Um manual de sobrevivência no mundo neoliberal
Talvez tenha a oportunidade de amadurecer ou elaborar melhor os meus sentimentos ambíguos com este belga Kika, que tem, no DNA, a influência de um cinema social de Ken Loach e dos irmãos Dardenne, dentro de um contexto contemporâneo pertinente de relações interpessoais e intrapessoais mediadas pelo neoliberalismo, além de uma atuação bastante marcante de Manon Clavel e a sensibilidade feminina da direção de Alexe Poukine. Teria sido uma experiência muito boa se não me sentisse à deriva até, ou ao menos alheio ao roteiro, que me parece mais como a desculpa para que Kika aja e faça o que necessita para sobreviver, do que a construção articulada e crível da ação, elipses e eventos para levá-la a esse ponto. A sensação é de que a história seja forçada a fim de alcançar o resultado desejado, em vez de fazê-lo naturalmente, mas acho que já estou me adiantando.
Poukine, ao lado do co-roteirista Thomas Van Zuylen, trata da jornada do reencontro da personagem-título com o sol presente mas escondido atrás das copas das árvores, e a tentativa de se recuperar após uma queda. É uma metáfora para dizer que, após levar a bicicleta da filha para reparar, a funcionária de um serviço de assistência residencial Kika apaixona-se avassaladoramente por David, e não nega esse desejo para satisfazer as regras da sociedade conservadora. Ela separa-se do marido, com quem estava junta há 17 anos, em um momento encenado com somente um olhar, e começa a morar com David. As elipses procuram atalhos para desviar de lugares-comuns e conduzir o filme para onde a diretora deseja que esteja, que é quando Kika descobre que David morreu após um derrame. O mundo dela cai, literalmente, por causa da dificuldade financeira.
Kika está em situação parecida com a daqueles que assiste diariamente, que precisa de uma solução imediata para reencontrar a estabilidade no mundo capitalista neoliberal, enquanto está com a água sob o pescoço. A descida de Kika é brusca da situação em que estava, para a situação em que a direção quer que esteja, e é onde me perco do filme. É compreensível a crítica contida na narrativa, sobre a crise inflacionária na sociedade e a precarização do mercado de trabalho que exigem que as pessoas encontrem os meios alternativos de faturar dinheiro adicional, para aguentar mês a mês. Esta uberização da economia mundial é também uma uberização do corpo, é vender-se, e logo Kika precisa repetir o que a mulher que auxiliou no início da narrativa fazia como trabalho: a venda de suas calcinhas usadas na internet por cem euros. Não para por aí, porém.

A narrativa anseia chegar no momento de afirmação e ruptura, em que a personagem-título descobre, a duras penas, que mesmo que não haja penetração, nesse mercado de trabalho em que estamos, somos todos propensos a sermos profissionais do sexo, pois o nosso corpo que está na vitrine e o desejo, que é o motor da aproximação dela e David, é também o motor para o escambo entre o que as mulheres têm a oferecer e aquilo que os homens querem. Para chegar aí, a narrativa sonega as alternativas diante de Kika: a família, os amigos, até o ex-companheiro. Eu acredito no argumento da narrativa e fui movido pelo sentimento decantado pela direção de fotografia caprichadíssima ou pela composição musical que logo me remeteu aos melhores trabalhos de Nicholas Britell – Se a Rua Beale Falasse veio à minha cabeça frequentemente enquanto Kika pedalava de bicicleta sob a floresta -, eu somente me sinto traído em como o roteiro levou-me até aí e criou uma equivalência onde acredito não haver.
Como afirmei no parágrafo inicial, não falta sensibilidade à Poukine. A decupagem e o estilo, especialmente a iluminação, criam um espaço emocional, em que Manon Clavel pode explorar o potencial de Kika, mesmo nos acontecimentos menos convincentes. É que Manon tem uma simplicidade autêntica, um olhar expressivo e uma presença bem dominante, embora dotada de hesitação e fragilidade. A sua atuação é como o bálsamo que atenua o desconforto proporcionado por decisões apressadas ou frustrantes de um texto ainda assim pertinente. Eu adoraria ter gostado mais de Kika, porque creio que a humanidade, a afetividade e a sororidade transbordam atrás e em frente às câmeras. É um caso de reavaliar mais à frente ou talvez de aceitar que alguns passeios de bicicleta podem ser irregulares.
Filme selecionado para a Semana da Crítica no Festival de Cannes 2025.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.


