Crítica | VIPs


Marcelo da Rocha é um sujeito “bizarro”, coerente ao apelido que ostentou ao longo de toda adolescência. Habituado a incorporar características daqueles que o rodeiam, e neste sentido a cena inicial em uma sala de aula ilustra de maneira eficiente este talento do jovem, a história de Marcelo se confunde inequivocamente com a de outro falsário e estelionatário real: Frank Abgnale interpretado por Leonardo DiCaprio em Prenda-me se for Capaz. Além da habilidade de encarnar suas mentiras de forma plenamente convincente, a semelhança entre ambos também encontra reflexo na paixão por aviões e uma vida familiar confusa. Assim, VIPs se estabelece como uma comédia de farsa satisfatória, revestindo-se de uma ingenuidade surreal, ao mesmo tempo em que lança um olhar carismático e condescendente sobre um personagem com transtornos graves de personalidade e caráter.

Estabelecendo a narrativa no clássico drama entre pai e filho, o roteiro de Thiago Dottori e Bráulio Mantovani apresenta Marcelo como um jovem apaixonado pela aviação graças ao ofício de piloto do pai, interpretado por Norival Rizzo. E em um país apaixonado por futebol, a imagem de aviões desenhados nos gomos de uma bola acaba revelando exatamente o tamanho da paixão do garoto. Mas, apesar de demonstrar afeto, a proximidade de pai e filho restringe-se a um jogo de perguntas e respostas relacionando cidades e aeroportos e aos ensinamentos desprovidos de um sentimento marcante na vida de Marcelo.

Intimidado (ao invés de inspirado) pela figura paterna a tornar-se um piloto, Marcelo abandona a mãe e foge para o Mato Grosso do Sul, onde eventualmente consegue emprego de piloto de um grande traficante de drogas e armas paraguaio. Removendo o juízo moral acerca do trabalho e dos perigos atinentes a este, o diretor Toniko Melo opta no tom descaradamente cômico e no ar ingênuo de Marcelo, revelando inclusive uma postura quase empreendedora, ao substituir, por exemplo, um motorista bêbado para proteger uma importante carga. Logo, arrancam fartas risadas a imitação de Renato Russo ou o primeiro pouso de Marcelo acompanhado do traficante interpretado por Jualiano Cazarré. Por outro lado, Toniko Melo falha em ilustrar o mínimo de risco existente no estilo de vida do protagonista.

No entanto, após ser detido pela Polícia Federal, na qual contará uma impressionante história e que encontrará reflexos cômicos somente 15 minutos depois, a narrativa inicia sua segunda metade no reencontro de Marcelo com sua mãe (no belo enquadramento que ilustra o afastamento dos dois economicamente), e na eventual mentira que o tornou nacionalmente famoso, ao personificar Henrique Constantino, dono da GOL. Desviando o foco do humor para uma análise ácida da cultura de celebridades, VIPs faz crítica aos camarotes dos famosos das grandes festas brasileiras, e como dentro destes as ditas celebridades acabam tornando-se pessoas comuns sujeitas a traições, ao alcoolismo ou às difamações entre pessoas do mesmo meio. E mais: parece existir, inclusive, uma espécie de hierarquia nesses ambientes, motivado pelo status quo e poder, e é emblemático o tratamento do ator Renato Jacques (Roger Gobeth) antes e depois de “conhecer” Constantino. Finalmente, Amaury Jr. ameniza a gafe cometida ao reprisar o mesmo evento que glamorizou Marcelo aos olhos de todo o Brasil.

Acertando mais do que erra, Toniko Melo investe em momentos inteligentes como naquele em que o painel de instrumento de um avião é iluminado gradativamente quase como se estivesse ganhando vida. Similarmente, o corte seco que antecede um plano conjunto revelando uma parede repleta de armas acaba atingindo o efeito humorístico desejado, e as imagens recorrentes de um peixe ou de um toureiro também trazem o simbolismo almejado pela direção. Por sua vez, um plano submerso surge sem fim narrativo (a não ser revelar uma nadadora recheada de curvas) e a presença de máscaras acaba surtindo um efeito óbvio, mas repetitivo.

Wagner Moura, um dos melhores atores brasileiros da atualidade, empresta um carisma que rivaliza à intensidade e brutalidade com que viveu Capitão Nascimento (e entender a participação do BOPE como uma piada interna é papel do espectador). Assim, em um papel que, qualquer casting atribuiria a Selton Mello, Wagner exibe a ingenuidade necessária para que tenhamos afeição imediata pelo trambiqueiro. As personificações acabam revelando facetas da genialidade do ator: se o piloto Carrera surgia admirado consigo mesmo, o Constantino aparece tímido no sorriso discreto que lança aos demais. Também estão bem Juliano Cazarré e Roberto Gobeth que contribuem, sobretudo, no aspecto humorístico do projeto.

Reservando uma inesperada surpresa que apenas engrandece a história de vida de Marcelo, VIPs falha gravemente no final que acaba funcionando como um anti-clímax da narrativa. Mas até aí, acompanhamos uma figura extraordinária em uma jornada que de tão absurda, só pode ser verdade.

Avaliação: 3 estrelas em 5.

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