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La Petite Dernière

Classificado como 3 de 5

La Petite Dernière

2025

106 minutos

Classificado como 3 de 5

Diretor: Hafsia Herzi

Mais uma história de amadurecimento

Aos 17 anos, Fatima é a irmã caçula de uma família franco argelina, durante a época da vida da descoberta da identidade, do amadurecimento afetivo, emocional e sexual, da construção da estrada que a levará do término da adolescência ao início da idade adulta, do ensino médio à universidade, e do futuro idealizado pela família ao futuro concreto resultante de suas decisões. Com esta premissa, La Petite Dernière não nos proporciona nada relativamente novo dentro de histórias de amadurecimento, senão apontamentos familiares, étnicas e contextuais que a individualizam dentre todas as outras histórias de amadurecimento já contadas no cinema. Cada trajetória é única, disto não há dúvida, e não há um molde único a partir do qual tais histórias brotam, apenas há a recepção por parte de espectadores que podem, ou não, estar na mesma órbita da protagonista e, assim, sentir próxima ou distantemente o que sentem.

Ao sentir deste crítico, homem, latino-americano com ascendência libanesa, hétero, não houve nada na direção ou no roteiro de Hafsia Herzi ou na atuação da estreante Nadia Melliti que tenha particularmente me sensibilizado significativamente. Estou diante de um dilema crítico, um em que escuto a irrelevância de minha voz — já que não me considero público-alvo imediato da narrativa —, embora sinta uma urgência em afirmá-la, tomando por empréstimo o meu conhecimento e repertório, ainda que ciente de que isso não fará a menor diferença para quem encarar, no rosto de Fatima, um reflexo aproximado de sua identidade.

Adaptado a partir do livro escrito por Fatima Daas, em que ficção e autobiografia se confundem, La Petite Dernière almeja conciliar partes da identidade, como se fossem as peças de um quebra-cabeças, cuja imagem parece abstrata à primeira vista. Já que Fatima ainda não sabe quem é, reinventa-se como Linda, franco egípcia, com 19 anos, em um aplicativo de relacionamentos, através do qual contata desejos e experiências. Contudo, não é no mundo virtual que Fatima conhece Ji-Na (Ji-Min Park): na escola para asmáticos, um toque de mãos é um gatilho erótico desenvolvido posteriormente quando estão comendo noodles. Só que Ji-Na também tem questões particulares — a depressão —, que agrava a insegurança emocional de Fatima.

Ainda assim, a sensação é de que Fatima é um livro inacessível e impenetrável para o espectador. Nadia encara o vazio, com o olhar ou a expressão modelados pela direção de Herzi, também atriz. A câmera ou procura a emoção nas microexpressões no rosto de Nadia — mas isto esbarra na inexperiência da promissora atriz —, ou alterna para o ponto de vista, no que está vendo e de que forma reage. A internalização do conflito e da resolução dramática, apesar de decisão coerente com a personagem e a narrativa, enfraqueceram o meu envolvimento. Fatima é introspectiva, e a narrativa explora esta característica na promoção da catarse dramática, mas por que não senti agudamente a sua história? Racionalmente, eu compreendo os obstáculos, mas a sensação que tive, a partir do meu repertório, é que já assisti à história de Fatima em outras oportunidades e de forma melhor.

Há experiências bem específicas, na relação com a família conservadora e com a qual não tem o diálogo aberto sobre a sua identidade, ou com a religião. E admiro a decisão da montagem de cortar da festa universitária, permeada por sexo e drogas recreativas, à torre da mesquita, um símbolo visualmente fálico e remissivo de um patriarcado que repudia a sexualidade dissidente, em favor de uma leitura arcaica dos dogmas. Fatima sente-se culpada por transgredir a religião na qual crê, e a orientação do imã piora este sentimento, ao mesmo tempo em que exibe uma visão limitante ao comparar, em nível de pecaminosidade, a homossexualidade masculina e feminina.

Ainda que um retrato honesto e digno, La Petite Dernière é um estudo de personagem e história de amadurecimento que assisto à distância em razão das decisões formais e da direção de atores. À distância, não tenho a proximidade ou o contato de que histórias humanas iguais a esta tanto se beneficiam.

La Petite Dernière está na Seleção Oficial do Festival de Cannes de 2025, tendo recebido o prêmio de Melhor Atriz para Nadia Melliti.

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