Crítica | It – A Coisa

It

O prazer da obra fantástica de Stephen King está em fazer o leitor sentir o mesmo pavor e espanto que sente enquanto as escreve, como já confessou em ocasiões passadas, por meio de um envolvimento estreito com seus personagens. Em It – A Coisa, o escritor aproveita a oportunidade de combinar a inocência de pré-adolescentes com o medo literal e também metafórico, respeitando essa fase da vida, repleta de inseguranças e temores, e que é a base da formação do adulto do amanhã. Tanto é verdade que a estrutura do livro estabelece sua narrativa em dois períodos distintos, separados por 27 anos (que é o intervalo de tempo em que a Coisa ataca novamente a cidade de Derby), já que assim King pode cumprir o desejado: contrapor aqueles jovens com suas versões adultas, e permitir discussões sobre a perda da inocência e o amadurecimento.

Diferentemente do telefilme de 1990, que adaptava o livro inteiro de King, este primeiro capítulo, escrito pelo estreante Chase Palmer, Cary Fukunaga (criador de “True Detective”) e Gary Dauberman (de “Annabelle”), limita-se a abordar o verão em que Billy (Lieberher) e seus amigos enfrentaram o ameaçador palhaço Pennywise (Skarsgård), cujo propósito resume-se em atrair a maior quantidade de crianças ao esgoto onde habita, para então devorá-las ou fazê-las flutuar, logo após inspirar o medo mais profundo em suas vítimas. Invisível aos adultos, Pennywise é essencialmente um predador que cumpre a missão essencial do cinema de terror / fantasia: a de ser o símbolo ao redor do qual a narrativa gira, neste caso, o obstáculo a ser superado para que adolescentes, negligenciados pelos adultos, reúnam, sozinhos, a coragem e a irmandade necessária para adentrar na vida adulta.

Não que não haja outros empecilhos: o bullying praticado por um garoto problemático, os pais opressores, super-protetores ou ausentes e a hostilidade daquela típica cidade do inteiro norte-americano. É neste contexto que Billy encara a perda do irmãozinho caçula, vista na cena inicial, que combina, de modo comovente, um sensível retrato fraterno para destroçá-lo, no instante seguinte, em uma cena cruel e violenta que pega o espectador desprevenido com suas consequências. Obcecado em descobrir o paradeiro do irmão, Billy convence Richie (Wolfhard, de “Stranger Things”), Eddie (Grazer) e Stanley (Oleff) a abdicarem das férias escolares – ou seja, deixarem de ser crianças – e investigarem as poucas pistas que pôde reunir, instante em que descobre que todos estão testemunhando pesadelos reais o bastante para serem fruto da imaginação. Iguais a eles, Ben (Taylor), Mike (Jacobs) e Marsh (Lillis), que se juntam àqueles para formar o “Clube dos Perdedores”. É este, a propósito, o maior problema da narrativa, já que praticamente a primeira hora resume-se a retratar cenas de susto individuais em que Pennywise apenas brinca com os garotos, sem, contudo, repetir a mesma voracidade vista na introdução ou no interior de um túnel.

São sequências bem executadas (o diretor Andy Muschietti apresentou seu cartão de visita em Mama), que empregam recursos clássicos do cinema de terror (portas que se abrem sozinhas, barulhos que vem de locais inusitados, sombras em movimento, alternância entre luz e escuridão), enquadramentos e movimentos de lente (planos inclinados, contrazooms) e efeitos em pós-produção (a maneira com que Pennywise desloca-se, por exemplo), porém inferiores à metade seguinte da narrativa após o espectador estabelecer uma relação de empatia e identificação com aqueles adolescentes, que deixaram de ser somente a meia-dúzia de ovelhas rumo ao abatedouro como a montagem de Jason Ballantine sugeriu, no início.

O maior trunfo de Andy Muschietti é mesmo a direção de atores, particularmente do elenco juvenil e de Bill Skarsgård. Escondido detrás da ótima maquiagem que potencializa a sua decrepitude, Pennywise, nos melhores momentos, é aterrorizante e cruel, degustando a pronúncia das palavras, alongando-as, e construindo um efeito incômodo por meio de seu estrabismo, que lhe permite encarar o personagem e o espectador ao mesmo tempo. Já os garotos atenuam a atmosfera aflitiva com uma dose necessária de senso de humor, personificado pelo mesmo Richie, o tagarela do grupo, mas também pela hipocondria de Eddie ou pelo amor platônico de Ben. De todos, foi Sophia Lillis que mais me agradou, construindo uma personagem doce, reprimida pelo pai abusivo e por toda a turma, embora livre sempre que na companhia de seus amigos.

A fotografia de Chung Chung-hoon (colaborador habitual de Park Chan-wook) estabelece uma atmosfera pesada com o emprego de tons mais lavados, que, contudo, não abdicam de cores fortes e da luz, esta sempre em contraste: enquanto os jovens se divertem no lago, as sombras que surgem dos rochedos aproximam-se; por outro lado, ao entrarem em uma casa abandonada, eles trazem consigo a luz para dentro daquele lugar. Por sua vez, a trilha sonora de Benjamin Wallfisch reemprega os temas típicos das produções dos anos oitenta porém demonstra personalidade própria em certos instantes, enquanto o design de produção homenageia a filmografia da década de oitenta (“Os Gremlins”, “O Exorcista” e “Carrie, A Estranha”), sem esquecer de estabelecer a própria identidade de Darby, retratada em ruas inóspitas e poucos movimentadas, em que há sempre a suspeita de que possa ocorrer algo ruim.

Por falar nesse período, foi um tempo em que crianças / adolescentes eram tratados com o respeito e prestígio que mereciam pelo cinema, enaltecidos por sua coragem e curiosidade, em vez de serem infantilizados por sua idade. Reviver esta época, valorizando a nostalgia, sem torná-la o único atrativo, enquanto cria uma narrativa assustadora e envolvente com personagens por quem podemos nos importar são os elementos que tornam “It – A Coisa” tão especial ao mesmo tempo em que estabelece um patamar que dificilmente será atingido pelo próximo capítulo. Afinal, adultos tendem a ser mais cínicos e desinteressantes do que esses jovens heróis.


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