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Promis Le Ciel

Classificado como 3 de 5

Promis le ciel

2025

92 minutos

Classificado como 3 de 5

Diretor: Erige Sehiri

O filme de abertura da Mostra Um Certo Olhar 2025

A crise migratória não é exclusividade dos Estados Unidos nem dos países europeus. Promised Sky amplia a geografia da temática à Tunísia, enquanto mantém os mesmos dilemas e predicados que enfrentam os migrantes, que abandonam as suas raízes e as suas famílias para procurar oportunidades melhores de vida, ou para sobreviver caso busquem asilo. O país no norte africano recebe os imigrante de países subsaarianos – em especial da Costa de Marfim -, e fora a marginalização e segregação previsíveis em um cenário contemporâneo de xenofobia generalizada, a violência por aqueles sofrida não foge ao esperado: o taxista nega carona às imigrantes marfinenses Naney e Jolie, e nós percebemos no repúdio inscrito no semblante que este comportamento é comum.

Com direção e roteiro da tunisiana Erige Sehiri, Promised Sky enfatiza três mulheres: a protagonista Marie (Aïssa Maïga) ocidentalizou o nome originário, Aminata, escondeu a sua etnia sob uma peruca de cabelo liso, e tem pregado a religião evangélica, em um processo pós-colonialista, em que assimilou a cultura e tradições do colonizador para ser aceita dentro da ideologia ocidental. Naney (Deborah Christelle) ainda conserva a sua identidade, embora anseie pela oportunidade de abandonar o lar transitório rumo à Europa. Já Jolie (Laetitia Ky) é uma imigrante legalizada, com visto estudantil, para a qual a xenofobia é um fantasma de que acredita estar protegida.

Apesar de ser dramatizado e encenado de maneira convencional, obrigando cada uma das personagens a elaborar sobre sua identidade ou a precariedade da situação em que estão – é esperado o momento em que Marie reflita sobre quem é e sua origem usando um elemento de seu figurino para tal, e em que Naney deverá negociar o seu sonho e a criação de sua filha – Promised Sky tem uma beleza ingênua, apoiada nas boas atuações e no desenvolvimento deliberadamente paciente. Eu acho que isso vem de Erige Sehiri ser uma estranha dentro daquela realidade, embora interessada em conhecê-la. Ela não parece estar somente de passagem nem parece explorar aquela realidade, com o desejo de se locupletar artisticamente do sofrimento alheio. Sehiri participa e compreende as nuances da comunidade, a peça fundamental para a conservação do afeto e da esperança dos imigrantes. E perseverança, o nome da igreja à frente de que está Marie e que congrega aqueles exilados de suas terras, conclamando-os a permanecer unidos.

O senso de comunidade é melhor enxergado em Kenza, uma garotinha órfã utilizada como um elemento dramático em torno do qual a narrativa desenvolve a sua temática central: o acolhimento dos vulneráveis. O roteiro associa a figura da criança, inocente, à do imigrante, e mesmo que a analogia seja simplista, reforça a ideia de um rebanho – não à toa temos a figura de uma igreja no centro da ação. Sozinhos, tal como animais isolados na natureza, os personagens são as vítimas fáceis do ódio e da violência, mas juntos, tem a chance contra a ansiedade ou a insegurança que alija o desenvolvimento de cada personagem dentro de um país que não é seu, embora tentem transformá-lo para ser.

A violência está à espreita. O locador ameaça despejar Marie da propriedade onde tem habitado, após denúncias. A polícia ignora o visto estudantil apresentado por Jolie, e a constrange a assinar um documento escrito em árabe, e cujos termos não compreende. A violência é a truculência, é a imposição forçada do idioma nativo, é também a prisão – não só literal, mas o enquadramento de Jolie, em uma profundidade de campo rasa e que retrata com habilidade o seu abandono. Promised Sky dramatiza a trajetória dessas personagens – que representam milhares de outros -, revela os obstáculos diante delas em uma sociedade alimentada por ódio e as oportunidades de superação, mais na base da emoção, do que na sofisticação narrativa.

Promis Le Ciel está na Mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes de 2025.

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