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Love Letters

Classificado como 3 de 5

Des preuves d'amour

2025

97 minutos

Classificado como 3 de 5

Diretor: Alice Douard

É tempo de mudança na França

No início de Love Letters, somos informados de que a autorização para o casamento de pessoas do mesmo sexo aconteceu na primavera de 2014. Um marco que legitimou, via benção estatal, o relacionamento entre Céline (Ella Rumpf) e Nadia (Monia Chokri), e o aumento da família, já que ambas esperam a sua primeira filha. Contudo, não é Céline que está grávida, mas Nadia, uma situação que provoca consequências conjugais, bem como individuais, em uma oportunidade para que a diretora Alice Douard investigue a situação da mulher, da mulher sáfica!, tomando por ponto de partida a modificação da legislação ocorrida em um passado recente. Mesmo estando em um casamento, Nadia, por não ter gestado a criança, tem que passar por um processo de adoção, que lhe exige pedir aos amigos e familiares as cartas de amor do título, uma espécie de MacGuffin que impulsiona a protagonista a reavaliar o seu relacionamento com a mãe (Noémie Lvovsky), uma pianista tão renomada quanto uma figura materna ausente.

O roteiro é um empecilho para uma avaliação aprofundada sobre o significado do que é ser mãe dentro do contexto apresentado, e a relação de casais do mesmo sexo dentro de um cenário menos hostil, ainda que os reflexos da discriminação estejam presentes. Céline e Nadia receiam demonstrar, publicamente, afeto e desejo, e embora dentro de casa, tomam a precaução de fecharem a persiana para impedir o olhar do mundo, bem como o nosso olhar de espectador. Há uma maturidade no comportamento de Nadia, especialmente: “Ninguém sabe como é para nós, nem nós mesmas”, é uma frase que parece tolerante ao preconceito residual fruto de uma estrutura social ainda homofóbica. Mas na realidade é o reconhecimento de que, embora as leis tenham mudado, os corações e as cabeças das pessoas ainda podem permanecer presos no passado por algum (curto?) tempo. O médico que realiza a consulta de rotina é um exemplo disso, repetindo um procedimento inquisitorial típico de casais heteronormativos, inaplicável a um casal homoafetivo: o bebê no ventre de Nadia não tem o material genético de Céline, então por que perguntar sobre seu histórico médico?

Ele não é maldoso, mas ignorante. Ele poderia evitar a piada de mau gosto, apesar de não o fazer. Muitos outros também poderiam tomar atitudes parecidas. As agressões, micro ou não, pois sente quem as enfrenta, parecem às vezes deslegitimar criminalizar o que é legítimo e legal, embora ainda infante ou recente para estar firmado em pedra na sociedade. Até aí, a discussão, ainda mais quando agravada com a maternidade e as dúvidas inerentes, me envolve. Eu começa a desinteressar-me quando o roteiro crê ser relevante a introdução de crianças arruaceiras ou desobedientes apenas para acentuar a ansiedade já à flor da pele ou de comentários que nem o mais sem noção faria para a mulher gestante – que tenham sido os pais das mesmas crianças mencionadas explica muita coisa. Há outros conflitos que parecem tão franceses (no mau sentido) quanto o desejo praticamente patológico de ir na varanda para fumar um cigarrinho, ou elipses narrativas que sugerem a relação conflituosa que Nadia enfrentou na família antes de terem aceitado o seu relacionamento homossexual.

Des preuves d'amour Love Letters | La Semaine de la Critique of Festival de  Cannes

Entretanto, o ponto central da narrativa, até mais do que a gestação propriamente dita e a burocracia, é a relação de Céline com a Mãe: a carta de amor é o gatilho do conflito entre a iminência de uma maternidade voluntária e a reavaliação de uma compulsória, solo e obrigada a harmonizar a presença afetiva com a dedicação profissional à arte… e Céline tem como julgá-la? Love Letters não oferece juízos, mas oportunidades de cura e perdão, algumas de forma expositiva, muitas outras de maneiras eficazes. Além de um instrumento musical, o piano é também um modo de lamento, que permite reapreciar os sentimentos sublimados pela canção ou pelo escrito na carta (os meios indiretos de rasgar a alma). Quando Céline e Nadia assistem à gravação do concerto da mãe na tela do computador, encaram-nos, pois também questionam a nós mesmos.

Todas as pessoas ouvem de forma diferente” é uma forma cômoda, às vezes, de defender o indefensável, mas se todos ouvem diferentemente, também amam diferentemente e sentem idem. Em Love Letters, as crianças acabam sendo as fontes de maior sabedoria. A criança que fala o que Céline precisa ouvir, a criança que está no ventre, e a criança que existe dentro de cada um, inocente, não ressentida. É um período de mudança na França… pode ser também o início de mudança de três gerações de mulheres.

Love Letters está incluído na Semana da Crítica do Festival de Cannes 2025.

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