Uma reflexão sobre uma punição injusta
Quando assisti a Isto Não é Um Filme (2011), durante a minha primeira cobertura de um festival de cinema, a 35ª Mostra de São Paulo1, embora tivesse conhecimento da perseguição política e violação dos direitos humanos enfrentada pelo diretor e ‘ator’ Jafar Panahi, não tinha sensibilidade nem repertório para ‘compreender’ o filme além da limitação de um crítico de cinema com cerca de um ano de atividade. Relendo este meu texto, sinto tristeza com meu ‘eu do passado’, que talvez não entendesse tão bem a arte como manifesto político, e felicidade em poder retificar a minha visão, hoje, na celebração de um artista que, por mais de uma década, transformou a sua experiência na matéria prima de sua obra, filmando e distribuindo clandestinamente sua obra aos festivais de cinema. Com isto, proporcionou a nós uma fresta por entre as cortinas da repressão para que compartilhássemos o seu olhar sobre a sociedade iraniana. Vieram Cortinas Fechadas (2013), Táxi Teerã (2015) e Sem Ursos (2022), até Panahi readquirir uma autorização do governo para filmar a sua primeira ficção em duas décadas: It Was Just An Accident, pelo qual repetiu a façanha de Robert Altman, Michelangelo Antonioni e Henri-Georges Clouzot e conquistou a tríplice coroa dos Festivais de Cinema, ou seja, o Urso de Ouro de Berlim, o Leão de Ouro de Veneza e, agora, a Palma de Ouro de Cannes.
O roteiro, também de autoria de Panahi, é a oportunidade para refletir sobre o perdão ou a retribuição pela injustiça cometida por um indivíduo em nome do regime quando o mecânico Vahid, durante o reparo de um automóvel, acredita estar diante do sujeito responsável por tê-lo torturado, anos antes, e condenado a sua vida à condição na qual está. Vahid impulsivamente rapta o motorista, Eghbal, esconde-o dentro de sua van na intenção de enterrá-lo vivo, até exibir indícios de insegurança, tanto em relação ao ato propriamente dito, quanto à identidade do agressor. Ao longo do dia, Vahid encontra-se com meia dúzia de sobreviventes do regime para confirmar a identidade de Eghbal e, sobretudo, se deve levar adiante o plano que traçou. O drama realiza uma pergunta direta: será que é moral agir da mesma forma como agiram os nossos agressores, hoje vivendo uma vida de classe média alta, retribuindo com a pena capital a violência de ontem, ou será que a melhor medida é perdoar (ou anistiar, que no Brasil é a palavra da moda)?

Embora Panahi não esteja em frente às câmeras, é fácil enxergá-lo na ânsia retributiva de Vahid, sendo este filme a manifestação material do desejo de se vingar da prisão, da censura, ou do apagamento por que passou por tanto tempo. Além de a questão moral literalmente discutida no roteiro, acredito que a identidade mereça uma reflexão mais aprofundada. Uma meia dúzia de personagens é instada a identificar Egbal. Apesar de ser este, possivelmente, o autor das violências, a identidade do perpetrador é maior do que a ‘mão’ que executa o castigo. É o carrasco o autor ou é quem determina a ação do carrasco? A jornada de Vahid em referendar a identidade de Egbal me levou à questão se a narrativa não incitou essa dúvida justo para diferenciar indivíduo e instituição — não quero apontar a irresponsabilidade daquele sob o argumento de apenas obedecer às ordens, mas é uma discussão oportuna sobre a qual a narrativa avança, mesmo que timidamente.
E digo timidamente porque, apesar de o clímax ser poderoso em razão do conteúdo da discussão e das escolhas formais tomadas por Panahi, decepcionou-me por ser aquém à estrutura narrativa, na qual a dúvida desempenha um papel determinante (para mim, nenhum filme se beneficiaria mais de um final em aberto do que este, terceirizando ao espectador o papel de especular o que acontecerá após). Como mencionei a estrutura, a narrativa é envolvente: com muito bem aproveitados 105 minutos de duração, Panahi elabora uma escalada implacável de acontecimentos que explora o absurdo, o humor, e a ética. Apesar do conteúdo dramáticos, há momentos genuinamente irreverentes, tais como aquele em que os noivos fingem fotografar diante das edificações da cidade para para fingir uma normalidade aos desconfiados seguranças.
A direção explora os ambientes fechados, aí revisitando as obras anteriores de Panahi, na qual a ação se desenrolava em ambientes privados divorciados do mundo externo, e mesmo os momentos ao ar livre e a sós, que parecem adequados para decidir o dilema, também remetem ao fato de Vahid, e os demais, serem os prisioneiros de seu destino e de suas ações. Em meio a isso, Panahi critica via constatação a teocracia iraniana, com o exemplo da dificuldade de uma mulher não receber atendimento hospital só por não estar acompanhada do marido, mesmo que isto possa provocar sua morte. O país é um cenário de absurdos, e nada é mais absurdo do que a justificativa para o assassinato de civis inocentes.
It Was Just An Accident é o retrato revelador de um país incapaz de se reconciliar com o passado, enquanto os seus perpetradores permanecerem insensíveis, irresponsáveis ou empoderados. Neste cenário, é até louvável que os personagens ainda reflitam a moral antes de agir, e mesmo que o roteiro peque justamente na ação, ainda assim é bárbaro.
It Was Just An Accident, exibido sob o título Un Simple Accident, esteve na Seleção Oficial do Festival de Cannes de 2025, e foi premiado com a Palma de Ouro.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.


