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Romería

Classificado como 3.5 de 5

Romería

2025

114 minutos

Classificado como 3.5 de 5

Diretor: Carla Simón

Uma busca naturalista pela identidade nas memórias dos pais

Conheci a obra da diretora e roteirista Catalã Carla Simón em Verão 1993 (2017) e tive a oportunidade de assistir a Alcarràs (2022), o vencedor do Urso de Ouro do Festival de Berlim, em uma sessão de gala realizada no Berlinale Palast durante a minha primeira cobertura de um festival de cinema internacional. Foi uma paixão imediata pelo estilo naturalista com que Simón dirige os atores e encena a ação, deixando-a transcorrer de uma forma até espontânea, como se estivéssemos assistindo à vida real desenrolada no interior de uma obra de ficção. Este Romería, seu terceiro longa-metragem, mantém-se fiel ao estilo da catalã, enquanto lhe dá a chance de explorar outras formas narrativas.

O roteiro acompanha a trajetória de Marina (Llúcia Garcia) que, depois de atingir sua maioridade, viaja à costa espanhola com o objetivo duplo, mas convergente: descobrir a sua identidade a partir da investigação da história de seus pais, que faleceram muito jovens, deixando-a órfã. Para tanto, atravessa os dias ensolarados junto aos tios e avós biológicos, estes últimos, indispensáveis para assinar um documento de bolsa escolar. É onde surge o conflito, uma vez que a certidão de Marina não identifica seu pai, nem os avós demonstram o interesse de desencavar os traumas do passado. Dentro de uma perspectiva naturalista, o conflito apresenta-se ora como memórias fragmentadas, até mesmo contraditórias, que não permitem à protagonista a compreensão inequívoca a respeito dos pais, ora como negação da própria identidade, ante à resistência dos avós e receptividade passivo agressiva.

Simón navega com habilidade por um mar aparentemente calmo e sem a presença das ondas que ameacem a estabilidade, apesar da neblina obstaculizar o olhar. Um barco à vela, que é o símbolo da fuga dos pais, também representa o objeto olhado por Marina, que deseja cursar a faculdade de cinema. O vídeo amador mente sobre o passado, que a protagonista esforça-se em reconstruir com os depoimentos e indícios proporcionados pelos familiares, em um formato a lá Rashomon, pois cada qual tem uma perspectiva de como o passado aconteceu, ou tem informações que outros não têm. Assim, Romería é um mistério em um drama familiar, através da qual a protagonista especula quem teria sido caso o evento catártico que definiu a sua história tivesse um desfecho diferente. E se eu tivesse sido criada pela minha família biológica, convivendo com tios ou primos, ou recebendo mesada de meu avó após a reunião de família, reflete Marina. Quem teve um evento definidor igual à morte dos pais e a dação à adoção, deve compreender bem o que sente Marina. Eu perdi meu pai aos 5 anos, e até hoje reflito que homem eu teria sido se tivéssemos convivido por mais bons anos. Será que estaria escrevendo a crítica de Romería?

A beleza da obra de Simón está nos detalhes descobertos no processo de encenação: a hesitação, ou os olhares e gestos. Um deles me vem à cabeça, a imagem de uma garota brincando com o brinco da mãe durante uma encenação. É um momento discreto, até irrelevante dentro de uma ótica narrativa, mas que constrói uma realidade concreta, a partir de um ato espontâneo. O naturalismo é acentuado pela vocação de Marina, uma personagem que observa e escuta mais do que age, uma diretora que dialoga consigo e com o meio onde está mediada pela câmera amadora que trouxe consigo ou pelo olhar que escrutina. E por ser estranha àquela realidade, a andança por entre as raízes físicas – os locais por onde os pais passaram -, ou humanas – a família – ajuda-a na descoberta de sua identidade por um processo de descarte, de quem não é e de onde não pertence.

Só que a sensibilidade naturalista é temporariamente negociada após Marina deixar a festa com os primos, e decidir tomar a direção do barco e remar em direção à memoria que guardou consigo: a do prédio isolado na paisagem da cidade litorânea. Eu entendo a associação entre a memória factual, ou que acreditamos sê-la, quando descobrimos o motivo que levou os pais ao exílio familiar, e a memória fantasiada a partir do conteúdo do diário deixado pela mãe. As duas são fundamentais no processo de formação do eu; mas eu me sinto trapaceado com essa dupla narrativa: a de Marina no tempo presente narrativo, em 2004, e a da mãe, no diário, no passado em 1983, que confunde a imagem da filha com a da mãe, e explica muito sobre os acontecimentos pretéritos, até mesmo conferindo uma redundância ao que havíamos visto. Este flashback desestrutura a base do naturalismo de Simón, renegociando o seu estilo formal com uma droga recreativa.

Romería inscreve-se na vertente contemporânea do cinema que exsuda memórias, que combate o apagamento da história individual, familiar ou social. Em Ainda Estou Aqui, Eunice derrotava o sistema com uma folha de papel, a certidão de óbito do marido; em Romería, Marina busca, também em uma folha de papel, qual o papel dela no mundo, e só quando encontrar o passado que a satisfaça, pode começar as histórias que traz em si. Ainda que irregular, é mais um belo trabalho de Simón.

Romería está na Seleção Oficial do Festival de Cannes de 2025.

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