Documentário de Mariana Lacerda acompanha a Cia. Teatral Ueinzz e transforma o teatro em espaço de liberdade, expressão e criação para pessoas atravessadas pelo sofrimento psíquico
A Cia. Teatral Ueinzz, criada dentro de um Hospital Dia em São Paulo, é um coletivo artístico composto por pacientes ou ex-pacientes para quem o sofrimento psíquico e emocional não é uma barreira para criar arte. Nem deveria ser, naturalmente, embora a sociedade tenha erigido muros institucionais ao redor de cada um, fazendo com que o mesmo sofrimento que poderia ser partilhado e diluído através da arte permaneça confinado dentro de cada indivíduo, sufocando-o. São esses muros que a diretora Mariana Lacerda ousa derrubar para construir um espaço livre e experimental, em que a arte não é privilégio, mas democratizada e tornada possível a todos os que têm algo a dizer.
Telúrica, a íntima utopia é um documentário empático e que estimula a nossa empatia, embora também possa provocar reflexões e questionamentos éticos sobre o próprio processo criativo. Acima de tudo, é um filme que explora e revela formas de expressão não necessariamente inovadoras, mas que existem para além daquelas comercial e normativamente admitidas. Seu interesse está justamente em observar como a arte pode encontrar outras maneiras de existir quando não precisa obedecer às formas que habitualmente determinam o que deve ser considerado expressão legítima.
O gesto de apontar a câmera para os atores sociais e dar-lhes tempo para ser, expressar-se ou apenas estar pode ser imediatamente interpretado como empático. Pessoas que pertencem à Terra para além do terrestre, em direção ao telúrico, essa experiência profunda e apenas compreensível através da arte, da poesia ou da filosofia de estar vivo e em harmonia com a nossa Terra. Contudo, a empatia desse recorte poderia ser muito simplória, chegando até a tropeçar na exploração artística. Não me parece ser o caso de Mariana. A diretora generosamente empresta seu tempo para assistir, paciente, enquanto uma das atrizes sociais amarra o cabelo. Mariana não se apressa; o gesto tampouco parece encenado ou ensaiado. É somente o cinema e a riqueza de interromper o tempo para olhar atentamente para alguma coisa e encontrar a verdade por trás dela.
A diretora também se doa quando para e escuta os textos dos integrantes da Companhia. O que falam pode não ser interpretado racionalmente, pelo menos dentro da racionalidade cartesiana que o mundo nos impõe. É o mesmo idioma, a mesma forma de expressão e os mesmos códigos comunicacionais, mas há algo que destoa na mesma proporção em que nos atrai. Esses momentos são meio mosaico, meio “canto da sereia”: dentro de cada fala e de cada escuta está a oportunidade ímpar de compreendermos o interesse, o sentimento e a forma de expressão de cada paciente, enxergando, por trás da interpretação imediata, aquilo que só a arte permite conhecer. Nesse aspecto, sinto que Mariana Lacerda seja como nós. Ela também é espectadora, a primeira espectadora da arte que acontece diante de sua câmera.
Por causa da empatia da diretora, sou capaz de desarmar a reflexão ética que minha mente jurídica imediatamente impõe. Esses homens e mulheres, temporária ou mesmo permanentemente, são aqueles que, na linguagem jurídica, podem ser considerados incapazes. Surge, então, uma questão: até que ponto a câmera que adentra um espaço seguro de teatro experimental pode se tornar um instrumento ambíguo de opressão do indivíduo e de exploração de um momento de angústia e inquietação? Ou, em outras palavras, qual é o compromisso ético de filmar esses atores sociais, mesmo que eles já explorem parte dessa identidade através do teatro? Há ainda uma reflexão maior: a ética da produção é necessariamente a mesma ética da diretora? Não que eu tenha desistido de procurar respostas para essas perguntas, mas sinto que a diretora tenha tentado diluir esse aspecto. E com sucesso.
A forma eleita pela diretora tem influência nesse sentido. Ela mantém a câmera à altura do olhar dos personagens, às vezes em movimento, talvez expressando o pensamento agitado e turbulento do interlocutor; em outras, estática, encontrando a poesia na simplicidade da observação. Sua câmera não pretende interferir, mas observar, enquanto os facilitadores da Companhia ajudam a dar forma a esse teatro horizontal, por ser plural e democrática, e irracional, por ir de encontro à forma do teatro convencional e por comunicar os recônditos do espírito de cada paciente, que flutua relativamente livre porque as forças telúricas assim quiseram.
Telúrica, a íntima utopia é um belo documentário não apenas porque é humano, mas porque a diretora está genuinamente convencida de que existe muita humanidade em tantas pessoas que a sociedade se acostumou a repelir, enquanto ignora sua potência criativa. Mariana não apenas derruba muros – literalmente, quando o palco cênico e cinematográfico é concebido, por exemplo. Ela também constrói pontes. No fim, o conceito de telúrico só pode mesmo ser parte da definição da arte.
Telúrica, a íntima utopia está em exibição na Mostra Território da 20a CineBH.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.



