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O Riso e a Faca

Classificado como 2.5 de 5

O Riso e a Faca

2025

212 minutos

Classificado como 2.5 de 5

Diretor: Pedro Pinho

Cinema pós-colonialista

Sérgio (Sérgio Coragem) é um engenheiro ambiental enviado à Guiné Bissau a fim de avaliar o impacto ambiental de uma obra de infraestrutura rodoviária, fundamental a interesses privados dos ‘colonizadores portugueses’, embora aos custos dos interesses das comunidades locais e do meio ambiente, dos ‘colonizados guineenses’. Sérgio está na condição de alienígena naquele contexto, visualmente à deriva no meio da estrada, em uma posição de indefinição tal como é fluida a sua sexualidade: enquanto obtém a informação para a elaboração do relatório conclusivo para a ONG, experiencia aquela realidade, em relacionamentos que o obrigam questionar a sua condição.

Ele não é diferente de Pedro Pinho, diretor e roteirista português, dentro de um filme que denuncia o neocolonialismo ou pós-colonialismo, enquanto o perpetua através da arte. A mesma curiosidade que Sérgio demonstra com o modo de vida da comunidade que o recebe, também é a da direção manifestada nos planos longos que se apropriam daquela realidade. É um cinema etnográfico do século XXI, em que diretor/roteirista e protagonista confundem-se irrevogavelmente, pois dependentes do olhar para realizar e concluir a sua missão. Um deles é ficcional; o outro, é real. Sérgio existe só na ficção, nas mais de 3 horas de duração de O Riso e a Faca; Pedro Pinho, em contrapartida, tem o fruto deste olhar exploratório materializado na forma de arte.

Pedro Pinho critica a própria condição a partir da eleição de um substituto, mas talvez isto não baste para eliminar a reflexão sobre os meios exploratórios de um cinema que explora, desbrava, torna visível a realidade invisível de um país minúsculo no litoral da África, mas o faz de uma forma que somente dá retorno à mesma metrópole de sempre e muito pouco às comunidades locais: a escalação de atores, sociais e profissionais, e o comércio indireto com a chegada da equipe de filmagens não me parece o bastante. A narrativa não adota um posicionamento crítico, senão aquele já discutido tantas vezes, em que o forasteiro é assimilado pelo meio, um processo facilitado pelas relações com Diara (Cleo Diára, a vencedora do prêmio de melhor atriz da mostra Um Certo Olhar) e Guilherme (o brasileiro Jonathan Guilherme), e começa a tomar partido daqueles em vez de interesses outros, tais como os funcionários de ajuda humanitária que criticam, com palavras condescendentes e passivo agressivas, as estradas que interligam o país.

De certo modo, Pedro Pinho procura um entendimento sistêmico, ou seccional, de um capitalismo pós-colonialista, em que as relações entre países desenvolvidos (europeus) e em desenvolvimento (africanos) estão entrelaçadas à discussão étnica e queer. Assim, não há como discutir formas de exploração se não compreendermos a dinâmica racial, ou a política de corpos. Guilherme, ao procurar as suas raízes no país, descobre que ao ver da população local, é mais branco do que negro, um conflito de identidade pautado ainda mais fortemente com a sua identidade e sexualidade. A compreensão da direção quanto a esses aspectos é admirável, mas não basta: Sérgio sempre pode deixar Guiné, não há nada que o impeça de retornar à Portugal, senão o curioso olhar observador. Se é o seu olhar que guia o nosso, também podemos retornar às nossas realidades, de tal maneira que aquelas vidas, aqueles corpos sejam relegados à memória audiovisual na ficção, ou na realidade.

Além disso, a encenação também não socorre à direção. A duração interna das cenas, no desejo de tensionar o olhar o bastante para atravessar a dimensão da observação a outro plano de experiência sensorial e espiritual, termina por, na falta de um melhor termo, ser somente chato. Um tédio magnificado pela duração épica de 212 minutos, apesar de não haver nada de épico, nem memorável em O Riso e a Faca. Reconhecer a sua limitação dentro de um contexto exploratório de capitalismo pós-colonialista é o ponto de partida para Sérgio rever seus pré-julgamentos, mas no filme de Pedro Pinho é apenas chover no molhado.

O Riso e a Faca está na mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes.

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