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3 Obás de Xangô

Classificado como 4.5 de 5

3 Obás de Xangô

2022

75 minutos

Classificado como 4.5 de 5

Diretor: Sérgio Machado

Dos três obás, dois já me eram velhos conhecidos. Jorge Amado me pegou ainda menino, com Capitães da Areia lido na escola e o resto da obra conhecido pelas telas — sei que não tê-lo lido como se deve é quase uma falha de caráter. Dorival Caymmi embalou minha infância nos LPs da família e voltou com força quando redescobri a MPB com ouvidos mais atentos. Só Carybé me foi novo: apresentado nesta travessia de Ouro Preto a Salvador. Mas, pelos gestos, traços e afetos trocados entre os três, hoje também me sinto íntimo dele.

O filme de Sérgio Machado é uma narrativa tão intimista que tem esse poder: o de nos fazer sentir parte daquele ciclo. Não apenas das três figuras centrais, mas de todas as outras que as orbitam. É uma sensação de acolhimento. Nos registros, suas casas pareciam sempre de portas abertas, esperando uma boa prosa ou versos cantados, acompanhados das notas de um violão. Se eu pudesse escolher como passar minha melhor idade, penso que gostaria que fosse como a desses três senhores: vivendo do fruto da própria arte, com os melhores amigos por perto — sempre um podendo tirar sarro da cara do outro, ou cantar letras obscenas. O riso aumenta a expectativa de vida. E a amizade é o sal da vida — um sal que pode ser consumido à vontade, porque não aumenta a pressão. Pelo contrário, a alivia. No mais, Jorge Amado faz jus ao seu sobrenome quando compartilha da companhia de sua amada Zélia. É delicioso o momento em que ele insiste para que ela cante diante da câmera — e ela não o devolve a palavra. Nem ele consegue interrompê-la.

Mas, como o próprio título sugere, este também é um registro sobre o candomblé. Os três obás são protetores do terreiro de Mãe Senhora e, por isso, o filme funciona também como uma biografia da religião de matriz africana nos arredores da Baía de São Salvador. Fala-se do tempo em que essa fé era censurada e praticada na clandestinidade, tal qual a capoeira — manifestações culturais que nasceram nas senzalas e resistiram, apesar de toda a opressão. Para ilustrar esses momentos, o diretor nos presenteia com imagens de arquivo da Salvador de outrora e trechos do cinema brasileiro, especialmente das produções de Nelson Pereira dos Santos.

O escritor ao lado da esposa no terreiro (imagem: divulgação)

Focalizar a narrativa nesses três artistas é fazer um ensaio sobre a cultura da Bahia. Pelas artes plásticas, pela música e pela literatura, os três obás traduziram o espírito popular baiano — incorporando, inclusive, a estética do candomblé: a beleza étnica que destaca a pretitude dos corpos para que possam receber os orixás. O candomblé, afinal, realiza o feito de reunir todas as suas divindades numa mesma roda — um kalunga festeiro. E ainda que a narrativa se debruce sobre Carybé, Dorival e Jorge, ela não apaga as outras figuras que os cercam. Como falei no início, esta obra é um espaço de acolhimento — assim como era a casa de Jorge e Zélia. O escritor se orgulhava de que sua escrita acolhesse putas e vagabundos, todas as esferas populares. E é nessa popularidade que o filme se envereda e nos abraça. Não os coloca como figuras inalcançáveis, embora sejam inestimáveis para a cultura brasileira. Mas os mostra como gente comum.

Nada mais justo que evocar, portanto, o dito com que o filme se inicia: “Liturgia é o poder do povo em sinergia. Política é o poder do povo em consenso.” Talvez a maior força de 3 Obás de Xangô seja justamente essa: fazer da arte uma roda, da memória um terreiro, e da cultura um ponto de encontro onde o povo é, finalmente, o centro.

3 Obás de Xangô foi assistido durante o 20º CineOP, a Mostra de Cinema de Ouro Preto

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