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ENTREVISTA | Marisa Orth no 20º CineOP

“O humor é uma arma crítica absurda” – Marisa Orth

Marisa foi a homenageada do 20º CineOP – A Mostra de Cinema de Ouro Preto (Imagem: Leo Lara/Universo Produção)

Na 20ª edição da CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto –, a atriz Marisa Orth foi a grande homenageada da noite de abertura. Ícone da comédia brasileira, ela participou de um bate-papo com o público e a imprensa, em que falou sobre a presença feminina no cinema, os estereótipos de gênero e o poder do humor como ferramenta crítica e social.

Confira aqui a matéria sobre a homenagem à atriz

E sim, Marisa é ainda mais engraçada pessoalmente. Espontânea, afiada e generosa, ela ri de si mesma, faz piada da estrutura e, entre uma gargalhada e outra, entrega reflexões agudas sobre o papel da mulher na arte e na sociedade. Confira os principais trechos da conversa da atriz com o Cinema com Crítica:

Alvaro Goulart: Você está sendo homenageada aqui no CineOP em uma edição que celebra a produção das mulheres no cinema. Queria que você comentasse sobre a presença feminina na indústria audiovisual, não apenas em relação aos corpos, mas também às mentes criativas. Você, que é um ícone da comédia brasileira, como enxerga isso, especialmente pensando em figuras como Marilyn Monroe, que era uma comediante brilhante e muitas vezes subestimada, apesar de reconhecida por um mestre como Billy Wilder?

Marisa Orth: Por onde eu começo? Me perdi um pouco… (risos). Olha, eu acho que a mulher brasileira é muito forte. Sei que pode soar clichê — talvez na Sérvia digam o mesmo sobre as mulheres de lá —, mas acredito mesmo nisso. A mulher brasileira é fundamental na formação da nossa sociedade e, portanto, também na cultura.

Excluí-la de qualquer setor é uma perda enorme: de energia, de dinheiro, de amor, de criatividade. As mulheres hoje produzem, dirigem, atuam, contam suas histórias cada vez mais. E sabe o que é melhor? Os homens gostam! Olha que incrível. A gente está conseguindo ocupar espaço — e eles estão vindo junto. Isso é muito bacana.

Alvaro Goulart: E como você vê a questão dos estereótipos ainda associados à mulher no humor? Existe essa ideia de que a mulher bonita não pode ser engraçada…

Marisa Orth: Sim, ainda existe. Quando a Magda apareceu, por exemplo, na televisão, havia essa ideia de que um corpo bonito não poderia estar associado a uma mente criativa. Como se fossem coisas excludentes — e não são! É duro, mas tem gente que é linda e hilária ao mesmo tempo, fazer o quê? (risos)

Na televisão, que é mais careta que o cinema, isso era muito nítido. Tinha um lugar onde a mulher bonitona nem som emitia. E, se fosse comédia, a mulher bonita não podia ser engraçada. A mulher engraçada tinha que ser feia. Mesmo se a atriz fosse bonita, na caracterização davam um jeito de piorar: colocavam mais roupa, dentes pretos, maquiagem esquisita… enfeiavam mesmo. Era pra não atrapalhar o riso. Como se a beleza anulasse o humor. E a única saída da mulher feia era ser engraçada. Isso é muito cruel.

Uma vez eu vi uma coisa americana que dizia que mulheres engraçadas são feias, judias e… sei lá. É uma ideia que está enraizada. Mas pra mim, o humor é prova de inteligência. E o homem — que costuma controlar a sociedade — não gosta muito de mulher inteligente, né? Então, o que a gente faz? Finge ser burra, pra vocês gostarem da gente. É isso.

Alvaro Goulart: A comédia, inclusive, foi responsável por trazer o público de volta ao cinema após a pandemia. Minha Mãe é uma Peça 3, do Paulo Gustavo, foi a maior bilheteria nacional do período. Como você enxerga o reconhecimento da comédia como gênero no cinema brasileiro?

Marisa Orth: Excelente pergunta. Aliás, você acha que Minha Mãe é uma Peça tem humor feminino ou masculino?

Alvaro Goulart: Acredito que ali o humor transcende gênero.

Marisa Orth: Pois é! É um homem interpretando uma mulher, contando a história de uma mulher. E é muito verdadeiro. O humor, pra mim, é essencial no Brasil. Ele é a nossa cara. A gente gosta de rir, sabe fazer rir, e temos uma velocidade impressionante na criação de piadas — até nas tragédias. Isso é típico nosso.

O humor é uma forma de lidar com as dificuldades do dia a dia. Temos que valorizar isso. E, antes de tudo, precisamos ter orgulho do Brasil: do nosso cinema, da nossa produção cultural. Aqui tem ator bom, diretor bom, produtor bom, cenógrafo, iluminador, figurinista, cabeleireiro… tudo com poucos recursos e resultados incríveis. Temos que nos orgulhar disso.

E a comédia, gente, não tem como fugir. Vamos nos entregar! O brasileiro é engraçado por natureza. E o humor é tão importante que até nos permite fazer filmes sérios, profundos, dramáticos. Sabemos fazer tudo isso — e bem.

Alvaro Goulart: Você comentou com o Bruno Carmelo (Meio Amargo) que a comédia é uma forma de furar a bolha, inclusive para tratar de política. Pode falar um pouco mais sobre isso?

Marisa Orth: A comédia é um instrumento crítico absurdo! É uma maneira poderosa de dizer verdades, de provocar reflexões, de atingir quem precisa ser atingido. Você consegue fazer crítica política, social, tudo isso através do riso — e isso é muito eficaz.

Alvaro Goulart: Mas você, enquanto atriz, também atua em dramas. Trouxe até aqui o DVD de Maré – Nossa História de Amor pra você autografar. Um papel bem diferente. Esse filme não é comédia.

Marisa Orth: Não é mesmo. É um drama! A Lúcia é barra-pesada. Foi muito difícil fazer esse filme. Foi duríssimo.

Alvaro Goulart: E também é um filme dirigido por uma mulher, né?

Marisa Orth: Sim! Uma diretora mulher que coloca suas vivências como ex-presa política e torturada dentro da narrativa. Ela não consegue não falar socialmente do Brasil — é algo estrutural nela. Trabalhar com ela foi libertador. E, vou te dizer: é muito bom estar num set dirigido por mulher. É mais democrático, com menos disputa de ego, sabe? Desculpa aí, pronto, falei (risos). Claro que não é regra, mas tende a ser assim.

Que honra estar autografando isso. Gravamos mesmo nas comunidades do Rio, com moçada das comunidades, uns bailarinos maravilhosos. Foi incrível esse processo, foi muito forte. Tenho amigos até hoje daquela época. Gosto muito desse filme!

Alvaro Goulart: Obrigado, Marisa. E parabéns pela homenagem!

Marisa Orth: Obrigada a você!

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