Aumentando seu amor pelo cinema a cada crítica

Renoir

Classificado como 3.5 de 5

ルノワール

2025

120 minutos

Classificado como 3.5 de 5

Diretor: Chie Hayakawa

O voyeurismo infantil

Se você for fã da obra de Hirokazu Kore-eda (de Monster ou da Palma de Ouro Assunto de Família), poderá reconhecer a influência de seu trabalho na obra melancolicamente sensível da diretora Chie Hayakawa, Renoir. Um melodrama de época narrado a partir do ponto de vista de Fuki, uma garota com 11 ano que tenta lidar com o fato que o seu pai está internado, enfrentando um câncer terminal, e a sua mãe está trabalhando para manter íntegra a sua família, enquanto aproveita um relacionamento extraconjugal. À Fuki, resta somente o refúgio na amizade com uma colega de escola, interrompida pela chegada das férias, ou sua imaginação, alimentada por programas de televisão ou por contatos telefônicos com estranhos. Renoir é sufocante, apesar de não parecer ser, pois observado a partir do ponto de vista inocente de Fuki.

Desde o momento inicial, quando a imagem de bebês chorando é acompanhada de um áudio silenciado, Hayakawa tenta penetrar na imaginação de Fuki para compreender a maneira como enxerga o mundo. É um método narrativo e ainda formal, com a câmera permanentemente à altura do olhar de Fuki e o desejo de refletir sobre a inspiração do conto que escreveu sobre a criança a sós em casa, onde é estrangulada e assassinada. E não é querendo ser moralista, mas uma criança não deveria fabular sobre crimes dessa maneira. A justificativa é a ausência dos pais, constatada mas não criticada no roteiro, terceirizando a criação e educação de Fuki a programas de variedades, em que escuta sobre telepatia, ou a noticiários, tratando de crianças subnutridas ou assassinatos em série.

Temporária e momentaneamente, Fuki convive com a mãe, nos dias de folga, ou o pai, quando este a leva para passear, ou a amiguinha de colégio, mas no restante do tempo, amarga uma incomunicabilidade absoluta com um refúgio possível só na imaginação. É um aspecto explorado inteligentemente por Hayakawa, proporcionando-nos dúvida razoável em determinados momentos se o que estamos assistindo é real ou imaginado. Ainda mais hábil é a alteração da forma organizada com que concebe sua decupagem – os planos estáticos ou estabilizados são a regra -, em favor da instabilidade que apenas nós percebemos mas sem que possamos alertar a Fuki. Durante as ligações telefônicas que realiza com um adulto estranho, a câmera na mão registra de forma inconfundível o desconforto, papel também acentuado pela edição de som – por exemplo, o som dela sentada no sofá de couro.

Yui Suzuki, que interpreta Fuki, caminha sobre a fronteira da perda da inocência, sem abrir mão ainda inteiramente do olhar curioso e imaginativo a sentimentos adultos ou acontecimentos traumáticos. A melancolia permeia a obra, mas não é sobressaltada, já que o olhar infantil de Yui ainda não é capaz de processar, da mesma maneira que nós, a simbologia do vestido preto pendurado no armário, embora nós saibamos. É da crise entre o olhar adulto da diretora e do espectador e do olhar infantil da protagonista que derivam os melhores momentos, como aquele em que Fuki decide, finalmente, utilizar o presente que recebeu da amiga do colégio: uma tiara de princesa. É um momento até poeticamente contraditório, em que a ingenuidade é contrastada com a maturidade do espectador. É ainda a confirmação que o dom da adivinhação que Fuki sonha dominar é a ironia sobre a qual está a dramaticidade da obra.

Fuki é voyeur, não conforme a lógica hitchcockiana, mas da criança que observa, pois deseja participar do mundo adulto do qual está excluída. Ela observa por entra frestas e cômodos, e até percebe o romance da mãe, ainda que não saiba a razão que a levou à traição. Fuki não busca o amadurecimento precoce, ela só anseia conexão humana que falta quando o Japão deixa o pós-guerra para se transformar em potência econômica e capitalista. A beleza de Renoir está na costura intrincada de eventos que influem direta e indiretamente na personalidade de Fuki, apesar de a resposta, se é que posso colocar assim, existir na simplicidade da comunicação. Aquela entre pais e filhos, mediada ou não por romantismo (ex. o pai virar estrela em vez de apenas ter morrido), entre aluno e professor (ex. a aula de inglês, sugestiva do Japão curvado aos Estados Unidos), entre a televisão e o espectador, e, óbvio, entre a arte e o apreciador.

Renoir trata não somente da importância de se comunicar, mas de se comunicar clara e inequivocamente, e reconhecer com quem, no fim, estamos nos comunicando.

Renoir está na Seleção Oficial do Festival de Cannes de 2025.

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