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Morra, Amor

Classificado como 3 de 5

Die My Love

2025

118 minutos

Classificado como 3 de 5

Diretor: Lynne Ramsay

A depressão pós-parto em forma de horror existencial

A diretora Lynne Ramsay já explorou a maternidade na adaptação de Precisamos Falar sobre o Kevin (2011), e retorna a este tema de outro ângulo com a também adaptação de Morra, Amor, baseado no livro de Ariana Harwicz, que narra os acontecimentos depois de Grace (Jennifer Lawrence) e Jackson (Robert Pattinson) mudarem-se à casa herdada do tio, que se suicidou. É quando nós os conhecemos, depois de abrirem a porta do lar e, naquele momento, os sonhos de ambos materializarem-se (ela quer ser escritora; ele produzir música) em uma apaixonantemente tórrida demonstração de desejo. Até vir a gravidez e o nascimento de Harry, que divide a vida daquele casal em antes e depois — como deve ser a realidade de qualquer família. Jackson negligencia o tesão de Grace, e esta, enlouquece ao redor da espiral da depressão pós-parto, enquanto assiste aos seus esforços desaguarem em incompreensão e frustração.

Nos melhores momentos, Morra, Amor é um soco no estômago; nos piores, é repetitivo e redundante, embora conte com atuações envolventes de Jennifer Lawrence e Robert Pattinson, Sissy Spacek e Nick Nolte, os intérpretes dos sogros de Grace. Obviamente feminista, estranho seria se não fosse considerada a diretora, a obra original e o tema, o roteiro sublima o diálogo “Eu preciso de uma vassoura” de formas literal e metafórica, especialmente considerado o significado simbólico de um incêndio florestal (bruxas?!), o batismo pelo fogo que é, ainda, a incandescente fonte de desejo de Grace. Um desejo reprimido de modo cruel na demonstração da repulsa do corpo da esposa no puerpério e que só acentua o estado deletério da psiquê da personagem, cuja fragmentariedade é também encenada narrativamente.

Aliás, a narrativa é um tremendo pesadelo. Os sons de abelhas são entreouvidos desde a cena inicial, embora descartados porque estamos em ambiente afastado, cercado por muita vegetação. Com o passar do tempo, esses sons tornam-se insuportáveis para nós e Grace, que tenta matar as abelhas invisíveis sem êxito. A canção reproduzida como se fosse disco arranhado reflete a personalidade errática da protagonista, para a qual, tal como a sogra, nada parece real. A relação entre as personagens ecoa o tema narrativo: a depressão pós-parto e o luto como gatilhos para a perda de identidade e a alienação do eu. Uma sonambula pela propriedade; a outra, imita uma felina rente ao solo prestes a atacar, mas tal ímpeto predador existe apenas na estampa da camiseta — acompanhada de filhotinhos. A sogra entende Grace, ou pelo menos compreende que o futuro de sua família repousa em cuidar da nora.

No entanto, como fazê-lo dentro de uma montagem que mais parece tempo suspenso — em que a noção de tempo cronológico e cinematográfico é habilmente deteriorada — ou em uma fotografia doentiamente esverdeada e alucinatória. Será que o estranho interpretado por Lakeith Stanfield existe concretamente ou é só a projeção de Grace? Aliás, eu gosto da contradição de a família estar em um ambiente espaçoso, com toda a natureza e o horizonte para arejar a mente, apesar de Grace visualmente aprisionada atrás das portas e janelas, em uma estética que remete ao melodrama clássico.

E Jennifer Lawrence está à altura da sua atuação em mãe! — que este filme referencia ao quebrar uma outra pia, mas com um significado bastante diferente. Ao pressionar o seu rosto contra o vidro da porta de entrada, ou ao encarar para fora do carro, Jennifer tem os olhos mortos, à procura do que nem sabe mais o que é. Não é a felicidade nem o tempo pretérito que busca, é a sua identidade ou feminilidade, quando a mulher deixa de sê-la para ser mãe (aos olhos dos outros). Jennifer encarna essa paixão, combinando sua atuação no início da carreira, mais centrada em gestos e olhares, com a de agora, e a efusividade e fisicalidade são peças-chave da composição dela e de Pattinson. A cena em que o ator tropeça depois de sair do carro para agarrá-la e trazê-la para dentro, no processo ainda afivelando o cinto de segurança, é o instante em que essa intensidade é mais pronunciada, contrastada com momentos de sofrimento calado.

Aliás, Morra, Amor alterna entre mania e introspecção nos personagens, bem como na forma: o rock ‘n roll em volume altíssimo cede espaço ao choro de Harry e ao latido do novo integrante da família. Já o sobressalto de momentos brutais é refratado com uma paz que jamais parece plenamente instaurada. Em um certo momento, Grace discute a respeito de sacrificar quem se ama e que está sofrendo. Será que pretende sacrificar-se — apagar quem é e ser a mãe que o mundo quer que seja? Embora creia que essa ideia tenha passado na cabeça da personagem quando encarou o vazio e notou a dificuldade de deixá-lo, a “tragédia” do filme é notar que Jackson não é tratado como um vilão. Ele não compreende o que Grace está passando, e embora realizando esforços genuínos de remediar a situação, tais ações são ineficazes. Ele é um dentre tantos homens que não percebem o privilégio que é poder entrar na caminhonete e viajar através das estradas e dos pensamentos, enquanto suas respectivas mulheres ficam para trás, arcando com o custo da prisão a céu aberto onde estão.

Apesar de Grace e Jackson estarem na página em que estão no relacionamento deles, a sensação é de que permanecerão juntos e de que alimentarão os mesmos horrores pelo qual passam. Estes estão na natureza inescapável do substantivo mãe, não per se porém quando vem a reboque do apagamento da mulher. Um debate poderoso, ainda que, em certo momento, pareça estender-se um tanto além do que deveria.

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