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Quase Deserto

Classificado como 4 de 5

Quase Deserto

2025

106 minutos

Classificado como 4 de 5

Diretor: José Eduardo Belmonte

O cinema há muito se fascina pela figura do estrangeiro. A imagem do forasteiro — esse sujeito que atravessa fronteiras, línguas e territórios — é, há décadas, um arquétipo central das narrativas que tratam do deslocamento, da alteridade e da marginalização. Durante muito tempo, essa figura foi retratada como ameaça, elemento de desordem ou presença incômoda que rompe o equilíbrio de uma comunidade. No entanto, é quase sempre o forasteiro o verdadeiro agente de transformação, o corpo estranho que desloca certezas e impulsiona a narrativa.

Em Quase Deserto, José Eduardo Belmonte retoma esse arquétipo para reconstruí-lo dentro de um contexto distópico e político que se aproxima, de maneira inquietante, da realidade. O filme se passa em Detroit — uma cidade que, historicamente, já foi cenário tanto da glória industrial quanto do colapso urbano e racial. O mesmo espaço que abrigou a rebelião civil de 1967, retratada em Detroit em Rebelião (2017), e a distopia tecnológica e corrupta de RoboCop (1987). Belmonte dialoga com esses imaginários, mas os atualiza ao espelhar um mundo arrasado, não apenas fisicamente, mas eticamente. Sua distopia é de ruínas morais e afetivas — e, por isso, tão próxima do que chamamos de realidade.

Ao situar sua trama nos Estados Unidos, Belmonte constrói também um comentário sobre as políticas xenofóbicas e os discursos de exclusão que têm se intensificado globalmente. É impossível assistir a Quase Deserto sem pensar na política migratória de Donald Trump, que transformou a ICE em uma verdadeira milícia institucionalizada para perseguir imigrantes, ou, mais recentemente, nas ações do prefeito de Florianópolis,Topazio Neto (PSD), que anunciou a “devolução” de pessoas sem vínculos na cidade — afrontando diretamente o direito de ir e vir previsto no artigo 5º da Constituição. O discurso “respeitem nossas regras e nossa cultura” é a face contemporânea do mesmo medo do estrangeiro que o cinema tantas vezes representou.

Em Quase Deserto, essas tensões ganham corpo em três figuras: Luís (Vinicius de Oliveira), o brasileiro que busca reunir-se à filha e realizar o velho sonho da “terra das oportunidades”; Benjamin (Daniel Hendler), o jornalista argentino exilado após denúncias políticas; e Ava (Angela Sarafyan), uma jovem neurodivergente que os dois tentam proteger após testemunharem um assassinato. Unidos pela marginalização e pelo testemunho de um crime, os três são perseguidos enquanto se veem enredados em um esquema de especulação imobiliária — mais uma vez o dinheiro é o combustível lógico de qualquer narrativa distópica num país que representa o capitalismo em sua forma mais brutal.

Ava tem a fictícia Síndrome Cansi–Esteban, cujas idiossincrasias se assemelham às de pessoas dentro do espectro autista — especialmente a hipersensibilidade auditiva. Curiosamente, nesse cenário de ruínas, o silêncio grita. E é em seu fone de ouvido que Ava encontra refúgio e ordem, um abrigo contra o ruído brutal do mundo. Sarafyan carrega a maior responsabilidade dramática do filme — e o faz com notável delicadeza. Constrói uma personagem neurodivergente que escapa do caricato apesar de suas estereotipias, equilibrando fragilidade e potência, inocência e lucidez. À primeira vista, parece desconectada da realidade, mas é ela quem oferece os momentos de maior consciência e compaixão. É a única que não se contamina pela lógica da sobrevivência a qualquer custo. É, em essência, quem permanece fiel a si mesma — o que, num mundo de máscaras, já é uma forma de resistência.

Luís, por estar diante do processo de cidadania, é o que mais se demonstra disposto a construir uma persona cuja biografia seja aceita pelos locais. Movida pelo “sonho” exportado historicamente, ele deseja proporcionar à filha melhores condições do que ela teria no Brasil. É na sua dificuldade com a língua e na sua impulsividade que percebemos um indivíduo guiado por suas emoções que reluta, ainda que inconscientemente, a abandonar suas raízes.

Em contrapartida, Benjamin é cético com a propaganda. Guiado pelo senso de justiça e o dever para com a profissão, busca sobreviver e proteger Ava ao mesmo tempo que investiga os eventos recentes que levaram ao esvaziamento dos espaços e ao crime que testemunhou. Claramente um complemento a Luís por sua natureza racional.

Detroit, cidade das montadoras — e do Rock, para os fãs de KISS como eu — torna-se o cenário ideal para esse apocalipse cotidiano: fábricas abandonadas, ruas vazias e espaços que já não pertencem a ninguém. O título do filme se justifica por essa paisagem de “não lugares”, desertos de humanidade. Contudo, Belmonte não se detém apenas na ganância dos homens. Quando descobrimos que o verdadeiro responsável pelo esquema imobiliário é também um imigrante latino, o filme dá um giro profundo em sua crítica: o antigo forasteiro agora repete os gestos do opressor.

