A ficção sobre histórias e sentimentos reais
Todo cinema se alimenta do artista, física, espiritual, emocional ou psicologicamente. Como alimento, nutre-o em retorno. O artista está na arte, e esta nele, em proporções das mais variadas: a preocupação temática, a assinatura estilística e até a vida pessoal. The Wonderers integra um conjunto de dramas que modelam, através da linguagem da ficção, uma vivência do artista, neste caso, da diretora e corroterista Joséphine Japy, e também a irmã de uma pessoa com a síndrome de Phelan-McDermid. É a premissa de um filme que explora uma família ficcional, mas com sentimentos reais, os Roussier: a mãe sobrecarregada, Madeleine (Mélanie Laurent), o pai ausente, Gilles (Pierre-Yves Cardinal), e as filhas, Marion (Angelina Woreth) e Bertille (Sarah Pachoud), já ilustrada a partir de um plano sensorial, enfatizando os olhos, a boca, ou a pele, e me remetendo a um divórcio formal do plano da realidade onde habitam os demais.
Em razão de seu estado de saúde, Bertille está isolada de uma vida tradicional, mesmo diante dos esforços possíveis da mãe e irmã para mitigar isso. A família isola-se junto; é até irônico que Marion estude sobre o isolacionismo dos países, dada a sua situação, atravessando a adolescência, e as suas etapas e experiências, de uma forma distinta da de seus amigos. Enquanto as mulheres da família orientam às suas vidas, em maior ou menor grau, em função de Bertille, o pai tem o ‘direito’ de ir e vir daquele mundo. Um aspecto que a direção de Japy não abona, nem condena, pois mesmo que a direção não se furte de sublinhar o ‘privilégio’ do homem no meio social e familiar, a narrativa não é sobre isto. Gilles não é mau, somente está em uma posição em que pode se afastar, e, assim, terceirizar às mulheres a tarefa historicamente atribuída de serem cuidadoras.

Eu até admiro a postura do pai no momento em que aconselha a filha a ‘priorizar-se’, mesmo que possa implicar em uma sobrecarga ainda maior sobre Madeleine. Porém, seu raciocínio está correto, e ouvi-lo falar isso é como se Japy dissesse para si mesma (uma vez que Marion é a sua substituta cinematográfica). É um ponto significativo ao debate e à reflexão, o momento em que o cuidado transforma-se em autossacrifício. E veja que estamos dentro de um contexto de uma família de classe média/alta, que tem os recursos financeiros suficientes para arcar com os gastos e investigações genéticas, obrigando-me a refletir a realidade de outras famílias que não compartilham a mesma condição. Não quero impor a Japy uma história que não seja a que tenha dentro de si, ainda que a narrativa tenha me convidado a esta reflexão.
Entretanto, a narrativa apresenta contradições irreconciliáveis: enquanto admiro que Bertille não seja instrumentalizada a serviço do clichê da pessoa com deficiência, que termina por unir a família, apenas existindo dentro daquele contexto com as dores, os dissabores ou as alegrias por ser quem é, a personagem é enfim instrumentalizada em um conflito artificial e que funciona só para proporcionar um desfecho na narrativa. E é frustrante porque o centro emocional estava bem delineado no relacionamento entre Marion e Bertille, em um gesto discreto de uma encostar a cabeça no ombro da irmã, a fim de revelar que, em que pese a maneira diferente de se relacionar com o mundo, ela sente e percebe o que importa.
Fora isso, há elementos que pintam a experiência adolescente, e podem até mesmo ser autobiográficos, de um jeito superficial: o relacionamento de Marion com um homem mais velho, com uma conclusão de que está procurando a figura paterna mais ausente em um romance que não a levará a lugar nenhum. Isso vale para os elementos formais e simbólicos, a exemplo da utilização de um limpador de para-brisa como o substituto imediato de lágrimas de Madeleine. Essa simplicidade, que não é uma mera singeleza, entra em contraste com uma notícia recebida de forma agridoce, a respeito da doença de Bertille. É uma emoção conflituosa: a alegria por um familiar amado ou o ‘fardo’ de persistir na missão de afeto, cuidado e, às vezes, sacrifício.
The Wonderers (Qui Brille Au Combat) está em exibição no Festival de Cannes de 2025.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.



