Percebemos a cruel sofisticação do capitalismo quando o proletariado, que é explorado pela venda de sua força de trabalho mediante o pagamento de uma contraprestação, é levado a se autocompreender como parte integrante das classes dominantes, sentindo-se, assim, equiparado aos detentores dos meios de produção. A manipulação é tamanha que esse trabalhador socialmente ascendido passa a enxergar-se não só como burguês, mas como peça crucial para a continuidade do movimento das engrenagens do capital. Ledo e grande engano – só a aquisição de consciência de classes poderia salvar este indivíduo da queda brusca que ele estará invariavelmente fadado a sofrer em algum momento.
Homem ao Mar, longa mexicano dirigido por Gael Garcia Bernal e que traz a atriz brasileira Débora Nascimento em seu elenco, materializa esse falso (ou enganado) burguês através do protagonista Camilo, interpretado pelo próprio Bernal, um salva-vidas cubano que resgata o empresário mexicano Abel (Jorge Salinas) de um iminente afogamento no mar do Caribe. Como um gesto de agradecimento, Abel lhe propõe que seja o braço direito de seus negócios no México, oportunidade aceita que conduz, de fato, a uma reviravolta em sua vida: não só ele se torna esse homem de confiança, como se casa com a filha do empresário, Juana (Esmeralda Pimentel), e lhe assegura descendentes com o nascer de uma criança advinda dessa união.
A exploração de Camilo, um obcecado por novelas brasileiras – o que nos leva à Débora Nascimento – extrapola os negócios do sogro. Sem que ele se dê conta, passa a servir a todas as esferas da vida de Abel que lhe são mais caras: o trabalho e a família. Ele serve às necessidades de todos, além de fornecer aos negócios um lado mais progressista – afinal, é cubano, um imigrante que salva o empresário e que é, supostamente, salvo por ele. A moeda de troca? O usufruto da ascensão social – uma mansão no campo para morar (que não é sua), o salário da empresa, o conforto que o dinheiro (que não é seu) proporciona e uma bela esposa que o trata como se empregado fosse.
Alguma consciência começa a ser adquirida quando sua esposa, uma atleta de salto em vara, resolve que deseja realizar um filme sobre sua vida – a vida de uma mulher, herdeira, branca e rica – e, para tanto, contrata uma atriz brasileira, Fabiana (Nascimento) para interpretá-la. Observar a ficcionalização proposta por Juana e seu ponto de vista da vida do casal, bem como estar diante da musa das novelas brasileiras, fazem Camilo perceber, progressivamente, a instrumentalização de sua presença naquela família. A atriz, se não o faz notar de imediato, ao menos nos faz notar, como espectadores, que ele mostra-se muito mais confortável com o proletariado do que com a família que seria, em tese, composta por seus pares, e verbaliza a consciência de classe para ele como se fosse algo muito evidente.

A crítica de Homem ao Mar é bastante clara. O diretor a executa por meio de uma comédia que acumula acontecimentos absurdos, irônicos e delirantes, muitos deles que só seriam exequíveis, de fato, no mundo dos ricos. Nessa comédia, o caos e ansiedade ditam a atmosfera fílmica por meio de uma avalanche de fatos, mas o excesso deles, que, em tese, serviriam para escalonar a sensação ansiosa que aumenta a desconfiança do protagonista, findam por fazer-nos cansados e confusos, muito em razão de um aparente desalinho na montagem.
Acumulam-se arcos dramáticos paralelos, cuja existência não são de todo justificadas narrativamente e não conduzem a lugar algum na história. A título de exemplo, num determinado momento, Camilo precisa levar uma espécie de amante do sogro, Silvina (Natalia Oreiro), para sua casa. O que deveria ser uma estadia provisória se torna um aprisionamento conveniente da mulher, que ali permanece como se numa torre apartada da mansão, apenas para afeiçoar-se ao protagonista e ser outro elemento da conscientização de sua própria prisão – à própria personagem, porém, pouco ocorre ou se resolve, de modo que ela se transforma quase numa figura ilusória.
Ainda que Homem ao Mar movimente o humor de modo muito eficaz através dos acasos e de situações de uma realidade extravagante de Camilo, que o fazem delirar com uma concreta ascensão social – daí o tom meio desvairado de tudo – a comédia não se mostra de pleno suficiente para sustentar a desordem que nos desorienta. Ainda assim, de se dizer que trata-se de uma deliciosa desorientação – Bernal realiza um cinema social engraçado, com leves traços de Fellini, e de fato muito próprio e provocador de um empoderamento operário, ainda que aos trancos e barrancos desse caos.

Crítica de cinema, formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films e da Comissão de Cinema da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).


