Um cinema fantasmagoricamente queer
Um dos meus filmes favoritos deste Festival de Cannes foi a estreia na direção e no roteiro de longas metragens do tailandês Ratchapoom Boonbunchachoke, A Useful Ghost, que bebe da mesma fonte do realismo mágico e dissidente do já estabelecido Apichatpong Weerasethakul, embora desafie a forma do denominado slow cinema, a partir de uma colisão de gêneros ora surrealmente hilários, ora tragicamente tristes. Wisarut Homhuan interpreta um anônimo kathoey – um termo guarda-chuva para se referir a mulheres trans ou a homens gays com uma expressão feminina -, e que tem amargado as consequências do acúmulo de poeira, o resultado da construção de um shopping center – denominado futuro que demole sem nenhum pudor uma escultura simbólica do passado, na qual religião, poder militar e agricultura eram retratados. Esse personagem – doravante Joe, para fins de simplificação – está resignado com o fato de que, em um futuro próximo, a especulação imobiliária depois do término da construção do shopping provocará a gentrificação do bairro onde habita, com isto o encarecimento do aluguel, ou mesmo a demolição do imóvel. Mas enquanto este dia não chega, Joe precisa respirar e conservar limpo o espaço, e para tanto adquire um aspirador de pó.
Na primeira noite de utilização, o aspirador de pó cospe a poeira acumulada durante o dia, e Joe resolve chamar a assistência técnica, e é prontamente atendido por Krong (Wanlop Rungkumjud). É onde entra o realismo mágico, acompanhado pelo som da harpa, que eleva a narrativa do real: o aparelho está possuído por um fantasma. Para ilustrar a situação fantástica, e não rejeitada pelo personagem central em obediência aos contornos específico da fantasia, Krong narra a história de Nat (Davika Hoorne), esposa de March (Witsarut Himmarat) e nora de Suman (Apasiri Nitibhon), a dona de uma fábrica local. A morte precoce de Nat e o luto de March fazem-na habitar o corpo de um aspirador de pó vermelho, um elemento surreal , que fisga a atenção do público do presente para o passado remoto com consequências imprevisíveis, após um recém descoberto poder de aspirar as memórias dos fantasmas da cabeças dos vivos.
Eu tenho a convicção de que posso ter perdido o leitor nesse momento, mas apelo que perseverem no texto – da mesma forma que fiz com o filme. Com apoio em momentos bem humorados, tais como a utilização inusitado de um aspirador de pó, o roteiro usa os fantasmas como a analogia de pessoas marginalizadas, que não enxergam na poeira o retrato do progresso, enxergam nela somente o que sentem no corpo: o sufocamento, a tosse, e aí o aceno à memória da epidemia da Covid-19 – para mim, é impossível não associar as máscaras ao que sobrevivemos. Os fantasmas são os mortos, são as pessoas queer, ou a classe trabalhadora explorada e oprimida dentro da fábrica por Suman que, diante de um aparelho possuído, questiona: “Podemos ainda vendê-lo?”. Se Suman, mãe de um filho gay, age dessa maneira, o que esperar daqueles que não tem empatia?

A Useful Ghost, enraizado na comédia surrealista, amadurece em um drama humano e politizado, em que a luta de classes é também a luta pelo direito de exercer um desejo, ainda que não o dito normativo. Para Boonbunchachoke, não há como dissociar a luta contra o neoliberalismo predatório – que avança sobre a arte, as cidades e as pessoas, a fim de destruí-las ou devorá-las em nome do pretenso progresso – do movimento queer – talvez a materialização mais representativa do que é o progresso. A desenvoltura da direção é impressionante, mesmo que os retornos ao presente pareçam mais um modo de ensinar o espectador como se sentir naquele determinado instante, do que um meio eficiente de não esquecermos Joe e Krong. Não ironicamente, embora o roteiro critique que a reunião de um casal hétero implique na separação de um casal gay, é justo o que a narrativa realiza: marginaliza Joe e Krong, embora não inteiramente, em prol de Nat e March.
Essa contradição não enfraquece totalmente o ímpeto da narrativa. Seus personagens estão com muita raiva e tesão, e podemos tatear esses sentimentos, do mesmo modo que poderíamos fazer com a direção de arte da sala onde são realizadas as sessões de eletrochoque. Além disso, a maneira com que A Useful Ghost discute as memórias do passado que assombram senão os exploradores originais, mas aqueles que usufruem o produto da exploração, é original e atraente. A classe governante quer esquecê-los, e assim expurgar o histórico sobre o qual está construído o seu poder, um tema que, de vez em quando, é discutido na sociedade: por que tenho que pagar pelo que ocorreu antes de um nascer, vocifera o idiota útil em redes sociais, incapaz de perceber a nuance dos princípios envolvidos na dívida e reparação histórica. “Você faz os outros esquecerem de seus fantasmas. Eu leio para lembrar deles, então”, afirma um personagem que assiste aos fantasmas desaparecerem, e lamenta isso, especialmente quando enxergamos como a classe dominante reifica e manipula a classe dominada, para atuar contra os seus.
Os fantasmas são analogias dos marginalizados, também são representações literais de uma pluralidade artística, que mimetiza a pluralidade individual. A Useful Ghost é, acima de tudo, satisfatório. É surreal e irreverente, é politizado e humano, e também me remete ao prazer de assistir à obra de Quentin Tarantino, transgressora dos fatos históricos, em favor de um prazer cinematográfico pautado na violência e na ideia de que, na arte, tudo é possível. Ainda que vivamos em um mundo em que os opressores continuam no topo da pirâmide, e os oprimidos debaixo de seus pés, a arte pode ser a nossa fuga. Ainda que temporariamente, ainda que dentro de um aspirador de pó.
A Useful Ghost está selecionado para a Semana da Crítica do Festival de Cannes de 2025.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.