É nesse ponto que a ideia de assimilação ganha contornos trágicos. Para se tornar aceito, o estrangeiro precisa negar sua origem, sufocar o “eu” e aderir à lógica do Outro — aquele mesmo Outro que antes o rejeitava. Ao oprimir comunidades imigrantes e vulnerabilizadas, esse antagonista reproduz exatamente os valores do sistema que o excluiu. Ele se “americaniza” por completo, incorporando a ética do acúmulo e da competição que move o capitalismo. E é aqui que ecoa, com força renovada, a célebre frase de Paulo Freire: “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é tornar-se o opressor.” Belmonte parece filmar essa sentença, mostrando que o projeto de assimilação é, antes de tudo, um projeto de morte simbólica — a morte do eu para o nascimento do opressor.

Mas se a assimilação é a doença, a humanidade é o remédio. E Belmonte a traduz de forma visualmente poética: está nos gestos, nas cores e nos silêncios que aproximam os três protagonistas. A paleta do filme — marcada por tons frios e industriais, herança das ruínas metálicas de Detroit e do filtro esverdeado que traz a morbidez — é constantemente quebrada pelos lampejos de calor humano. Luís veste roupas em tons terrosos, remetendo à terra e à origem, à precariedade do trabalho e à resistência de quem veio de baixo. Benjamin carrega o azul acinzentado do seu ceticismo e racionalidade. Já Ava surge envolta em cores mais suaves, como o rosa claro, como se fosse a lembrança do mundo anterior à ruína — uma espécie de alegria ingênua que resiste ao contágio da desumanização.

Essa diferença cromática não é apenas estética, mas ética: ela visualiza o contraste entre a assimilação e a preservação da humanidade. Luís, ainda que, em sua desesperança, cogite abandonar Ava para se salvar, é mais empático que o argentino. Benjamin, por sua vez, é o que mais se afirma moralmente, mas também o que mais ultrapassa os limites da alteridade, invadindo o espaço pessoal de Ava —gestos de microviolência que Belmonte filma com honestidade e discrição. Já Ava, neurodivergente, é quem melhor compreende o mundo: não pela lógica, mas pela intuição, pela leitura afetiva das coisas. É ela quem simboliza a sobrevivência daquilo que ainda é humano — a capacidade de sentir o outro, mesmo quando o mundo parece insensível.

Ava se refugia em seu headphone enquanto serve de refúgio para um mundo com alguma alegria (Imagem: Divulgação)

É justo na sequência inicial que Quase Deserto define seu tom. Na cena, Luis tenta fazer Ava pular a catraca do metrô durante a perseguição. Em meio à urgência da fuga, há uma pausa quase espiritual no gesto: o olhar de Vinicius de Oliveira para Angela Sarafyan carrega uma ternura que resiste ao desespero. É uma imagem que concentra o que há de mais latino em nós — o toque, o calor, o acolhimento mesmo no caos. Ali, o personagem de Vinicius retoma o olhar do menino Josué de Central do Brasil, como se duas décadas depois aquele mesmo olhar ainda buscasse o outro, não pela sobrevivência, mas pela empatia. É um fragmento mínimo, mas que condensa o sentido do filme: sobreviver é manter aceso o elo que nos torna humanos.

Essa latinidade dos gestos é o verdadeiro antídoto contra a assimilação. Enquanto o antagonista mata o “eu” para tornar-se o opressor, os protagonistas o reafirmam pela via da emoção, da partilha, da solidariedade — valores que sobrevivem apesar da ruína. Belmonte entende que a resistência não se dá pela ideologia, mas pelo gesto; não pela palavra, mas pelo olhar. A empatia é, aqui, uma forma de desobediência.

Quase Deserto também se arrisca em perguntas espirituais, sem medo de tocar espaços simbólicos como o da igreja — lugar que, para muitos, inclusive este que vos escreve, tornou-se sinônimo de hipocrisia e discurso distorcido de “defesa da vida”. Belmonte devolve, ao menos em parte, o sentido de abrigo e comunhão a esse espaço, invertendo o discurso de exclusão em gesto de acolhimento.

Confesso que, à primeira vista, o longa de Belmonte pode parecer desconectado. A escolha em construir uma narrativa não linear, estruturada a partir das vivências fragmentadas de seus protagonistas, não oferece um olhar total sobre o cenário devastado que o cineasta ergue. Mas é justamente esse olhar fragmentado que revela o interesse maior do filme: o microcosmo de alguns indivíduos tentando sobreviver. E é nesse recorte íntimo — devidamente sublinhado pelas cores mais distintas das bandeiras de cada país, que identificam e diferenciam Luis, Benjamin e Ava — que o filme encontra sua unidade visual e simbólica. As bandeiras, evocadas nas aberturas de cada capítulo e também nas roupas dos protagonistas são mais do que referência identitária: são lembranças da origem que resiste à homogeneização. Esse colorido que se destaca no cinza americano é a marca de que, mesmo deslocados, esses personagens carregam consigo individualidades que ainda pulsam.

Ao fim, o que poderia parecer um filme sobre o colapso social é, na verdade, uma parábola sobre o colapso da identidade. Em Detroit — essa cidade de ruínas que cujo nome me recorda os solos de guitarra do saudoso Ace —, o estrangeiro tenta se refazer e descobre que o preço da aceitação é a negação de si mesmo. Belmonte nos lembra que não há liberdade na assimilação, e que o sonho do oprimido só se torna libertador quando ele se recusa a reproduzir o olhar do opressor. Quase Deserto é, portanto, um filme sobre a luta por humanidade em meio à devastação — e sobre como, nos pequenos gestos de calor, cor e afeto, ainda é possível resistir ao deserto que o mundo se tornou.

Quase Deserto foi assistido durante o 27º Festival do Rio – Rio de Janeiro Int’l Film Festival – e retornou às salas de cinemas no dia 07 de novembro de 2025.

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