A fuga pode ser uma decisão sã
Todos tivemos/temos uma amizade como a de Mika e Dan, em que um tenta acomodar os sonhos e as ações do outro mesmo que ao custo do que deseja ou considera correto, ou terceirizando a este a direção do rumo de sua vida, nem que o rumo seja em direção ao abismo. Quando encontramos Mika e Dan, estão bebendo e curtindo com Tony, um amigo que não tem a ambição de criar um projeto transformador, senão de aproveitar o que pôde construir: Tony é o dono de uma empreiteira responsável por construir os invólucros de concreto onde é depositado o lixo radioativo fruto das usinas nucleares francesas. Mika, que é atendente no Burguer King da vizinhança, e sobretudo Dan não dão a mínima a isso, e tentam faturar dinheiro fácil com a pesca da carpa apelidada de Moby Dick — em razão do tamanho, mas também da obsessão — ou o furto de um gato premiado, no caminho para casa, que provoca uma série de consequências.
Mika e Dan são presos, com evidências suficientes para condená-los à prisão e multa, mas a consequência mais grave é que Dan descobre ter epilepsia, agravada ainda pelo consumo de álcool e drogas. Aconselhados pela advogada a procurar emprego, Mika e Dan começam a trabalhar com Tony, em que pese a inexperiência e ansiedade daquele e a irresponsabilidade do último, incapaz de obedecer às ordens dos outros, somente à sua própria vontade. No entanto, Meteors não promove um entendimento amplo sobre o que leva Dan a agir do modo como age, nem por que Mika permanece a seu lado não importa se estiver sendo tragado para o buraco. Ele tem a capacidade de orientar a sua vida, embora dentro da ótica capitalista burguesa, mas prefere a missão de ‘resgatar’ o amigo dele mesmo.
Não há nenhuma componente sexual ou romântica envolvida. Não há passado que nos ajude a iluminar a relação deles dois, vivemos só o momento, e o acidente de trabalho é o ponto de ruptura para que comecem o processo de separação. A direção de Hubert Charuel, a partir de roteiro coescrito com Claude Le Pape, tem a característica de um estudo de personagem narrado comodamente dentro do modo de ‘filme de arte’: a sua câmera na mão, instável apenas o bastante para percebermos esta característica, segue pelas costas os seus personagens, antes de cortar para os seus rostos, onde deciframos as suas emoções nas atuações naturalistas. Enquanto isso, os ponto de virada da trama surgem casualmente, como a descoberta do que há no interior do armário e o conflito envolvendo a assinatura de um documento.

Tony sabe que Mika e Dan estão abstêmios, mas lhes oferece bebida alcoólica em duas oportunidades. Em uma delas, Dan caminha sobre o parapeito de uma construção alta, e provoca ansiedade em Mika, que parte para resgatá-lo, e na outra, este solta algumas verdades para o tomador da obra sobre os depósitos de lixo nuclear serem construídos no fim de mundo onde moram, introduzindo uma crítica social que é abandonada logo depois. São sequências que existem somente para reforçar a personalidade construída de seus personagens: exprimir visualmente o cuidado de Mika por Dan, e a aparente displicência com que este cuida da sua vida, ou verbalizar a ansiedade alimentada por programas televisivos sobre lixo nuclear.
É uma narrativa obediente à cartilha do tipo de cinema de personagens que realiza — se há construção visual, há pouca, como aquela em que Mika e Tony estão ‘separados’ pela divisória do restaurante do Burguer King, com as luzes apagadas. Até posso criar uma relação emocional porque, como afirmei no princípio, temos/tivemos um Dan na nossa vida, um amigo que não se adapta à sociedade conformista em que estamos mas com o qual nos importamos a ponto de sacrificar nossos valores para reconduzi-los ao que acreditamos ser o correto. Aí está o que separa Meteors de ser ‘só mais um filme de festival’, fazer o espectador sentir-se como se fosse Mika, esforçando-se em orientar a vida de Dan (mesmo que às vezes com palavras cruéis, e o conflito é inevitável entre os dois), ou desejando em análise derradeira cortar a âncora que o mantém preso. Só que, por mais que se livrasse de Dan, Mika continuará preso à sua ansiedade e à sociedade que assegura a ascensão a poucos e bons.
Talvez fugir à Ilha da Reunião, do buraco em que se encontra, seja a decisão sã, no fim das contas.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.

