As pequenas alegrias de continuar vivendo
Quatro motivos me fizeram gostar muito de Três Vezes Adeus, e não lembro de haver começado um texto crítico assim, mas prometo que reencontro a forma enquanto escrevo. O primeiro motivo foi Alba Rohrwacher, uma atriz com um ferramental extraordinário para expressar sentimentos contraditórios, muitas vezes conflitantes entre si, sem precisar exteriorizá-los de maneira literal. Esta capacidade esfíngica é o que sustenta Marta, que precisa lidar simultaneamente com o término do relacionamento com a Antonio (Elio Germano), com a descoberta de um câncer em estágio avançado, e com o desejo de continuar vivendo a vida.
Adaptado a partir do livro de contos da italiana Michela Murgia, e temperado com elementos de sua vida, o roteiro escrito por Enrico Audenino e Isabel Coixet (de Minha Vida Sem Mim e Elisa y Marcela), que também dirige, acompanha uma professora de educação física que reage ao rompimento fechando-se em si mesma e que, pouco depois, percebe que a perda de apetite (não só alimentar, e sim existencial) não está relacionada apenas à separação, mas à própria saúde física e emocional.
Marta não reage só com lágrimas ou com uma exploração do sofrimento, porque Rohrwacher encontra outro caminho mais elegante. Seu corpo, seus olhares e seus silêncios bagunçam as peças espalhadas sobre a mesa de um quebra-cabeça, e o resultado nunca é só uma imagem direta e inequívoca, mas um mosaico de possibilidades. Assim, Marta se transforma em uma personagem elusiva por não reagir como esperaríamos diante de uma situação devastadora. Diante do primeiro adeus, o término do relacionamento, e talvez de um segundo, a morte, o que interessa a diretora é observar como Marta continua existindo a partir das condições de vida que lhe restaram. Ela permanece em um estado de luto, sente medo e raiva, refugia-se dentro da própria confusão quando adota um cartar de um cantor de k-pop com quem aproveita para desabafar, mas permanece intensa, curiosa e até operística diante da vida. Rohrwacher é uma atriz fora de série, mesmo, mas a atriz habita um meio igualmente atraente.
Roma. E há um carinho evidente no modo como Coixet olha para a cidade, observada pelas pequenas Madonas espalhadas por seus espaços e revestida pela presença histórica de seus ladrilhos nas ruas pelas quais Marta pedala. É meio clichê afirmar isso, mas Roma, mais do que nunca, transforma-se em uma personagem dentro de uma jornada de busca por sentido e em uma parte da experiência emocional da protagonista. Em determinados momentos, essa beleza é observada de maneira objetiva quando a câmera abandona a protagonista temporariamente para contemplar a cidade que a envolve; em outros momento, a lente tilt-shift distorce os contornos e perspectivas, como se Roma precisasse se adaptar à maneira como Marta percebe o mundo naquele momento. Enquanto Roma cerca, envolve a narrativa, a direção de arte de Paola Comencini aposta em cenários concretos (apartamentos, restaurantes, bairro, escola etc.) como meio de representar o cotidiano cercado por uma cidade naturalmente cinematográfica.
Por falar em cinema, nada mais cinematográfico do que a tradição do melodrama, gênero que Coixet conhece muito bem. A diretora abraça a tradição do melodrama sem se entregar ao mecanismo mais imediato de manipulação emocional. Havia tantas avenidas por que a diretora poderia percorrer, por exemplo, a mulher de meia idade diante de um destino irreversível, convidando o espectador a chorar antecipadamente a presença-ausência. Coixet, porém, procura os prazeres que permanecem mesmo quando a expectativa de vida é reduzida drasticamente. Pode ser tomar um sorvete de morango e chocolate; pode ser flertar com o professor da escola onde trabalha; pode ser aprender coreano e viajar ao país. Não importa, Marta continua viva enquanto está viva.
Ela compreende que viver não está necessariamente associado a gestos ou conquistas grandiosas, mas a uma soma de momentos, de experiências e de encontros. Apenas quando não tem mais nada a perder, Marta decide viver com a vontade de quem deixou passar o tempo. Mesmo que a composição dos quadros de Coixet pareça, às vezes, expulsar Rohrwacher do quadro, posicionando-a no extremo do quadro como se antecipasse sua partida, e me vem à cabeça o encontro no restaurante com Agostini (Francesco Carril), Marta ainda resiste. O que me leva ao quarto motivo.
O simbolismo, um elemento recorrente no cinema de Coixet e aqui utilizado com delicadeza suficiente para não transformar a imagem em uma jornada interpretativa. A cartolina de um cantor de K-pop com quem Marta passa a se comunicar é um desses elementos, um que alude à incomunicabilidade, mas também ao absurdo. Por que um recorte de um ídolo pop seria o interlocutor ideal para questões conjugais e existenciais? Claro, há uma explicação prática para isso – Michele Murgia era fã de K-Pop – mas também há um absurdo em termos narrativos. Um absurdo que é amplificado na cena final e que dialoga com o absurdo dos temas que atravessam à parte final da jornada de Marta.
O amor como um gesto absurdo, a vida e suas absurdices, o sentido em objetos ou memórias que não guardam nenhuma resposta à Marta. Diante disso, Três Vezes Adeus me parece um filme bonito, doce e melancólico. Um melodrama que acolher a dor, mas sem a intenção de arrancar a forceps as lágrimas do espectador. Em vez de nos dizer o que ou como devemos sentir diante da morte, Coixet observa Marta encontrando razões para continuar vivendo e, assim, somos capazes de deduzir todo o restante. Essa é a força do filme: quando o futuro se torna incógnita, o presente passa a ser, de fato, o que podemos nos agarrar.
Três Vezes Adeus está disponível nos cinemas brasileiros.
Minha entrevista com a diretora e roteirista Isabel Coixet.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.


