Aumentando seu amor pelo cinema a cada crítica

20º CineOP – Mostra Histórica: Curtas-Metragens

Acompanhando a temática do humor feito por mulheres do 20º CineOP, a Mostra Histórica de Curtas prestigiou a diversidade e usou a metalinguagem do fazer cinema para costurar o microcosmo da comédia feminina. Os curadores Cléber Eduardo e Juliana Gusman trouxeram uma seleção nada ortodoxa que brinda o riso e ironiza costumes para direcionar o olhar do público para um protagonismo que se encontra cada vez mais presente atrás das câmeras:

Célia & Rosita*

2000

15 minutos

Direção: Gisella de Mello

Elenco:  Dirce Migliaccio, Cleyde Yacconis

Gênero: Comédia

Roteiro: Mathilda Kovaks

Sinopse:

Numa linguagem cômica e non sense, duas amigas de longa data, cansadas da velhice, fazem um pacto e entram em uma viagem alucinante, dirigindo por um túnel do tempo onde passam reminiscências do século XX e de suas vivências.

Comentário:

Quem dera todos aqueles que concluem suas jornadas pela vida pudessem escolher entre um fim solitário ou um desfecho épico.

Célia e Rosita acompanha duas senhoras que, diante da inevitabilidade da morte, nos ensinam que não existe isso de “você não tem mais idade para”. O curta-metragem de Gisella de Mello acena para Thelma & Louise, com mais irreverência e muito menos pudor.

E ainda nos brinda com uma participação hilariante da inesquecível Dercy Gonçalves — parece que nem mesmo o sono eterno tenha sido capaz de censurar aquela acertada boca suja, tamanha a vitalidade em cena.

Mas o filme vai além do riso. Me atinge numa camada íntima, delicada, porque aquelas duas senhoras me lembram as minhas avós.

*O filme contou com a digitalização da cópia a partir da fita Betacam, pela Universo Produção.

Onde está Mymye Mastroiagnne?

2023

17 minutos

Direção: biarritzzz

Elenco: Josivani Soares, Mymie Mastroiagnne, João dos Anjos, Tubarão Ratão

Gênero: Híbrido

Roteiro: biarritzzz, Anti Ribeiro

Sinopse:

Uma misteriosa cabelereira perde uma amiga num metaverso repleto de casas noturnas e seres encantados. Para procurá-la, consegue a ajuda de outra amiga enquanto conta suas histórias como strippers que ganharam muito dinheiro até ela desaparecer.

Comentário:

Enquanto obra híbrida de documentário e ficção, o curta escancara qualquer caixa que tentasse engessá-lo. Na forma, mistura live-action com animação e captura de tela, criando uma experiência que, embora fílmica, flerta com o universo do gameplay.

Não importa para onde a narrativa nos leve dentro desse metaverso: o riso está sempre por perto nesse Onde Está Carmen Sandiego? queer. O nonsense constrói um mundo que lembra The Sims 2, mas em vez da pasteurização do subúrbio americano, nos entrega um Recife alternativo — vibrante, instável e profundamente político.

A partir dele, o filme nos faz refletir sobre vivências periféricas trans, o trabalho dos performers virtuais, a perda de subjetividade no espaço digital e as ameaças à segurança virtual — tudo de um jeito que Jogador Nº1, de Spielberg, jamais ousou imaginar.

Tubarão Ratão causaria inveja ao Dr. Moreau. E a saudosa diva Whitney Houston entrega o fundo musical para uma cena que Let it Go nenhum seria capaz de sustentar.

Demônia – Melodrama em 3 Atos

2016

17 minutos

Direção: Cainan Baladez, Fernanda Chicolet

Elenco: Fernanda Chicolet, Vinícius de Oliveira, Henrique Schafer, Daniel Ortega

Gênero: Comédia

Roteiro: Fernanda Chicolet

Sinopse:

Demônia é um ser endiabrado. Ou uma mulher má.

Comentário:

Dividido em três partes, o curta também se reinventa a cada ato pela linguagem e formato que escolhe empregar.

O primeiro segue a cartilha de um filme de ficção convencional, mas logo rompe com ela ao revelar os pormenores de um caso extraconjugal. O olhar do personagem vivido por Vinícius de Oliveira é uma bomba-relógio prestes a explodir — e o que poderia ser uma tragédia logo se converte numa escalada cômica irresistível. Vinícius, conhecido por seus papéis dramáticos sob direção de Walter Salles, entrega aqui uma das melhores atuações de sua carreira, com um timing cômico afiadíssimo.

O segundo segmento assume o formato de uma reportagem jornalística — um falso documentário que expõe com sarcasmo as hipocrisias da família tradicional brasileira e a masculinidade tóxica. É prova de que o humor pode ser uma potente ferramenta de denúncia, sobretudo quando conta com um texto preciso e atuações certeiras. Palmas duplas para Fernanda Chicolet, que brilha na atuação e no roteiro.

No desfecho, o filme transcende o cinema e mergulha no universo das redes sociais. A risada quase me deu um fatality quando reconheci o “Toasty!” de Mortal Kombat — só uma entre as muitas referências da cultura pop jogadas nesse barulhento liquidificador.

