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Eddington

Classificado como 3 de 5

Eddington

2025

148 minutos

Classificado como 3 de 5

Diretor: Ari Aster

Uma farsa perfeita do mundo contemporâneo?

Os Irmãos Coen, quando ainda trabalhavam juntos, estabeleceram a planta baixa da comédia contemporânea de humor ácido, na qual podíamos rir do infortúnio alheio, sem abrir mão da conexão humana, uma vez que nós éramos ou poderíamos ser como seus fracassados heróis, caso nossas ações fossem movidas por ganância, paranoia, ou egoísmo. Pensando em retrospecto, eram filmes conservadores que pareciam afirmar ‘é isso o que acontecerá caso você desvie do caminho’, mas eram também filmes além do seu tempo, que retiraram a máscara do estereótipo em favor de uma conexão mais genuína com o agora, em que pessoas boas ou comuns também cometiam atos ruins. Aí chegamos a Eddington, do diretor Ari Aster dos horrores Hereditário, Midsommar e Beau tem Medo, talvez mais assustador do que os anteriores ao discutir ansiedade nos dias de hoje, em seu trabalho mais desapontante: uma sátira a respeito da sociedade estadunidense de anteontem, contada metonimicamente a partir da cidadezinha de Eddington.

Durante a pandemia de Covid-19, após a máscara ter se tornado um item obrigatório do cotidiano e a determinação do distanciamento social exigir que as reuniões fossem substituídas pelo Zoom, o prefeito Ted Garcia (Pedro Pascal) trabalha para se reeleger apoiando a construção de um centro de processamento de dados que trará empregos e dinheiro para a cidade, ainda que possa exaurir os recursos ambientais e destruir todo o ecossistema. O xerife Joe (Joaquin Phoenix) não entende nada sobre a economia nem meio ambiente, apenas não quer cumprir com a ordem executiva de utilizar a máscara, justificado na alegada dificuldade que tem de respirar utilizando-a pois é asmático. Só que uma cadeia de eventos o fará, a contragosto da esposa Louise (Emma Stone) ou da sogra Dawn (Deirdre O’Connell), entrar na corrida pela prefeitura local, concomitante ao assassinato brutal de George Floyd ter levado a população às ruas no país inteiro, contra a violência. Em Eddington não é diferente.

Ari Aster explora a página recém virada da história contemporânea, sob a perspectiva de uma cidade encravada e abandonada no rodapé do mundo, onde pode ser encenado um faroeste movido não mais pela ânsia expansionista – embora ainda esteja presente, durante o conflito jurisdicional entre Joe e o Oficial Butterfly (William Belleau) -, mas por temas contemporâneos que atravessam a narrativa ou apenas a tocam o suficiente para que os efeitos sejam sentidos. Dawn alimenta-se do conspiracionismo dos fóruns contemporâneos e os vomita no café da manhã; já Louise, emocionalmente frágil após ter sido uma vítima de abuso sexual na juventude e expressando-se através de sua arte, aproxima-se de um pregador carismático, que está montando uma seita com toques de coaching; Brian (Cameron Mann) tenta posicionar-se no mundo e compreendê-lo pelo motivo fútil de ter se apaixonado pela namorada do filho do prefeito, mimetizando a sua militância ou o que aprende sem qualquer discernimento, e finalmente Guy (Luke Grimes) e Michael (Micheal Weard) levam o racismo estrutural ao escritório do xerife. E no meio disso está Joe, que age por ter a autoridade e masculinidade questionadas, à sombra literal da imagem do pai, o xerife passado. Após por os eventos em tração, ele não é mais capaz de voltar atrás.

Joe até parece um dos fracassados dos irmãos Coen, por quem alimentávamos alguma forma de empatia, mas com uma diferença primordial: certamente a voz mansa, gentil e o jeito carinhoso merece créditos por não atropelar o sofrimento de Louise, em favor da própria satisfação, e Joe tem uma demonstração de correção quando reclama o fato de um cliente sem máscara ter tido negada a sua entrada no supermercado, pelo modo bruto como é feito, não pela política do local. Contudo, apesar da cabeça rebobinada em cinco anos e justificado no desconforto individual provocado pela asma, Joe não utilizar a máscara em face a toda evidência e estatística é só ato de birra, prejudicado ainda mais pela decisão do roteiro, ocorrida após ter sido estapeado em uma festa. Joe não é simpático, e o envolvimento é diluído até o ponto de se tornar inexistente, de tal forma que não dou a mínima para o que quer que vá lhe acontecer — o que, em certa medida, aplica-se a praticamente o elenco inteiro. O jeito patético e a sua eloquência visivelmente rasa como um pires são acentuados pelo atuação competente de Joaquin Phoenix, apesar de Joe não ser um perdedor clássico, mas um conhecedor das leis e detentor de habilidades especiais ao clímax.

Eu só não me importo com o personagem. E nem com a rede temática construída pelo diretor, articulada sob uma ótica da falsa equivalência, pois não é possível valorar, da mesma forma, a truculência policial que vitima a população negra estadunidense com os temas reptilianos que se esgueiram dentro do imaginário popular, distorcendo-o, e fabricando convenientemente a sua narrativa. Na prática, Aster parece desinteressado em explorar a ferida. Seu objetivo é satirizar os comportamentos individuais de quem a provoca, a partir da convulsão social, de forma isenta, desordenada e moralizante — considerado este ou aquele personagem. Ele não é igual ao alienado e imaturo Brian, mas poderia sê-lo, já que ambos parecem ignorar a complexidade do mundo ao redor para transformá-la e simplificá-la para proveito pessoal em um vídeo do reels ou em um filme de cinema. O que, no caso da direçã, significa dar voz à decupagem sempre envolvente: como o plano em que Emma Stone está deitada na cama nas sombras, e Joaquin Phoenix atrás da porta, enquanto a silhueta de Deirdre O’Connell surge como sombra atrás da cortina.

Ou quando a direção simplesmente tudo vira de ponta cabeça, e parece que estamos em um jogo de tiro de um jogador, acompanhando a câmera movimentando-se no eixo, enquanto explora cada quadrante da imagem, procurando alguém que pode não estar lá. O clímax é apoteótico, nem que apenas formalmente, porque quanto mais eu penso nele, menos gosto: os acontecimentos são divertidos, e a construção certamente envolvente, contudo é onde o discurso de Aster se torna menos coerente, e até mesmo contraditório. Além do mais, ao estender demais o epílogo, Eddington dá a sensação de poder ter encerrado 5 ou 10 minutos antes, embora a ironia de qual personagem sabe a verdade do ocorrido seja refinada, para pender a balança a favor da direção.

Talvez eu tivesse esperado mais sobre Eddington pelo pedigree da direção. Talvez seja somente um filme que quer mostrar que o mundo de hoje não faz sentido, mesmo que isso signifique dizer que antifascistas podem ser iguais aos fascistas que combatem — algo que somente deve fazer sentido na cabeça de Aster. Ou de Joe.

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