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Fuori

Classificado como 1 de 5

Fuori

2025

117 minutos

Classificado como 1 de 5

Diretor: Mario Martone

Biografia que apenas inspira indiferença

Após o entediante Nostalgia (2022), selecionado para o Festival de Cannes, o cineasta italiano Mario Martone retorna com a biografia da atriz e escritora siciliana Goliarda Sapienza, Fuori, cujo título é justificado durante uma rebelião ocorrida no presídio ao qual a personagem foi enviada pelo crime de furto de joias. E eu sinto não ter palavras para expressar a relação indiferente que tive com mais este trabalho do diretor, que à primeira vista, tampouco me parece a pessoa adequada para explorar o íntimo de uma mulher que atravessa um período sombrio de sua vida, e se reencontra a partir de suas conexões com as colegas de prisão, em particular Roberta (Matilda de Angelis).

Como biografia, Fuori acerta em recortar um momento específico da vida de Goliarda, apenas de este recorte não proporcionar conhecimento senão superficial da vida ou da carreira de Goliarda, que à época tinha cerca de 55, 56 anos. Ela procura emprego, mas é rejeitada por não possuir referências, nem por ter a idade apropriada. O preconceito etário não é uma prerrogativa apenas dos homens, mas mesmo das mulheres, e mesmo que o roteiro insista nesse ponto, não desenvolve salvo superficialmente qual a relação da protagonista com o amadurecimento. Para ser honesto com os meus sentimentos e com vocês, ao término dos 115 minutos, eu não acredito ter conhecido nada sobre esta artista, nem sido estimulado a fazê-lo, um sentimento relativamente comum em filmes análogos sobre pessoas que ainda não tínhamos tido a oportunidade de conhecer.

Goliarda, a intelectual distraída, ou a ávida consumidora de café expresso, termina por ser uma personagem críptica e misteriosa, não por disfarçar o que sente nem quais são as suas intenções, apenas por ser narrativamente vazia, apesar de vivida pela talentosa Valeria Golino. Se o trabalho artístico realizado após o encarceramento proveio de um contato intimista e não crítico da vida na prisão e dos relacionamento com as detentas — com os clichês característicos deste tipo de ambiente, tais como a mulher brigona e que é codificada como uma personagem masculinizada, ou a ‘madrinha’, uma mulher idosa e gorda, que toma as rédeas do presídio —, então Fuori não proporciona nenhum momento genuíno, senão aquele que dá azo ao título, para compreender a inspiração.

Em certo instante, Goliarda e Roberta tomam banho nuas, e não sabemos se a direção enfatiza o corpo das personagens, ou o sorriso cúmplice, porque estão se apaixonando, apesar de o roteiro não avançar muito além no tema, ou apenas porque é oportunidade de exercer o olhar masculino sobre o corpo de mulher vulneráveis dentro do cárcere. E não é que Martone não seja um artesão competente, planejando transições elegantes e evocativas, como aquela em que as joias furtadas diluem-se dentro do copo de uísque – após Goliarda reencontrar-se com Roberta -, é somente que a direção não compreende a personagem, ou não parece fazê-lo, portanto é incapaz de apresentá-la a nós, exceto sob a abordagem pretensamente feminista.

Mesmo a discussão abertamente política é fracassada, porque não é desenvolvida além da discursividade de Roberta. Não dá, por exemplo, para considerar a revolta na prisão como a revolta contra as instituições italianas dos anos 80, porque faltam subsídios ou narrativos, ou imagéticos para esta conclusão. Fuori não inspira sequer o desprezo mas só a indiferença. Eu iniciei sem saber quem foi Goliarda, reconheço minha ignorância, e terminei da mesma maneira, ou pior, pois desincentivado a fazê-lo.

Fuori está na Seleção Oficial do Festival de Cannes de 2025.

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