Aumentando seu amor pelo cinema a cada crítica

Pillion

Classificado como 3.5 de 5

Pillion

2025

107 minutos

Classificado como 3.5 de 5

Diretor: Harry Lighton

Um romance homossexual dissidente

Com roteiro premiado na Mostra Um Certo Olhar, Pillion desmonta pré-julgamentos e padrões de relacionamento ao narrar o romance (sem aspas) entre o submisso Colin (Harry Melling) e o calado Ray (Alexander Skarsgård), o membro de um grupo gay de motoqueiros, que em certo momento são simbolizados por duas raças de cachorro: o primeiro, o dachshund; o segundo, o rottweiler. Não preciso dizer mais nada, certo?

Entretanto, a estreia de Harry Lighton na direção de longas-metragens é bem mais do que a óbvia simbologia acima: a obra inscreve a homossexualidade sem discriminação no tecido da família e sociedade. Os pais de Colin são abertos quanto à sexualidade do filho, mesmo que a mãe, com câncer em estágio terminal, ainda conserve uma tradição conservadora: Colin deve convidar Ray para os pais conhecerem com quem o seu filho está se envolvendo. Os motoqueiros são todos gays, adeptos à cultura do couro, e até mesmo parecem ter saído das filmagens de Magic Mike diretamente para a adaptação do livro de Adam Mars Jones. O interesse de Lighton não é com a homossexualidade, garantida e protegida, mas com o “contrato” de submissão que entrelaça Colin e Ray. Como é possível amar alguém que te trata como empregado doméstico, obriga você a dormir no chão, ou determina a sua maneira de vestir ou pentear-se? É onde habita a tensão da narrativa.

Engraçado que, repassando as minhas anotações, em duas ocasiões, eu anotei “tóxico”, e, em outra, “romance entre aspas”, e com o desenvolvimento da narrativa percebi que a minha ignorância, que alimenta o meu preconceito, estava enviesando o meu olhar, o qual era frequentemente desafiado pela receptividade de Colin à submissão. É a forma padrão de amar, desejar ou de se relacionar, em oposições a formas não convencionais, desviantes ou dissidentes, que ferve nas entranhas de Pillion – o termo empregado para quem anda na garupa da motocicleta. Não é a corrente com cadeado, que deve curvar a coluna de um, nem a proibição de tocar no piano de Ray que mais incomodam Colin, é a inveja de não poder beijá-lo na boca, ou a incapacidade de tirá-lo do sério. Repito: é possível amar alguém nesses termos? E a resposta só pode ser sim… consensualmente, claro.

Lighton não busca indícios ou traumas do passado para justificar os comportamentos dos seus personagens, ou compreendê-los dentro do viés da psicanálise. Assim como a homossexualidade não é problematizada, nem fonte de conflito e ansiedade, tampouco a relação desviante. De certo modo, Lighton elabora um romance de amadurecimento, no qual Colin aprende o limite que pode suportar, enquanto desafia Ray a transformar-se para satisfazer o parceiro. Às vezes, algum elemento escapa por entre os dedos e os personagens parecem menos completos do que poderiam ser; em outros momentos, a direção emprega imagens elementares, tais como as sombras de barras refletida sobre o corpo dos personagens em ocasiões diversas, mas com o mesmo significado. Mesmo assim, isso não atrapalha a capacidade disruptiva de Pillion.

Sim, estamos em 2025, e 50 Tons de Cinza já apresentou ao público – da pior forma que poderia fazer, é verdade – uma versão palatável para reacionário ver sobre BDSM, mas Lighton planta interrogações emocionais no espectador, enquanto ‘normaliza’ – nunca gosto desta palavra neste contexto – o relacionamento apresentado entre um agente de fiscalização de estacionamento e um motoqueiro. Um que multa a menor transgressão e um habitualmente relacionado à transgressão, ainda que apenas dentro de uma visão estereotipada e que não necessariamente adira à realidade. Melling e Skarsgård criam uma química estranhamente atraente, um casal que jamais imaginaria ser possível, se não os estivesse vendo com os meus olhos. Skarsgård interpreta com sua envergadura um homem de voz serena e de atitude à primeira vista indiferente, que revela, entre as ranhuras de sua personalidade, a construção de afeto dentro da possibilidade presente.

Já Melling atua como quem esperasse obter o menor sorriso de aprovação de Ray – não ironicamente, eu também comecei a ansiar por isso com o tempo, o que me parece um acerto da narrativa. Melling é doce, sem ser pegajoso; é submissão, despersonalizando-se no processo, mas sem abdicar de uma fagulha de autoamor dentro dele. É o coração de um filme envolvente e maduro no tema apresentado e na forma com que isto é feito e um prêmio merecido para Lighton.

Compartilhe

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Você também pode gostar de:

Rolar para cima