Falar sobre vínculos em nossas relações se tornou inevitável depois da experiência da pandemia. O isolamento social produziu um contraste profundo em nossa maneira de conviver. Para alguns, a ausência de trocas físicas e constantes trouxe depressão, abalou o convívio social e transformou o simples ato da aproximação em gatilho de ansiedade e pânico. Para outros, o extremo da convivência — muitas vezes em espaços reduzidos, sufocantes, e sob o peso simbólico da presença da morte — tornou-se claustrofóbico, multiplicando tensões familiares e levando a crises e divórcios.
Enquanto alguns buscavam conexões para superar a solidão, outros se sentiram saturados pelas presenças que se tornaram excessivas. Eu mesmo encontrei refúgio junto a outros cinéfilos no Clube do Crítico, cineclube virtual idealizado por Márcio Sallem, como uma forma de desopilar as ansiedades, o medo da morte e as tensões domésticas. Essa experiência pessoal acabou se conectando diretamente com minha recepção de Quemadura China, filme uruguaio que parte de uma premissa tão bizarra quanto fascinante: dois irmãos siameses decidem se separar por meio de uma cirurgia conduzida por um terceiro irmão, que por sua vez deseja se costurar a uma das partes separadas.
Histórias assim, que beiram o grotesco, me provocam curiosidade e estranhamento em igual medida. Quemadura China deriva de uma peça de teatro e, em sua versão cinematográfica, preserva esse caráter experimental ao se assumir como obra híbrida, alternando ficção e documentário. A princípio, o espectador se sente confuso diante do jogo entre encenação e bastidores, mas aos poucos o filme revela uma genialidade discreta: a metalinguagem cria diferentes camadas de sentido e torna mais palatável a discussão de temas incômodos e tabus.
O primeiro impacto surge da constatação de que os gêmeos siameses não são jovens, mas já maduros, por volta dos cinquenta anos, e de sexos distintos. Dani, vivido por Néstor Guzzini, e Annie, interpretada pela própria diretora Verónica Perrota, carregam uma relação marcada tanto por sufocamentos quanto por carências. As cicatrizes que aparecem já na cena de abertura funcionam como metáfora visual dessa ligação dolorosa. Em uma das imagens mais simbólicas, Dani surge com uma boia amarrada ao dorso, evidência do sufocamento de quem vê a irmã como âncora que o puxa para o fundo da piscina. O espaço cênico, lembrado a todo instante como ameaçado de desabamento, reflete o estado emocional frágil de Annie, que se abala a cada explosão de Dani.

Esse embaralhamento entre realidade e encenação torna a experiência ainda mais instigante. Como observou Cléber Eduardo, coordenador curatorial do festival, assistir ao filme na tela grande permite captar essas sutilezas com maior intensidade. E há algo de prazeroso em não saber ao certo o que pertence aos bastidores e o que é artifício dramatúrgico, como se o filme propositalmente guardasse esse segredo para a imaginação do espectador.
Curiosamente, a interação amistosa entre os atores contrasta fortemente com as relações de seus personagens. Entre registro documental e ficção encenada, o humor aparece como válvula de escape. O absurdo das situações, sobretudo nos embates entre Dani e Willy (César Troncoso), gera momentos de comicidade improvável. São homens já envelhecidos que se comportam como crianças brigando para vencer uma competição, e esse infantilismo, em vez de desqualificar, amplia a estranheza cômica. Bem lembrado pela crítica Cecília Barroso (Cenas de Cinema), de certa forma, esse recurso aproxima o filme uruguaio da chamada “Estranha Onda Grega”, movimento popularizado por Yorgos Lanthimos e Alexandros Avranas, em que temas existenciais são tratados por meio do absurdo e do desconforto.
No entanto, Quemadura China não se limita ao grotesco ou ao humor negro. Existe uma ternura quase ingênua em seus três irmãos, ternura essa que suaviza o incômodo de ver sugerida uma relação incestuosa entre siameses. O espectador se pergunta: como se relacionar sexual, social e afetivamente quando se está fisicamente vinculado a outro? O filme não dá respostas fáceis, mas, ao nos lembrar constantemente do caráter performático daquela encenação, consegue diluir o mal-estar e abrir espaço para reflexão. Até mesmo Willie, com seus chiliques e esperneios para ser reconhecido, soa carismático apesar de infantilóide.
Ao final, o que poderia ser apenas um exercício de estranhamento se revela como uma meditação nada ortodoxa sobre carência e dependência afetiva. Mais que costuradas, as relações retratadas em Quemadura China se emaranham, entrelaçando pertencimento, espelhamento e sufocamento. O filme se apresenta como um estudo sobre vínculos — familiares, afetivos e simbióticos — que ecoa a experiência recente da pandemia, quando todos nós, de algum modo, sentimos na pele o peso de estar juntos demais ou separados demais. É nesse ponto que a obra deixa de ser mero experimento híbrido e se torna uma reflexão universal sobre os paradoxos da convivência humana.
Quemadura China compôs a Mostra Território e recebeu o prêmio de Melhor Filme pelo juri oficial do 19º CineBH, o Festival Internacional de Cinema de Belo Horizonte.
JORNALISTA, PUBLICITÁRIO E CRÍTICO DE CINEMA. Cresceu no ambiente da videolocadora de bairro, onde teve seu primeiro emprego. Ávido colecionador de mídia física, reune mais de 3 mil títulos na sua coleção. Já participou de produções audiovisuais independentes, na captura de som e na produção de trilha musical. Hoje, escreve críticas de filmes pro site do Cinema com Crítica e é responsável pela editoração das apostilas do Clube do Crítico. Em 2025, criou seu perfil, Cria de Locadora, para comentar cinema em diversos formatos.


