A poesia pode parar guerras?
Oscar Restrepo é o arquétipo do poeta que acredita que a sinceridade dos seus versos está na forma niilista como encara a vida. Ele ameaça à família suicidar-se, amaldiçoa o destino, embriaga-se até acreditar em esquemas financeiros, perder a sua dignidade e dormir na rua. Parece à primeira vista o idealista do pior tipo, oferecendo críticas ao conterrâneo Gabriel García Márquez, que teria escrito para reconhecimento próprio, e exaltando o irlandês Oscar Wilde, citando-o “Onde há dor, há solo sagrado”. A poesia só existira nela mesma, e todas as demais formas poéticas não seriam diferentes do que o clipe musical chiclete e genérico que bateu mais de 100 mil visualizações no YouTube. A arte verdadeira é a dele, e a dos raros que celebra; as demais manifestações são mera farsa.
É essa a figura central do segundo longa-metragem do roteirista e diretor colombiano Símon Mesa Soto, Un Poeta, interpretado pelo ator não profissional Ubeimar Rios, em uma daquelas atuações em que parece impossível dissociar a pessoa do personagem. A aparência decrépita, a pele oleosa, o cabelo ensebado e desgrenhado, e a camisa aberta no terceiro botão, cujo encardido cheira a álcool para vencer a barreira do audiovisual, parece que somos capazes de conhecer Oscar apenas encarando-o à distância, perdido e desequilibrado, depois de beber sem parar, como se o martírio fosse capaz de extrair a poesia incapaz de deixar o corpo dele naturalmente. É esperado que Oscar more sob o mesmo teto da mãe ainda, a considerar a forma infantilmente contrariada como fala ‘Ma’ após ter o pedido negado.
Que Simon complexifique esse personagem, ainda que a partir de recursos básicos de associação e compensação, é o mérito da narrativa em que Oscar, para ajudar a pagar os estudos superiores da filha Daniela, decide aceitar o emprego de professor em uma escola pública de um bairro pobre. Lá, aprende que a jovem Yurlady (Rebeca Andrade) tem uma voz poética bruta e que pode ser desenvolvida com a condução correta. Ele a convida para a associação de que faz parte e, rapidamente, Yurlady está disputando as competições locais de poesia, patrocinadas por uma benfeitora holandesa, incapaz de pronunciar corretamente o nome da jovem, embora entusiasta o bastante para chorar sob efeito de suas palavras escritas. O melhor de Un Poeta está em como a narrativa é eficiente em criticar a representatividade forçada das artes, ou comparar a tragédia de grupos minoritários e grupos subrepresentados. A arte não é melhor por ter conteúdo social, racial, ou por dialogar com a realidade da comunidade onde o artista está, pois sequer pode impedir as bombas de explodirem nem transformar o real concretamente. O que qualifica a arte é a forma com que esta acessa a quem é exposto, e aí, se houver uma transformação, não que precise haver, é do indivíduo, antes da realidade.

Afinal, muitas das pessoas que estão em situações precárias, por exemplo, as jovens de 15 anos em lares instáveis e que, na idade adulta, já tem 2 ou 3 filhos para cuidar, mal tem tempo para criar a arte, que é objeto de consumo de quem tenha tempo e dinheiro para usufruir dela, alimentar a vaidade através da empatia, e até mesmo, muitas vezes, ajudar a lubrificar os mecanismos de manutenção do status quo. Un Poeta revela isso a partir de diálogos e reflexões eficazes mesmo que expositivas: “Por que eu vou querer ser uma grande poeta, paga bem?”, é o que pensa Yurlady, cujo comportamento é o de ajudar a família e pensar no próximo. Isso já não a torna uma poeta? Revela ainda na maneira como a adolescente é atraída pelo círculo de poetas que deveria tê-la acolhido. Quem mantém a integridade é Oscar, embora a falta de traquejo social o torne facilmente um bode expiatório da narrativa e do espectador.
Tudo reforçado pela direção de fotografia, que opta por uma câmera na mão bem mais instável do que o habitual, movimentada de forma errática e improvisada, como o jazz da trilha sonora sonora, e cuja imagem é recortada no quadro de uma forma rústica. A montagem é brusca: o corte após os títulos dos capítulos interrompe a canção, e ajuda a estabelecer o humor de um filme que é, na verdade, a história de amadurecimento de um homem, um pai e um poeta, dentro do mundo imperfeito em que está. Um mundo contraditório, assim como é Oscar e a nossa relação com esse personagem, pois se é a imperfeição de fato que se frutifica na beleza das estrofes poéticas (ou na arte que nós amamos), então preferiria um mundo sem arte, pois aí saberia que não haveria dores e males de toda sorte. Do mesmo jeito, eu jamais poderia conceber um mundo sem arte. A não ser que pudesse existir uma poesia alegre, que não reflete as sombras de dentro nem as mazelas de fora, apenas se expressa porque o ser humano é poesia. Bem, seja como for a minha relação de amor e ódio com Oscar, a com Un Poeta é multifacetada, ainda quando o roteiro seja esquemático, porque se o indivíduo ou o mundo é falho e imperfeito, também são as poesias.
O filme está selecionado na mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.

