shows ou de enxergar através do buraco da fechadura parece ter avançado para um estágio ainda mais radical, porque agora a própria família assume simultaneamente as funções de produtora, diretora, roteirista e elenco de uma obra permanente, cuja duração depende da capacidade de continuar despertando a atenção dos outros.
Babystar, de Joscha Bongard, parte desse fenômeno contemporâneo para acompanhar Luca (Maja Bons), uma adolescente criada dentro de uma família de influenciadores com milhões de seguidores. Ela não escolheu uma vida em que a própria existência é comodificada, mas, desde o nascimento, está registrada nos dispositivos de qualquer pessoa que queira acompanhar a família. Apesar de os pais afirmarem amá-la, a participação de Luca é necessária para manter os patrocínios que sustentam o padrão de vida da família. É um acordo que Luca não critica, até o dia em que seus pais decidem ampliar a família e ela percebe que pode deixar de ser o centro das atenções. Isso se transforma em uma crise de identidade e de percepção da própria realidade.
A premissa do roteiro de Bongard é interessante porque o conflito não se resume à birra ou ao ciúme de uma jovem diante da possibilidade de ganhar mais um integrante na família, mas se expande para a disputa pela audiência, ou pela atenção a princípio, e à percepção de que ela própria se tornará parte dos bastidores. Desde criança, Luca aprendeu que a sua existência depende do registro em vídeo, então quando é convidada a dar um passo para o lado, a própria existência entra em crise. Neste processo, a vida familiar foi convertida em produto, e, ao mesmo tempo, o próprio produto passou a substituir a experiência familiar: trocas, confissões e refeições continuam a existir, mas se submetem à necessidade da produção de imagens capazes de manter os anunciantes e os seguidores.
Bongard frequentemente enquadra os personagens a partir de ângulos elevados ou mesmo à distância, como se houvesse câmeras de vigilância instaladas nas paredes da casa. Essa escolha faz da casa moderna, opulenta e construída sobre o dinheiro produzido pela família um vazio impessoal, embora sofisticado. Há espaço de sobra, estúdios de vídeo e podcast, quartos instagramáveis; sobra espaço, mas falta vida.

Mesmo quando estão juntos, os personagens permanecem atrás de uma tela. Ainda assim, conseguem discutir seus problemas familiares enquanto transformam a família em conteúdo. Que melhor momento para uma família conversar sobre as dores emocionais do que em um podcast? A intimidade, portanto, só se torna possível quando passa por uma infraestrutura de mediação. Enquanto a família construiu uma carreira a partir da exposição de sua intimidade, parece incapaz de viver uma intimidade que não seja publicamente exposta. O mal do século, talvez.
A situação se complica quando Luca tenta estabelecer relações além desse sistema. Ela se envolve afetivamente com uma fotógrafa, mas a relação rapidamente se transforma em um produto. Em outro instante, cria um quadro no seu canal para procurar uma família que queira adotá-la. Luca procura uma família “real”, um relacionamento “real”, uma amiga “real”, mas nem ela sabe exatamente como se relacionar no mundo real e nem o mundo real sabe lidar com alguém que passou a vida diante das câmeras.
O avatar de inteligência artificial criado a partir de tudo aquilo que Luca viveu se torna um dos melhores conceitos do filme, porque funciona simultaneamente como arquivo, espelho e companhia. Luca pode conversar com essa versão artificial de si mesma com uma franqueza que não consegue encontrar em seus relacionamentos concretos. E a situação é paradoxal: quanto menos consegue estabelecer vínculos humanos reais, mais próxima fica de uma versão digital de si própria. A tecnologia que deveria conectar é uma cópia malfeita de sua subjetividade; a propósito, é assustador imaginar que a única pessoa capaz de compreendê-la seja justamente ela mesma, quando transformada num algoritmo.
Estamos diante de uma geração que cresceu dentro dessa lógica sistêmica em que a vida se tornou pública e produto. A cada curtida, comentário ou compartilhamento de um bebê ou de uma criança fazendo uma gracinha, ou a cada contrato de publicidade que a sua família assina, maior é a exposição a desconhecidos e maiores são os riscos de que a individualidade e a subjetividade de uma criança ainda em construção sejam sacrificados e transacionados em um leilão virtual implacável. Bongard imagina as consequências psicológicas e emocionais desses bebês ou crianças, agora adolescentes, que viveram uma vida na qual a fronteira entre pessoa e produto deixou de existir.