Todd Haynes aplaudiria após enxugar as lágrimas do riso ao fim desse melodrama da quebrada.

Alfazema

2019

24 minutos

Direção: Sabrina Fidalgo

Elenco: Shirley Cruz, Elisa Lucinda, Bruna Linzmeyer, Bianca Joy-Porte, Albuquerque e Sabrina Fidalgo.

Gênero: Comédia

Roteiro: Sabrina Fidalgo

Sinopse:

É carnaval, e Flaviana vive um difícil dilema: como se livrar do amante que se recusa a sair de seu chuveiro?

Comentário:

O curta de Sabrina Fidalgo consegue transportar o caos do carnaval carioca para dentro de um único cômodo. Tem tesão, confusão, discussão, festa, sagrado, profano, farsa, verdade, purpurina que não sai do corpo nem com duas horas de chuveirada. Não faltou espaço nem para o vira-lata caramelo, que também faz sua figuração. Ele tá lá! Eu vi!

Para além dessa loucura que costura os meses de fevereiro e março, a cineasta rompe com o paradigma de Orfeu Negro, recusando-se a usar essa festa miscigenada como mero pano de fundo para uma narrativa trágica com protagonismo preto. Ainda assim, sob a superfície do óbvio, emerge um questionamento sobre o silenciamento feminino, encarnado num personagem masculino incapaz de ouvir sua amante.

O holofote é colocado sobre mulheres pretas em múltiplos planos: Flaviana, a anfitriã do caos, e as arquitetas divinas — Deus, na pele da impecável Elisa Lucinda, e a própria Sabrina, que se revela enquanto diretora da narrativa. Uma Deusa escreve certo por linhas tortas, enquanto a outra filma com a câmera na mão.

Antes de elevar a narrativa ao território do assistir e do sonhar, contrapondo bem e mal, deleite e cinismo, a diretora chacoalha o espectador e subverte o male gaze: abre as cortinas de sua história com um plano-detalhe do sexo masculino. Tenho certeza de que ninguém esperava por isso. E, curiosamente, essa nem é a maior surpresa do filme.

Alfazema é rivotril com glitter: parece leve, mas te vira do avesso. E quando acaba, você nem sabe se aguenta encarar mais um bloquinho.

Escasso

2022

15 minutos

Direção: Clara Anastácia, Gabriela Gaia Meirelles

Elenco: Clara Anastácia

Gênero: Comédia

Roteiro: Clara Anastácia

Sinopse:

Um mockumentary político que nunca fala de política. Um filme excessivo, verborrágico, faminto e cômico. O filme acompanha Rose, uma passeadora profissional de pets, que apresenta sua nova casa para uma equipe documental enquanto celebra a realização de um sonho: o da casa própria mesmo que ocupada. Enquanto diz cuidar do imóvel e aguardar o retorno da proprietária, a nova “inquilina”, cria intimidade com a casa, assumindo um estado de paixão pela dona ausente.

Comentário:

Um falso documentário pode ser a trilha mais direta para verdades que sempre estiveram ali, mas que muitos preferem não ver. O riso, por sua vez, suaviza o amargo — torna digerível o que, de outro modo, engasga. Escasso caminha entre o falso documentário e a sátira para revelar uma verdade incômoda: o vírus da COVID-19 pode ter arrefecido, mas o da desigualdade continua em plena circulação. Mesmo com vacinas no braço e a promessa de normalidade, há quem siga vivendo no improviso — invisível como sempre.

Rose é, de fato, uma personagem magnética: carismática, engraçada, descontraída e com aquela dose certa de malandragem genuinamente carioca. Nos divertimos ao vê-la apresentar sua rotina e os cantos da sua “nova casa”. E entenda “casa” aqui como uma metonímia para a vida. Seu fascínio pela verdadeira dona do lar a faz adotar não só o espaço, mas a existência que ali ficou em suspenso. Para além do imóvel, Rose se apropria de suas roupas, seus animais de estimação — e até de umas economias em moedas miúdas. Bem, não vou entrar na questão da legitimidade. Mas, se ela não é dona daquela vida por direito, se fez por fato.

A dona da casa e Rose são, de certo modo, duplos. Mas é uma duplicidade enviesada: jamais conhecemos a verdadeira dona — apenas uma imagem construída por Rose, a partir de vestígios, objetos, suposições e desejos. O que vemos é uma projeção, talvez idealizada, talvez distorcida. Ainda assim, há algo de revelador nesse espelhamento: a mulher que Rose encena poderia muito bem ser ela mesma, caso tivesse tido as mesmas oportunidades, os mesmos privilégios, o mesmo CEP. O que separa as duas não é essência, mas circunstância.

É curioso como aquela casa se transforma em um personagem da narrativa. Ela não apenas reflete a personalidade da dona ausente, mas também algo mais amplo — um retrato do Brasil, especialmente no modo como articula a religiosidade. E tem mais: reconheci a rua em que a história se passa. A Rua Dona Zulmira, no Maracanã, era onde morou minha avó. Passei muitos fins de semana por lá. Bem que eu disse que o curta era bem carioca — mas de uma carioquice que as novelas do Maneco desconhecem.

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