O filme de abertura da Mostra Um Certo Olhar 2025
A crise migratória não é exclusividade dos Estados Unidos nem dos países europeus. Promised Sky amplia a geografia da temática à Tunísia, enquanto mantém os mesmos dilemas e predicados que enfrentam os migrantes, que abandonam as suas raízes e as suas famílias para procurar oportunidades melhores de vida, ou para sobreviver caso busquem asilo. O país no norte africano recebe os imigrante de países subsaarianos – em especial da Costa de Marfim -, e fora a marginalização e segregação previsíveis em um cenário contemporâneo de xenofobia generalizada, a violência por aqueles sofrida não foge ao esperado: o taxista nega carona às imigrantes marfinenses Naney e Jolie, e nós percebemos no repúdio inscrito no semblante que este comportamento é comum.
Com direção e roteiro da tunisiana Erige Sehiri, Promised Sky enfatiza três mulheres: a protagonista Marie (Aïssa Maïga) ocidentalizou o nome originário, Aminata, escondeu a sua etnia sob uma peruca de cabelo liso, e tem pregado a religião evangélica, em um processo pós-colonialista, em que assimilou a cultura e tradições do colonizador para ser aceita dentro da ideologia ocidental. Naney (Deborah Christelle) ainda conserva a sua identidade, embora anseie pela oportunidade de abandonar o lar transitório rumo à Europa. Já Jolie (Laetitia Ky) é uma imigrante legalizada, com visto estudantil, para a qual a xenofobia é um fantasma de que acredita estar protegida.

Apesar de ser dramatizado e encenado de maneira convencional, obrigando cada uma das personagens a elaborar sobre sua identidade ou a precariedade da situação em que estão – é esperado o momento em que Marie reflita sobre quem é e sua origem usando um elemento de seu figurino para tal, e em que Naney deverá negociar o seu sonho e a criação de sua filha – Promised Sky tem uma beleza ingênua, apoiada nas boas atuações e no desenvolvimento deliberadamente paciente. Eu acho que isso vem de Erige Sehiri ser uma estranha dentro daquela realidade, embora interessada em conhecê-la. Ela não parece estar somente de passagem nem parece explorar aquela realidade, com o desejo de se locupletar artisticamente do sofrimento alheio. Sehiri participa e compreende as nuances da comunidade, a peça fundamental para a conservação do afeto e da esperança dos imigrantes. E perseverança, o nome da igreja à frente de que está Marie e que congrega aqueles exilados de suas terras, conclamando-os a permanecer unidos.
O senso de comunidade é melhor enxergado em Kenza, uma garotinha órfã utilizada como um elemento dramático em torno do qual a narrativa desenvolve a sua temática central: o acolhimento dos vulneráveis. O roteiro associa a figura da criança, inocente, à do imigrante, e mesmo que a analogia seja simplista, reforça a ideia de um rebanho – não à toa temos a figura de uma igreja no centro da ação. Sozinhos, tal como animais isolados na natureza, os personagens são as vítimas fáceis do ódio e da violência, mas juntos, tem a chance contra a ansiedade ou a insegurança que alija o desenvolvimento de cada personagem dentro de um país que não é seu, embora tentem transformá-lo para ser.
A violência está à espreita. O locador ameaça despejar Marie da propriedade onde tem habitado, após denúncias. A polícia ignora o visto estudantil apresentado por Jolie, e a constrange a assinar um documento escrito em árabe, e cujos termos não compreende. A violência é a truculência, é a imposição forçada do idioma nativo, é também a prisão – não só literal, mas o enquadramento de Jolie, em uma profundidade de campo rasa e que retrata com habilidade o seu abandono. Promised Sky dramatiza a trajetória dessas personagens – que representam milhares de outros -, revela os obstáculos diante delas em uma sociedade alimentada por ódio e as oportunidades de superação, mais na base da emoção, do que na sofisticação narrativa.
Promis Le Ciel está na Mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes de 2025.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.
