Crítica | Entre Irmãs

Entre Irmãs

Luzia, a personagem de Nanda Costa neste drama Entre Irmãs, habituou-se a resgatar pássaros presos em gaiolas, dando-lhes a oportunidade de voarem para fora do cativeiro ou permanecerem cantarolando a serviço do seu mestre. Isso porque aquela costureira, diferentemente da irmã sonhadora e idealizadora Emília (Estiano), descobriu cedo, após o acidente que lhe custou o movimento do braço, o preço caro cobrado para ser livre no árido sertão pernambucano de meados dos anos 30. À Luzia, mulher, pobre, deficiente e calejada existia somente a fronteira de Taquaritinga do Norte, nada além disto, acreditava. Assim, este trabalho do diretor Breno Silveira, já conhecedor das belezas naturais e mazelas sociais do deserto nordestino através das biografias “Dois Filhos de Francisco” e “Gonzaga – De Pai para Filho“, narra a busca por liberdade, em um significado amplo e plural, durante a perseguição do governo Vargas ao cangaço, e tomando por base a união estreita entre suas duas fortes protagonistas.

Com roteiro escrito por Patrícia Andrade e inspirado na obra de Frances de Pontes Peebles, a trama narra a história épica – refiro-me ao formato – de irmãs órfãs, criadas pela tia Sofia (Coentro) e separadas depois de Luzia aceitar juntar-se ao bando do cangaceiro Antônio Carcará (Machado), com o objetivo de proteger a família e seu futuro. Tempos mais tarde, é Emília quem deixa o interior, com a morte da tia e o pedido de casamento de Degas (Estrela), um rapagão abastado da alta sociedade, que também sufoca dentro do peito o próprio grito por liberdade. Enquanto revisitam a história uma da outra por meio de recortes jornalísticos, Luzia e Emília trilham caminhos distintos, porém com o mesmo ponto de chegada: o empoderamento naquela sociedade que entendia que o papel da mulher resumia-se a servir seu mestre e a decorar a utilidade de cada talher e taça sobre a mesa.

Enquanto Nanda Costa regurgita o pão que o diabo amassou em uma poesia social violenta e emocional, similar à obra de Glauber Rocha, um de nossos maiores patrimônios cinematográficos, Marjorie Estiano,  a protagonista na acepção do termo, aos poucos substitui a ingenuidade e fragilidade pela casca grossa que denuncia haver acolhido à realidade, em troca dos sonhos que regava com tanto carinho enquanto folheava as revistas da época e sonhava com um príncipe encantado. E, mesmo que a união entre as duas seja mais sugerida do que retratada, pois elas são apartadas precocemente na narrativa extensa (com cerca de 160 minutos), as atrizes preenchem as lacunas dramáticas exigidas para conferir autenticidade ao amor que nutrem uma pela outra e, portanto, à dor da ausência. Também pudera, Nanda e Marjorie são como forças da natureza em cena, flores nascidas no solo infértil com o desejo de sobreviverem apesar do sol e da seca castigantes. Se aquela sorri, tímida ou quiçá envergonhada, depois de ser pedida em casamento por seu príncipe inusitado, a última procura disfarçar sorrisos angustiados sempre que confrontada pelo desdém sogra ou pela presunção intelectual do sogro, ambos também presos a valores ultrapassados.

Mas elas não as únicas a ansiarem por liberdade. Tome Degas, por exemplo, e a hesitação quase silábica, com que Rômulo Estrela pede a mão de Emília em casamento e pronuncia a palavra esposa, bastante significativa dentro da trajetória percorrida por aquele bom moço antes de ser consumido inteiramente pelas sombras da fotografia e confessar à esposa verdadeiro o significado daquele gesto. Também não dá para esquecer Lindalva, interpretada com a intensidade e o carisma habituais, marcas já registradas da apaixonante Letícia Colin, ou então de Júlio Machado, um fora da lei ao estilo de Lampião, cujas ações em favor do povo injustiçado, a despeito da violência desencadeada para tanto, aos poucos conquistavam o coração de Luzia, sua Maria Bonita, e a simpatia do público.

A narrativa é também bela, graças à fotografia de Leonardo Ferreira, que alterna entre a steadicam (com que retrata a dança das irmãs na chuva ou a fuga descalça de Luzia) e os planos abertos, que exibem a vasta imensidão das terras do interior pernambucano em contraste com a frequentemente claustrofóbica capital, criando um argumento eficiente para explicar o que é ser livre. Já a maquiagem e figurinos são eficientes em estabelecer as diferenças entre Luzia e Emília na escolha do que vestem e até na sujeira que carregam nos dedos; de outro lado, a mixagem de som merece elogios em captar, de modo cristalino, o vento intenso e relacionar a cusparada assassina da metralhadora com o som da máquina de costura, e o fato de Breno Silveira não aproveitar esta rima sonora para atenuar o excesso de exposição da cena final acaba sendo um pecado com gosto de ironia e amargura, de um diretor hábil em manusear o que, nas mãos de outros, apenas seria piegas.

Já o recurso da carta esquecida debaixo da pilha de livro como ponto de virada na história e a introdução de elementos políticos deslocados dentro da história, pois o debate era até então invisível ou indiferente, não estão à altura da solução da narrativa: a repetição geracional de toda a trajetória daquelas mulheres fortes, determinadas e independentes que aprenderam, a duras penas, que a liberdade para escreverem as páginas do próprio destino não deve ser confiada à fita métrica de estranhos. Apenas a sua própria.

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