Crítica | Alien: Covenant

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A ambição é imprescindível para que a arte instigue e fascine, muito embora esteja acompanhada de riscos bem mais superlativos do que aqueles característicos do que é ordinário. De outro modo, é mais fácil ignorar a produção trivial do que a que despontava como promissora, porém que gradualmente revela-se pedante o suficiente para mascarar a própria estupidez. Nestes casos, como o de Alien: Covenant, o ranço deixado é mais amargo e o preço a se pagar pelo fracasso, mais caro.

Outro exemplar de produções de franquia (prequels, sequels, spinoffs etc) com ares de refilmagem, a continuação direta de Prometheus reescreve parte do roteiro de Alien: O Oitavo Passageiro, trocando enxutos 7 tripulantes, por quem nos importávamos até certo grau, por 15 sujeitos tão descartáveis quanto copo plástico. Escrita por John Logan (de Gladiador e O Aviador) e Dante Harper, a trama, no raiar do século XXII, leva-nos à espaçonave de colonização Covenant (a Nostromo daqui), logo após esta sofrer avarias que provocaram o despertar prematuro da tripulação e a morte do capitão (figuração de James Franco) e marido de Daniels (Waterston, cujo cabelo é a única semelhança com a icônica Ellen Ripley). Como consequência, o religioso Oram (Crudup) assume o comando e altera a longínqua rota original para a de um planeta desconhecido cuja mensagem acabara de receber. Ao aterrizarem, porém, são atacados pelas agressivas criaturas que lá habitam.

Apesar da sinopse sugerir o contrário, Covenant aparenta estar inseguro sobre o que pretende ser, o que se explica pela natureza híbrida da narrativa: um construto entre a filosofia de Prometheus e o terror de Alien, menos inteligente do que pensa ser e menos assustador do que gostaria de ser. Do lado de cá, o diretor Ridley Scott põe-se na mesma posição do envelhecido magnata Peter Weyland (Pearce, em nova figuração) para discutir e compreender a relação entre deus e a criação, entendida, nem que só do ponto de vista puramente metalinguístico, também como a entre artista e a arte. Do lado de lá, tenta incutir na narrativa a tensão e o terror que dela se espera desde que o título fora anunciado e a imagem do Xenomorfo surgiu nos cartazes. Entretanto, a despeito de toda sua vasta experiência, Ridley parece não haver previsto que a última abordagem canibalizaria a anterior, da mesma forma que o homem mata seu deus, e ele, criador, esforça-se inadvertidamente em matar a sua mais assustadora criação.

Certo que o tema existencial é mais pertinente quando se envereda pelos caminhos da religião, a narrativa abraça a teologia desde o óbvio (diálogos sobre fé, rebanho, deus e diabo) a intrigantes objetos do design de produção introduzidos logo no revelador prólogo, dentro do que poderia ser batizado de Olimpo com visão do Jardim do Edén ornada por obras de arte, dentre elas a estátua de Davi de Michelangelo – o símbolo da perfeição humana. Ridley não encerra aí, e entre personagens consumidos pelo fogo como alusão à punição divina ou a imagem do obelisco que paira alto no céu, o diretor desenvolve um antagonista melhor caracterizado quanto mais contraditório é: pois, enquanto deseja extinguir a raça que o criou, maravilha-se com a arte que esta produziu no correr da existência, e a intensidade com que sente repulsa opõe-se fortemente à leveza com que sopra uma bela melodia. Aliás, a trilha sonora de Jed Kurzel vem no sentido de conferir a erudição que a narrativa exige sem abdicar de momentos de tensão, desencadeados ao som de percussão.

Porém de que adianta debater teologia ou filosofia se, ao fim do dia, a narrativa recorre a brigas mano a mano ou a jogos de “quem é quem” quando o próprio espectador mata a charada muito antes de ela surgir? Afinal, se há algo verdadeiramente ruim na narrativa é a urgência que sente em se aproximar do joio e afastar-se do trigo, nem que para isso precise desrespeitar nossa inteligência: é o caso de Oram arrotar que a mudança de planos “é uma decisão baseada em todos os dados disponíveis”, quando lhe custaram apenas segundos para escolher a intuição em vez do planejado há tanto tempo. Evidente que a trama tinha que pousar em algum momento em terra firme, mas o faz de modo desastrada a ponto de justificar a afirmativa de Daniels e a piada acidental da narrativa: “Muita coisa aqui não faz sentido”. E estamos falando da mesma pessoa que dispara contra a própria espaçonave ao tentar matar o Alien.

E por falar no Xenomorfo, é curioso que, quanto mais o tempo passou e os efeitos especiais evoluíram, menos assustadora a criatura ficou. Até porque o terror não se resume à perspectiva de ser atacado pelo facehugger, ou ter o peito perfurado pelo chestbuster, ou ser devorado pelo Alien em versão adulta nem em ser queimado pelo seu sangue tóxico, mas sim à claustrofobia do original em face à presença iminente de um monstro agressivo e implacável. O máximo que a narrativa alcança nesse sentido é a sequência no interior de um veículo terrestre montada à perfeição por Pietro Scalia, enquanto o terceiro ato mostra-se um autêntico anticlímax, repleto de efeitos computadorizados (alguns deles medíocres), porém sem alma, espírito, tesão.

Tendo atribuído à obra original de Ridley Scott a fonte de inspiração do recente Vida, a sensação que me restou foi a de que o citado exemplar de gênero, uma obra ordinária por excelência e funcional em cumprir seu objetivo, é bem mais arrojado que o pretensioso Alien: Convenant, uma criatura oca aquém à imagem do criador.


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