O Brasil disputa a Palma de Ouro
É muito difícil não me emocionar escrevendo a crítica de O Agente Secreto, o recente trabalho do já premiado no Festival de Cannes Kleber Mendonça Filho. O privilégio de assistir ao cinema brasileiro e nordestino ovacionado na principal tela de cinema do Festival, e por que não, da Europa, toca do mesmo jeito que uma Copa do Mundo, sobretudo considerando que este talvez seja o melhor trabalho do diretor e roteirista habituado a narrativas marcantes, de O Som ao Redor a Aquarius, de Bacurau a Retratos Fantasmas. Kleber tem um estilo e repertório de um cinéfilo apaixonado, aliado a uma consciência social e política que tornam o seu cinema sempre atual, mesmo tratando de uma obra de época.
O Agente Secreto volta cerca de meio século, para o carnaval de 1977, quando Marcelo (Wagner Moura) retorna ao Recife depois de uma estada na capital federal. Recebido na pensão de dona Sebastiana (Tânia Maria), que acolhe pessoas refugiadas por razões diferentes (sexualidade dissidente, imigrantes, comunistas etc.), Marcelo é alocado no serviço de identificação com o objetivo de encontrar a identidade da mãe falecida. Só não sabe que os matadores de aluguel Augusto (Roney Villela) e Bobbi (Gabriel Leone) vieram do Rio de Janeiro a mando de um empreiteiro vingativo, na mesma época em que Marcelo corre para providenciar o passaporte falso com que poderá deixar o país acompanhado do filho. Embora parta desse fio condutor, o roteiro irradia no mosaico humano que costuma ser o cinema de Kleber, de forma que as temáticas transversais dialoguem com o tema central da identidade e duplicidade, do apagamento e resgate da memória social e familiar em uma época cheia de pirraça.

Desde a cena inicial, ambientada em um posto de combustíveis recriado à perfeição por Thales Junqueira, uma parte dos temas narrativas são apresentados: o desdém e desumanidade do dono do posto diante do cadáver de um meliante que mereceu, bem como o comportamento de policiais que procuram a menor irregularidade no Fusca amarelo de Marcelo para o prender ou exigir a caixinha para fazerem vista grossa — em nada diferentes dos cachorros que farejam o cadáver para devorá-lo —, O Agente Secreto narra a história do Brasil de ontem que ainda é igual ao de hoje. A violência, mas especialmente a corrupção que lubrifica a engrenagem da relação imoral entre o público e privado, no qual as empresas dão um banho de indústria nos pesquisadores e furtam os projetos desenvolvidos nas universidades públicas para transformar o que deveria ser de todos em proveito próprio, está em contraste com a horizontalidade da pensão de Sebastiana, uma comuna, mantida com a contribuição de todos.
Um outro tema igualmente essencial paira no horizonte da Recife setentista, criada a partir da seleção de locações e de efeitos visuais, em que Kleber esforça-se em reviver a memória de um passado não distante. Um processo que envolve a direção de arte, os cenários e os objetos de decoração, tanto quanto a nostalgia de tempos idos, quando o cinema São Luiz exibia A Profecia e programava a reexibição de Tubarão após a notícia do tubarão encontrado com a perna de um banhista movimentar o imaginário popular. O passado retoma não só no trabalho de pesquisa, na reconstrução histórica, ou no afã de os policiais capturarem comunistas e atirá-los ao mar, existe ainda no vocabulário e estilo de vida da época, a exemplo da carona dada à vizinha ou do agendamento de um horário privilegiado para a patroa prestar depoimento sobre o “acidente” que causou a morte da filha da empregada.

Parecido essencialmente com Ainda Estou Aqui, O Agente Secreto também é um esforço em reviver a história inconveniente que alguns desejam esconder sob o tapete, ou em forma de anistia: o passado sombrio de um país cuja democracia é mais jovem do que este que vos escreve. Um resgate operado cinematográfica e estruturalmente, a partir de um dispositivo de recorte que torna literal a busca pela verdade. Até que a verdade possa emergir, quem quisesse permanecer vivo ou vivia à margem da sociedade, ou se escondia a olhos vistos com uma identidade falsa, e quando até um animal doméstico tem duas faces, a questão da identidade se torna crucial. Marcelo está disposto a abrir mão de quem é, para reatar a família partida, assim como os policiais (servos de dois senhores, do público e capital), os assassinos de aluguel, ou ainda os personagens dos filmes programados no cinema por Seu Alexandre (Carlos Francisco, em homenagem de Kleber ao programador que já havia apresentado em Retratos Fantasmas), tudo que há em O Agente Secreto envolve a identidade e a memória.
Até porque não é fácil ser chamado de outro nome, e ser quem não se é. Wagner Moura expressa o dilema de Marcelo, o desejo de permanecer, contra a necessidade de fugir, em uma interpretação que sabe bem o sistema político em que está, mantendo-se em uma discrição que tenta não chamar atenção, mesmo que seja impossível não o fazer. Ao ler a cata do filho afirmando-lhe com alegria que está conseguindo esquecer sua mãe, a expressão de Wagner é delicadamente devastadora. Pois ninguém deveria esquecer quem é, quem ama, seu país e os seus valores, e quando esse esquecimento é repetido em um tempo futuro, o impacto é ainda mais profundo pela ramificação implicada no trabalho de bicho que é revirar o passado e remontá-lo como quebra-cabeça, com base nas pistas que o passado deixou para trás.
Kleber, como um estranho àquela realidade, não na ótica recifense, é o reconstrutor de um passado, que nós mesmos não sabíamos que precisávamos reencontrar, nem como montar até vê-lo em tela.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.



