Eu adoro Wes Anderson mesmo no piloto automático
Wes Anderson é um gosto adquirido. Entendo quem não aprecie a sua obra, apoiado no argumento de que é estilo, e não substância, ou de que a forma milimetricamente precisa sufoca a emoção que poderia surgir dos temas sensíveis e relações familiares em que investe. É a aparência de casa de bonecas, a composição simétrica, ao menos bastante organizada, ou as atuações desnaturalizadas, com ritmo e cadência próprias, dentre outros recursos, que fazem o seu cinema ser o que é, atribuem uma assinatura em uma arte cada vez mais uniformizada e pasteurizada. Ainda bem que há cineastas iguais a Wes que, mesmo em filmes medíocres como O Esquema Fenício, sobressaem-se da média do cinema contemporâneo.
Ao lado do colaborador habitual Roman Coppola, Wes conta a trajetória de Zsa-Zsa Korda (Benício Del Toro, que retoma a parceira com o diretor após o ótimo Conexão Francesa), um magnata e empreendedor alvo de tentativas de assassinato que falham em levar a termo o seu intento. A mais recente acarretou a sua ida ao julgamento no céu, até despertar e tomar a decisão de reatar o relacionamento com a filha, a noviça Leisl (Mia Threapleton), elaborando o plano para levar adiante o esquema do título – que envolve a participação de investidores ao redor do mundo – e convencer a filha a abandonar os votos e aceitar ser a sua herdeira. Ela aceita, desde que possa vingar-se da pessoa que provocou a morte da mãe, o tio Nubar (Benedict Cumberbatch).

Emocionalmente, O Esquema Fenício requenta o tema apresentado em Os Excêntricos Tenenbaums, em que uma figura patriarcal decide reconstruir o relacionamento com sua família. Com o passar do tempo, Zsa-Zsa e Liesl encontram o ponto em comum, um em que a ex-noviça pode investir no voto de pobreza, mesmo quando a ganância do pai fala mais alto, ao presenteá-la com peças elaboradoras do que ama (por ex., o cachimbo cravejado em joias). No entanto, diferente de obras anteriores, nas quais a estrutura narrativa era aninhada, com o texto dentro do texto (às vezes dentro de um outro texto, por ex. o trabalho passado Asteroid City), este roteiro é linear, mesmo que empregue um formato gamificado, com suas fases delimitadas em ‘caixas de sapato’ e no plano de convencer os investidores originais a aumentar a sua participação após o preço das commodities ter disparado e ser necessário o preenchimento da lacuna.
A estrutura é acomodada e acomoda a trupe do diretor, que só cresce: Riz Ahmed ou Michael Cera estreiam no cinema do autor, que convidou de novo Tom Hanks, Bryan Cranston, Scarlett Johansson e Jeffrey Wright (uma dúzia mais). O prazer existe neste reencontro com rostos conhecidos, dobrando-se à visão idiossincrática do autor, até quando os momentos individuais proporcionam menos do que poderiam resultar em se tratando do elenco à disposição. Mesmo assim, há prazeres relativamente inéditos considerando o cinema do autor: se você já refletiu ‘e se Wes dirigisse Top Gun ou até Missão: Impossível’, a narrativa oferece a chance de assistir à explosão de um avião, ou as suas consequências violentas, e mesmo uma sequência de artes marciais. O diretor até inventa o que denominei de slap shot, quando uma personagem estapeia o rosto de outro e a câmera ao mesmo tempo.

Mas eu sinto falta mesmo de momentos em que toda essa arquitetura, que hipnotiza o olhar de tal maneira que queremos apreciar cada objeto, textura ou figurino, converge em uma emoção genuína, por mais que seja pontual. Liesl pondera que, quando reza a Deus, não tem resposta, então somente realiza o que Deus acharia melhor. É até óbvia a conclusão, mas uma verdade adequada à emoção buscada na narrativa, pois não seria o hábito ou os votos que fariam de Liesl uma esposa de Deus, mas a sua bondade. Este é um momento raro, em que a atuação distanciada de Mia não subtrai a personalidade de sua personagem. Já o senso de humor é melhor, com tiradas irreverentes acentuadas pela atuação eficiente de Benício Del Toro, ou do restante do elenco.
Pessoalmente, acredito que seja incapaz de desgostar da obra de Wes: depois de haver compreendido que o diretor exerce o controle na precisão formal como meio de domar temáticas complexas (não é incomum que sua obra trate de trauma, luto, suicídio, aqui de abandono), eu me sinto capaz de enxergar além da beleza estética para o interior de personagens que escondem de nós os seus sentimentos, porque teme tê-los frustrados. O Esquema Fenício não muda essa realidade. Eu adorarei revê-lo mesmo assim, quando estrear nos cinemas.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.

