O (anti) capitalismo segue sendo objeto do fazer fílmico de Boots Riley, e é lidando com o excêntrico que o diretor instrumentaliza esse pensamento através de sua câmera – afinal, em sendo o próprio capitalismo uma selvageria absurda da exploração humana, nada mais apropriado do que tratá-lo na mesma medida de extravagância através do cinema. Se em Sorry to Bother You (2018) o diretor encontra em Cassius “Cash” Green (Lakeith Stanfield) o representante masculino perfeito para discussão do preço da ascensão social no mundo corporativo, em seu novo filme, I Love Boosters, a revolução contra o sistema econômico do fim do mundo é absolutamente feminina, não-branca e fashionista.
Riley reúne a luta ocidental à oriental por meio de personagens femininas que se conectam pela compreensão de uma unicidade de objetivos que advém da própria divergência: causas aparentemente discordantes, no fim das contas, são as mesmas, vestidas com roupagens diversas – e a vestimenta, aqui, de fato, é elemento crucial nessa representação anticapitalista exageradamente colorida. De um lado, Corvette (Keke Palmer), Mariah (Taylour Paige) e Sade (Naomi Ackie) retratam o Ocidente estadunidense como boosters da The Velvet Gang, ladras profissionais de lojas de roupas, especialmente, as confeccionadas pela grife de Christie Smith (Demi Moore). Do outro lado, o Oriente se junta quase em razão do acaso com Jianhu (Poppy Liu), uma trabalhadora da fábrica chinesa que produz as roupas de Smith, e que sofre com a exploração dos obreiros até a morte por doenças causadas pelo ofício.
Enquanto as boosters, amantes e artistas da moda que, por motivos de raça e classe social, almejam exercer suas artes e melhorar suas condições de vida através de um trabalho democrático, apostando na revenda acessível das peças furtadas da grife em quintais, carros e brechós, Jianhu defende a melhoria das condições de trabalho com redução de jornada, aumento de salários e paralisação do uso de produtos químicos nocivos e insalubres. A vilã de tudo isso é a mesma: a Smith implacável de Moore, que mora num prédio mais inclinado que a torre de Pisa para fortalecimento de seu core a cada movimento, e que sob o argumento de fazer do corpo humano sua arte persegue as revolucionárias a todo custo.
No novo universo do surrealismo fantasioso anticapitalista de Riley, o excêntrico não encontra limites, sejam eles imagéticos, estilísticos, sejam eles narrativos, criativos e coloridos. O escalonamento da absurdez desafia a crença do próprio limite que o tempo todo é extrapolado, desde a materialização da bola gigantesca de contas, boletos e problemas pendentes que assombra Corvette e roda em sentido só crescente à inserção de um dispositivo científico semelhante a um aspirador, dotado de múltiplas funções que passa a ser usado para o teletransporte de roupas. Portanto, surrealismo, ficção científica, fantasia e sobretudo a sátira advinda do humor nada sutil encontram-se em I Love Boosters, dando ao excesso da exploração do trabalho humano uma crítica certeiramente excessiva.

É certo que o excesso de excesso, em dada medida, soa cansativo – extrapola-se tanto que a expectativa pela novidade torna-se costume. No entanto, a ironia de que uma possível resolução de um contexto político tão avassalador como tal só pode ser proporcionada mediante um dispositivo bizarro dá um tom melancólico quase imperceptível ao longa, e nos damos conta que a extravagância, no fim das contas, é sofisticadíssima.
Há de se mencionar que a liderança da luta, e portanto, a esperança, ainda que amarga, considerando a necessidade do afastamento da realidade para busca da solução, é posta exclusivamente nas mulheres em I Love Boosters. O gênero não é, aqui, acaso, já que a figura masculina, inclusive, é colocada como um ser maligno que se esforça para se tornar um aliado, personificado pelo personagem de Lakeith Stanfield como um galanteador que faz tremer as estruturas sexuais de Corvette. Já não há, como em Sorry to Bother You, o foco num único “herói”, mas a ideia de uma coletividade feminina que precisa se unir para que a eficácia seja plena – fica clara aqui, a crítica ao individualismo incentivado pelo capitalismo, e a quebra desse ciclo pela introdução da personagem oriental.
I Love Boosters é uma revolução de muitas vertentes: política, social, de gênero, e por que não dizer, artística. Afinal, a apropriação da moda, essencialmente uma arte branca, por mulheres negras, é uma forma de sua expressão em máxima potência, na medida em que sugere o seu uso para finalidades outras que não as que servem ao capital essencialmente. E Boots Riley, não há como negar, é, à sua maneira única e autoral de fazer cinema, um artista tão revolucionário quanto a pretensão de suas personagens, realizando o mesmo movimento de apropriação ao propor um cinema como tal em um estúdio gigante como a Universal Pictures.

Crítica de cinema, formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films e da Comissão de Cinema da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).