Como qualquer ferramenta tecnológica, as redes sociais podem ser úteis para preservar as memórias individuais ou coletivas e aproximar pessoas, mas também podem transformar o menor gesto em um ativo econômico e qualquer relação em uma oportunidade de mercado. Falta tudo à família de Babystar: diálogo, espontaneidade, privacidade, contato e até amor não mediado. Luca foi criada para ser uma estrela, mas seu conflito é descobrir se pode ser somente uma pessoa. O gesto final dela é, talvez, o mais poderoso: impedir que outro tenha o mesmo destino que teve e viva uma vida que não precise ser transformada em conteúdo.
When family becomes content, work, and product
We live in a moment when families share their lives with strangers through social media, transforming into content what once belonged exclusively to the private sphere: the birth of their children, their first steps, their first words, meals, trips, conflicts, and even intimate moments. The logic of reality shows, or of looking through a keyhole, seems to have advanced to an even more radical stage, because now the family itself simultaneously assumes the roles of producer, director, screenwriter, and cast of a permanent work whose duration depends on its ability to keep other people’s attention.
Babystar, by Joscha Bongard, starts from this contemporary phenomenon to follow Luca (Maja Bons), a teenager raised within a family of influencers with millions of followers. She did not choose a life in which her very existence is commodified, but, since birth, she has been recorded on the devices of anyone who wants to follow the family. Although her parents claim to love her, Luca’s participation is necessary to maintain the sponsorships that sustain the family’s lifestyle. It is an arrangement Luca does not question until the day her parents decide to expand the family and she realizes that she may no longer be the center of attention. This develops into a crisis of identity and of her perception of reality.
Bongard’s screenplay is interesting because the conflict is not limited to the tantrum or jealousy of a young woman faced with the possibility of gaining another member of the family; instead, it expands into a struggle for the audience, or attention, at first, and into the realization that she herself is about to become part of the background. From childhood, Luca has learned that her existence depends on being recorded on video, so when she is *invited* to take a step aside, her very existence falls into crisis. In this process, family life has been turned into a product, and, at the same time, the product itself has begun to replace the family experience: exchanges, confessions, and meals still exist, but they are subordinated to the need to produce images capable of maintaining advertisers and followers.
Bongard frequently frames the characters from elevated angles or even at a distance, as if surveillance cameras were installed on the walls of the house. This choice turns the modern, opulent house built on the money generated by the family into an impersonal, albeit sophisticated, void. There is plenty of space, video and podcast studios, Instagrammable rooms; there is plenty of space, but there is no life.

Even when they are together, the characters remain behind a screen. And yet they are still able to discuss their family problems while turning the family itself into content. What better moment for a family to talk about its emotional pain than on a podcast? Intimacy, therefore, only becomes possible when it passes through an infrastructure of mediation. While the family built a career out of exposing its intimacy, it seems incapable of experiencing an intimacy that is not publicly exposed. Perhaps this is the malaise of our time.
The situation becomes more complicated when Luca tries to establish relationships beyond this system. She becomes romantically involved with a photographer, but the relationship quickly turns into a product. At another point, she creates a segment on her channel to search for a family willing to adopt her. Luca looks for a “real” family, a “real” relationship, a “real” friend, but she does not really know how to relate to the real world, nor does the real world know how to deal with someone who has spent her life in front of cameras.
The artificial intelligence avatar created from everything Luca has experienced becomes one of the film’s strongest concepts because it functions simultaneously as an archive, a mirror, and a companion. Luca can talk to this artificial version of herself with a frankness she cannot find in her real relationships. And the situation is paradoxical: the less she is able to establish genuine human connections, the closer she becomes to a digital version of herself. The technology that is supposed to connect is a flawed copy of her subjectivity; indeed, it is frightening to imagine that the only person capable of understanding her is precisely herself, once transformed into an algorithm.
We are looking at a generation that grew up within this systemic logic in which life has become both public and a product. With every like, comment, or share of a baby or a child doing something cute, or with every advertising contract signed by their family, exposure to strangers increases, as do the risks that the individuality and subjectivity of a child still in formation will be sacrificed and traded in a ruthless virtual auction. Bongard imagines the psychological and emotional consequences for these babies and children, now teenagers, who have lived a life in which the boundary between person and product has ceased to exist.
Like any technological tool, social media can help preserve individual or collective memories and bring people closer together, but it can also turn the smallest gesture into an economic asset and any relationship into a market opportunity. The family in Babystar lacks everything: dialogue, spontaneity, privacy, contact, and even unmediated love. Luca was raised to be a star, but her conflict is discovering whether she can simply be a person. Her final gesture is perhaps the most powerful one: preventing someone else from suffering the same fate she did and allowing them to live a life that does not have to be turned into content.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.


