Crítica | O Chamado 3

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Produções da estirpe de O Chamado 3 permitem analisar o atual estágio do cinema de terror do mainstream a partir da comparação com o que é produzido no cinema independente: enquanto neste, os temas discutidos pelos cineastas estão alinhadas com a construção inventiva e desafiadora da atmosfera aterrorizante – vide Corrente do MalA Bruxa ou The Babadook -, o cinema de estúdio está mais preocupado em bolar formas de extrair leite de pedra seja com derivações – apenas de Invocação do Mal 1 e 2 surgiram(ão) Anabelle 1 e 2 e a produção sobre a freira Valak – seja com sequências despropositadas que alteram as regras do próprio jogo à medida que este é jogado como se isto fosse algo novo – os slashers, por exemplo, reimaginavam o modus operandi dos assassinos a cada continuação, a fim de introduzir elementos inéditos ao espectador, apesar de estes carecerem de atratividade.

É o que acontece neste reencontro com Samara (nome americanizado da japonesa Sadako) escrito por David Loucka, Jacob Estes e Akiva Golsdman: no afã de reimaginar as regras da lenda urbana da fita VHS que mata quem a assiste após sete dias, exceto se copiá-la e exibi-la para outro infeliz espectador, o roteiro esforça-se para atualizar o conceito às tecnologias contemporâneos de compartilhamento de vídeo, smartphones ou redes sociais sem que isto some-se de forma determinante para o desenrolar da narrativa, exceto se categorizar o aparelho de videocassete de vintage for algo marcante para você. Na verdade, esta continuação está mais para reboot, pois essencialmente é mais do que o digno e competente O Chamado foi: Julia (Lutz), depois de salvar a vida do namorado Holt (Rose) copiando o arquivo de vídeo do seu computador – ei, mas quem tinha que fazer a cópia não era ele? -, viaja à cidade onde Samara nasceu e morreu no intuito de encontrar as respostas que acredita irão salvá-la da maldição.

Não que a trama não apresente parcela de ideias interessantes, porém subdesenvolvidas: na universidade onde Holt estudava, o professor Gabriel (Galecki, cuja atuação restringe-se a espremer os olhos como tique de que está raciocinando) montou uma equipe de estudo para investigar o fenômeno de Samara e, enquanto o faz, protege os alunos através de seguidores para os quais a maldição pode ser passada adiante – conceito intrigante caso não existisse um andar secreto no meio da universidade (risos) onde os alunos reúnem-se para beber e escutar música eletrônica (?). E afora isto, esse conceito desperta uma questão que nunca é abordada na trama: por que Gabriel arriscaria buscar novos seguidores em vez de transmitir em círculo, de A a Z e então de volta para A, a fita VHS, mantendo sob sigilo a pesquisa que está fazendo? No lugar disto, a trama investe na ideia de que existe um vídeo dentro do vídeo, em que existem pistas para que Julia prossiga na sua investigação Sherlockiana.

Sim, pois a moça é ás em extrair conclusões instantâneas baseada na relação entre o que descobre na cidade e os trechos simbólicos do vídeo – introduzidos em flashbacks ao mesmo tempo em que o diretor F. Javier Gutiérrez sente amaciar o próprio ego -, embora pareça ingênua para o fato de que está caminhando no mundo do sobrenatural com a mesma desenvoltura que Orfeu entrou no inferno para resgatar Eurídice das garras de Hades. Mas Julia não tem harpa, tampouco Gutiérrez que, sem a menor imaginação, aproveita ideias de filmes melhores enquanto insiste na estrutura pobre da trama, que introduz inclusive a visão de uma antiga moradora – inexplicável até dentro do universo diegético da trama – a fim de guiar Julia sempre que esta parece esbarrar em um beco sem saída.

A narrativa saí-se melhor na fotografia de Sharone Meir (Whiplash – Em Busca da Perfeição), cujos tons verdes, habitualmente associados ao sobrenatural, estão presentes na paleta de cores e conferem a morbidez que a investigação de Julia requer. É graças ao seu trabalho que a narrativa compensa a cansativa fórmula de perguntas, descobertas e revelações com a atmosfera perturbadora, apesar de desperdiçada, pois as expectativas construídas no decorrer da trama não são atendidas, assim como as elucubrações científicas, respondidas. E ao citar o Efeito do Observador ou Zeno Quântico para ensaiar uma explicação sobre a natureza de Samara, não evitei sorrir internamente enquanto refletia se a cena inicial, tão ridícula quanto mandar Jason Vorhees pro espaço em Jason X, teria um desenrolar diferente caso eu não tivesse visto o filme.

… e deixado para reencontrar Samara (ou Sadako) no crossover com a também assustadora Kayako de O Grito, intitulado Sadako v Kayako. Ao menos poderia divertir-me mais do que com esta continuação pouco assustadora e recompensadora.

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