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EROS

Classificado como 3.5 de 5

EROS

2025

Classificado como 3.5 de 5

Diretor: Rachel Daisy Ellis

Nos EUA, o motel está legado ao acolhimento de viajantes. Não à toa, o nome desses estabelecimentos é uma junção dos termos “motor” e “hotel”.  São refúgios em meio a vastidão das estradas americanas, utilizados em especial por caminhoneiros. No cinema, esses ambientes já ocuparam o inconsciente coletivo ao servirem de cenário para filmes de terror, como o famoso “Bates Motel”, de Psicose. O cinema independente devolveu seu status de refúgio, apesar de decadente, através do longa de Sean Baker, Projeto Flórida. O “Magic Castle Inn and Suites” improvisou um lar para famílias vulnerabilizadas como as de Moonee e Haley, sob a gerência paternalista do personagem de Willem Dafoe.

Na região onde moro aqui no Rio de Janeiro, existe um motel localizado ao lado de um hospital. E ele já serviu de abrigo para os visitantes dos pacientes hospitalizados. Inclusive, foi o caso dos familiares de uma ex-namorada que vinha de outra cidade acompanhar a cirurgia do patriarca da família. Eu mesmo já cheguei a reservar um quarto em um motel em São Caetano do Sul apenas para trocar de roupa para um casamento em que eu seria padrinho. Mas aqui no Brasil, o empreendimento é quase exclusivamente utilizado como destino sexual. Alguns são luxuosos, outros mais modestos. Alguns são até mesmo temáticos, visando explorar fetiches e fantasias proporcionando uma fuga da rotina. O que todos eles têm em comum é servirem de espaço seguro para exploração do desejo.

Em EROS, a diretora inglesa radicada no Brasil Rachel Daisy Ellis propõe explorar esse espaço para além do seu retrato estereotipado nas produções audiovisuais convencionais. Ellis reconhece que os motéis são a maior instituição de sexo no país. Eles ainda carregam sobre si um enorme tabu, apesar de a passagem por eles ser um evento presente na jornada da maioria dos brasileiros. Quer você tenha ou não um olhar conservador e crítico sobre eles, é impossível não reconhecer sua ocupação nas paisagens urbanas com seus letreiros luminosos e fachadas chamativas. Os motéis estão disponíveis em estradas ou no interior dos grandes centros, mas definitivamente se fazem presente no imaginário dos brasileiros.

A chegada ao motel Eros é o ponto de partida para essa jornada em busca do entendimento das pessoas sobre o prazer que permitem explorar dentro desses espaços. A primeira pessoa a se colocar diante da câmera é a própria diretora. Ela narra a sua curiosidade a respeito do tema enquanto nos revela que a ideia partiu de um encontro frustrado pela ausência de seu date. A experiência despertou a curiosidade para investigar a relação das pessoas com esses lugares. E ela não seria a única figura a encarar a solidão dentro de uma suíte.

Ellis sendo parte de seu próprio estudo. (imagem: divulgação)

EROS é um filme-coral, construído com os registros de alguns dos entrevistados pela diretora que permitiram se revelar e as suas intimidades. Ao contrário dos documentários convencionais, em EROS, as pessoas são responsáveis pelo registro das imagens e pelo conteúdo que estará presente nessas gravações. Além da chegada aos motéis, nos é compartilhado o ato sexual, suas conversas íntimas e depoimentos. Ellis fez uma curadoria de seus participantes, que são distintos entre si e trazem questionamentos inquietantes. Um casal com idade mais avançada, por exemplo, contesta o porquê de o sexo, para o senso comum, descaber aos corpos mais maduros. A fagulha dessa conversa antecede o sexo entre eles, mas se desenvolve em uma banheira de hidromassagem.

Como falei, diferentes pessoas permitiram ser incorporadas ao projeto. Graças a isso, o filme nos presenteia com um casal gay, um casal hetero com uma mulher trans, um casal exibicionista, um evangélico, um praticante de BDSM, um trisal, um homem acompanhado de uma profissional do sexo e, por fim, um indivíduo que segue solitário durante sua estadia. E com isso, alguns registros se revelam mais interessantes que outros. Em especial, devido ao depoimento que trazem questionamentos e vivências pessoais dentro e fora desses espaços.

No casal gay, apenas um dos rapazes é entusiasmado com o ambiente. Ele faz um tour pela suíte revelando sua fascinação pela hidromassagem em uma câmara revestida de pedras, que o faz lembrar uma cachoeira. O rapaz também aponta para a televisão e diz que permanecerá desligada já que os motéis insistem em oferecer apenas filmes héteronormativos em seu catálogo. Ainda na cama, seu parceiro comenta como o motel é um refúgio para aqueles que a clandestinidade não permite com que as relações sexuais sejam acolhidas dentro de casa. Ele acrescenta que, dentro da comunidade, existem pessoas que não tiveram acesso ao sexo horizontalizado. Elas não possuem liberdade para conduzir seus parceiros às suas casas e não possuem dinheiro para reservar uma suíte de motel. Com isso, suas relações são limitadas a becos, saunas e banheiros, de maneira improvisada e sempre de pé.

O que mais chamou atenção foi a presença solo de um rapaz que se despe diante da câmera e faz seu monólogo justificando sua solitude. Confesso que, a princípio, vê-lo solitário em um quarto de motel me provocou um misto de estranheza e compaixão. O desenvolvimento a respeito de suas carências e autoaceitação é um período que se prolonga e acaba se tornando o mais redundante e cansativo dentro do documentário. Seu bloco supera até mesmo o bloco anterior em que um participante contrata uma garota de programa para contar suas experiências, como em uma espécie de terapia ou confessionário.

Solitude também é permitida entre as quatro paredes de uma suíte (imagem: divulgação)

De certa maneira, a interação dos participantes com a câmera possui esse caráter confessional – para além da encenação do confessionário performado pelo trisal. Diante da câmera, os participantes procuram justificar suas presenças naquele ambiente que ainda carrega sua dose de tabu. Por outro lado, ele traz uma dinâmica curiosa, em especial pelo fascínio em se filmar diante do espelho. Filmar o espelho é emular o olhar do outro sobre si, e se transportar para esse lugar voyeurístico de expectador – uma ação que, consciente ou inconscientemente, sugere uma preocupação em como se é visto. Se a atitude é impulsionada mais pela inquietação do tabu do que pelo fetiche da observação, talvez nem os participantes seriam capazes de dizer – ou assumir.

É no quesito autenticidade que EROS perde um pouco de sua sedução. Não por não ser original e corajoso na maneira de tratar de um tema tabu. Mas, quando entrega a câmera para os participantes, ele respeita a privacidade e permite a pluralidade, assim como abre espaço para a interpretação de papeis diante da consciência de estarem sendo filmados. Com a câmera na mão, os participantes se tornaram autores, diretores e atores do processo. E, com esse poder, emulam personas ao invés de escancarar suas verdadeiras essências. Desa maneira, nunca saberemos se suas intimidades foram verdadeiramente acessadas, mesmo que a nudez e o ato sexual tenha sido registrado e existam fetiches envolvendo papéis. Afinal, somos todos atores e vivemos diversas versões de nós mesmos ao longo do dia. Seriamos menos performers se tivéssemos o controle dos olhares sobre nós?

EROS estreia nos cinemas no dia 12 de junho de 2025 – Dia dos Namorados.

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