Um drama policial pernambucano com muita pirraça
Já pude assistir aos três primeiros episódios de Delegado, série produzida por Kleber Mendonça Filho e Emilie Lesclaux para o Canal Brasil, acessível também na Globoplay, e entendo o interesse da dupla em uma produção bastante familiar ao cinema pernambucano: interesses particulares dentro de uma instituição pública, relações opacas de poder , personagens no limbo entre ordem e ilegalidade.
Criada por Leonardo Lacca, Tião e Marcelo Lordello, e dirigida por Lacca e Lordello, a produção reúne ainda um elenco com diversos rostos recorrentes na filmografia de Kleber, encabeçado por Johnny Massaro, que interpreta Felipe, um jovem adulto recém-aprovado no concurso para delegado da Polícia Civil e designado para assumir sua primeira delegacia no Recife. A série combina o repertório do gênero policial com uma observação das condições de funcionamento do serviço público brasileiro, especialmente dos profissionais responsáveis pela segurança pública.
Felipe chega ao novo posto com a disposição de quem ainda acredita na possibilidade de fazer as coisas corretamente. Sua juventude, entretanto, tem a desconfiança daqueles que já conhecem a realidade brasileira. Quando recebe a arma de serviço das mãos do agente responsável, descobre que pertenceu a Bill Doidão, um matador ligado à polícia, cuja morte está envolta em circunstâncias, no mínimo, suspeitas: pode ter sido um acidente ou um assassinato convenientemente disfarçado. Antes de começar a trabalhar, Felipe recebe uma herança institucional que não escolheu, não muita parecida da herança familiar, uma atrelada à violência e corrupção.

A delegacia para a qual é designado é precária, malconservada, desorganizada e existe à margem da exigência mínima que se espera de uma instituição dessa envergadura. Imaginamos o (mal-)cheiro acumulado no prédio, a poeira e o mofo do mobiliário desgastado, mesmo a rotina de funcionários que aprenderam a conviver com a podridão do local de trabalho.
A série encontra humor no descompasso entre a formação de Felipe e a rotina diária da equipe que passa a comandar. O personagem chega investido de autoridade formal, mas rapidamente percebe que essa autoridade não é suficiente para compreender as relações e as hierarquias reais que mantêm a delegacia. É uma observação que rende algumas das situações mais críticas dos episódios iniciais.
Os agentes e delegados conhecem bem as maneiras de contornar as regras quando isso lhes convém, e de explorar a sua autoridade. A repartição que deveria representar a ordem é, ela própria, um território de desordem, e os policiais, que deveriam manter a lei e ordem, flexibilizam-nas.
Essa dimensão ganha complexidade quando descobrimos que a relação do protagonista com a polícia também é prejudicada por uma questão familiar. Seu pai, envolvido em um esquema de corrupção, está preso, e a herança pode comprometer a reputação do filho. O desejo de Felipe de construir uma trajetória profissional passa, portanto, pelo desejo de se desvincular de uma herança maldita. Há um desejo de reparação, a fim de expiar os pecados paternos.

O elenco contribui para que esse mundo não se reduza ao percurso do protagonista. Alice Carvalho vive Débora, também delegada e igualmente idealista. Virginia Cavendish é Fátima, a mãe de Felipe, e introduz uma dimensão familiar que ainda promete revelar outras camadas da história, ou ao menos sugere isso. Sua presença também ajuda a compreender o quanto o protagonista permanece ligado à estrutura doméstica da qual procura se emancipar. Rubens Santos interpreta Marmota, que conhece os atalhos e as conveniências do funcionamento da polícia. Hermila Guedes, por sua vez, interpreta Dagmar, empresária que mantém relações próximas com a delegacia e patrocina a festa de confraternização da polícia. O que exatamente a empresária espera de uma instituição policial quando financia as suas confraternizações? A confirmar.
Esses personagens criam um ecossistema social em torno da repartição. A delegacia participa de uma rede de relações que envolve a sociedade de forma geral, e portanto, também da ambientação em Recife, na qual a instituição policial desponta menos como heroica, e mais como cheia de contradições e limitações.
Johnny Massaro está à vontade no papel principal, mesmo que essa tranquilidade signifique interpretar alguém que está deslocado daquele ambiente. Seu Felipe é um peixe fora d’água: um rapaz que procura descobrir seu lugar na vida por meio do trabalho e que acredita, talvez ingenuamente, que a formação profissional e a vontade de fazer justiça bastarão para estabelecer uma diferença. Ele encontra o tom adequado para essa mistura de insegurança, determinação e ingenuidade, sem transformar Felipe em um ingênuo ou um herói moralmente incontestável.

O resultado é um compromisso agradável entre o gênero policial e a crítica social, com uma identidade recifense que impede que a série se transforme em reprodução de modelos estrangeiros. Há, evidentemente, uma proximidade com o universo cinematográfico – se é que posso chamar assim – de Kleber Mendonça Filho, sobretudo na atenção às relações de classe, à convivência entre violência e vida cotidiana e à maneira como instituições e espaços urbanos revelam as contradições da sociedade brasileira. Contudo, a direção de Leonardo Lacca e Marcelo Lordello procura estabelecer uma dinâmica própria, apoiada na construção de personagens e na observação de um ambiente profissional específico.
Há uma ironia final que sintetiza a proposta de Delegado: aqueles que deveriam manter a ordem nas cidades são incapazes de mantê-la dentro do próprio local de trabalho – e, em muitos casos, tampouco em suas próprias vidas. Felipe acredita que assumirá um cargo e descobre que está ingressando uma rede bem mais complexa do que poderia imaginar. Seu desafio não será aprender a ser delegado, mas descobrir que tipo de delegado é possível ser naquele ambiente.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.


