Uma Jovem tão Bela como Eu

Uma Jovem tão Bela como Eu (Une Belle Fille comme Moi, França, 1972). Direção: François Truffaut. Roteiro: François Truffaut e Jean-Loup Dabadie baseado no livro de Henry Farrell. Elenco: Bernadette Lafont, Claude Brasseur, Charles Denner, Guy Marchand, André Dussolier, Anne Kreis, Philippe Léotard e Gilbert Géniat. Duração: 98 minutos.

Duas grandes paixões de François Truffaut disputam os holofotes na irregular chanchada Uma Jovem tão Bela como Eu: as tramas policialescas inspiradas no antigo cinema B norte-americano e a influência serpentina e sedutora das personagens femininas em homens emocionalmente fracos e predispostos a iludirem-se. Basta voltar algumas páginas e revisitar A Noiva estava de Preto ou A Sereia do Mississipi e descobrir a atenção dedicada por Truffaut a suas femme fatales. A partir deste fascínio hipnótico, o cineasta e Jean-Loup Dabadie adaptaram o livro de Henry Farrell a respeito da inescrupulosa Camille Bliss (Lafont) e seu insaciável apetite para a ascensão social e fama – seu sonho é tornar-se vedete, apesar de sua voz não ser compatível com os cantos mais belos. Para alcançá-lo, ela não hesita em manipular e exaurir sexualmente os homens ao seu redor, ofertando seu charme ousado e corpo voluptuoso em troca de quem dispõe de recursos e instrumentos que possam auxiliá-la – é redundante (e divertida) a afirmação de sua atração por homens cujos nomes constam de letreiros.

Redigindo a sua tese de doutorado de sociologia intitulada “Mulheres Criminosas”, Stanislas Prévine (Brasseur) obtém uma autorização judicial para entrevistar as presidiárias femininas para elaboração de seu estudo de caso. Sem maiores esclarecimentos, e para surpresa da guardiã do cárcere, ele escolhe Camille dentre muitas outras detentas mais interessantes e, na medida em que se aprofunda na sua história, desenvolve uma obsessão e a acolhedora tese de que ela é uma vítima da sociedade, ao invés da insidiosa mulher acusada de matar o amante. Aconselhado por sua secretária Hélène (Kreis) a abandonar o estudo, Truffaut não ousa disfarçar o destino do advogado: exclusivamente acadêmico e teórico, portando óculos quadrados, exibindo o cabelo repartido de lado e trajando um terno engomado e desinteressante, o ingênuo Prévine é uma presa fácil para a maliciosa Camille, fisgado nos pequenos agrados “sugeridos” (um banjo, castanhas), e desenfreadamente a caminho de trocar de posições com ela detrás das grades.

Apesar da gravidade da situação, Truffaut assume o tom farsesco narrativo de imediato no close dos dedos de Camille cutucando o seu nariz e no relato do assassinato de seu pai, o qual é precedido de um exagerado chute arremessando a então garotinha de 9 anos distante – o uso de fios de sustentação é impudentemente explícito. O arquétipo excêntrico e unidimensional dos personagens auxilia para esse fim, destacando-se o incomum hábito de Sam Golden (Marchand) de tocar o vinil das 500 milhas de Indianópolis durante o sexo ou o desapegado católico Arthur (Denner), dedetizador de pragas. É um esforço over assumidamente cartunesco, porém não necessariamente engraçado, pois na maior parte do tempo, os exageros apenas provocam sorrisos amarelos, como o casamento de Camille e Clovis (Léotard) precedido do cárcere privado dela sem desconfiança da mãe do rapaz, ou a puerilidade de Prévine não condiz nem de longe com o esperado de um advogado e sociólogo criminalista.

Ademais, para que a narrativa funcionasse plenamente seria fundamental que Bernadette Lafont se despisse – literalmente, ela já o faz demasiadamente – de alguns maneirismos excêntricos da sua composição. Se por um lado a pergunta “não tem sobremesa?” soa perfeitamente adequada no contexto em que é pronunciada ou o roubo do dinheiro guardado da mãe de Clóvis diverte, por outro a aviltante falta de classe e traquejo ao invés de, digamos, popularizá-la, a banalizam grosseiramente e impedem o mínimo de interação do espectador. Da mesma forma, o roteiro ensaia um abrandamento da sociopatia criminosa de Camilla (o que me recordou Roxy Hart de Chicago), apesar de dela ter matado seu pai deliberadamente e não hesitar em devorar o próximo para alcançar seus objetivos. O que à primeira vista sugeriria uma instabilidade emocional conduzindo a um comportamento ninfomaníaco, é imediatamente rechaçado pela abstinência de prazer autoimposta por Camille, algo que ela encontra apenas quando é paparicada e admirada – e as roupas coloridas e decotadas enfatizam a necessidade dela em chamar a atenção.

Incapazes de identificar-se com Camille ou com Prévine, um paspalho no melhor sentido da palavra, o espectador fica sem âncora enquanto acompanha as desventuras da moça contadas em flashbacks durante as entrevistas na prisão. Abusando do uso propositadamente incômodo de zooms in e out, o que não os torna menos enfadonhos – observe que Truffaut adiciona a figura do garotinho cineasta vangloriando-se de sua habilidade detrás das câmeras -, o roteiro é eficientemente aprazível e insano no inexplicável e exponencial surgimento de amantes na vida de Camilla e, especialmente, na forma com que ela, eventualmente, perde o controle ao lidar com 4 homens ao mesmo tempo.

Assim, é difícil condenar essa brincadeira narrativa de Truffaut que, mesmo percorrendo caminhos outrora navegados no cinema noir e usando uma fórmula derivada, ao menos é um recreio jocoso e animado que pode ser dispensado depois de 95 minutos com uma simples melodia de banjo!

* Esta crítica faz parte do Especial François Truffaut do Cinema com Crítica que continua na segunda de carnaval, 20 de fevereiro, com A Idade da Inocência (1976).

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