A Mostra de Cinema de Ouro Preto chega à sua 20ª edição como uma ponte entre o passado, o presente e o futuro.
Entre os dias 25 e 30 de junho, a cidade histórica de Ouro Preto — Patrimônio Cultural da Humanidade — recebeu a 20ª edição do CineOP. O festival se distingue dos demais por seu enfoque na preservação do acervo cinematográfico, dando destaque tanto às obras clássicas do nosso cinema quanto àquelas que se constroem a partir de arquivos públicos ou particulares.
Neste ano, o evento exibiu 143 filmes produzidos em 17 estados brasileiros, além de seis produções internacionais. A programação contou ainda com homenagens, mesas de debate, cortejos, apresentações de grupos locais, lançamentos de livros e oficinas com profissionais do Brasil e do mundo.
A abertura oficial teve a apresentação da Banda Sociedade Musical Senhor Bom Jesus das Flores, que recebeu o público com versões em fanfarra de clássicos da música brasileira. Houve também a entrega do Troféu Vila Rica aos educadores Maria Angélica Santos e João Luiz Vieira, pelos prêmios Cinema e Educação e Preservação, respectivamente. A cerimônia culminou com a homenagem à atriz Marisa Orth, que recebeu o troféu das mãos do filho, João Orth, e da amiga e cineasta Anna Muylaert. Marisa ainda emocionou o público ao cantar Todas as Mulheres do Mundo, de Rita Lee, ao lado de Adrianna, Inês Peixoto e Will Motta.


A noite se encerrou com a exibição dos curtas:
- A Mulher Fatal Encontra o Homem Ideal (Carla Camurati, 1987)
- A Origem dos Bebês Segundo Kiki Cavalcanti (Anna Muylaert, 1995)
- Esconde-Esconde (Eliana Fonseca, 1988)
- Lá e Cá (Sandra Kogut, 1995)
- A Má Criada (Sung Sfai, 1993)
[Confira aqui a matéria completa da homenagem a Marisa Orth.]
[Confira aqui a entrevista com Marisa Orth, por Alvaro Goulart.]
[Confira aqui a entrevista com Marisa Orth, por Natália Bocanera.]
A escolha de Marisa Orth como homenageada é representativa dentro da temática histórica sobre o humor das mulheres diante e atrás das câmeras no cinema e no audiovisual brasileiro. A atriz, que eternizou a personagem Magda em Sai de Baixo, reúne em sua trajetória diversos longas e curtas-metragens marcantes. Além das obras que marcaram a noite de abertura, o festival exibiu diversos longas e curtas produzidos por essas vênus criativas — mulheres que, com olhar sensível e pulsante, reconfiguram as formas de narrar e preservar memórias no cinema brasileiro. Algumas dessas obras foram recuperadas e restauradas pela Universo Produção, responsável pelo evento, e todas foram cuidadosamente escolhidas pela curadoria de Cleber Eduardo e Juliana Gusman. Os curadores também mediaram as mesas de conversa com as diretoras e o público.
Entre as vênus presentes nas rodas de bate-papo estavam Anna Muylaert, Chris D’Amato, Inês Peixoto, Sabrina Fidalgo e muitas outras que tiveram seus trabalhos exibidos.
[Confira aqui a entrevista com Sabrina Fidalgo, por Alvaro Goulart.]
[Confira aqui a cobertura dos filmes da Mostra Histórica, por Alvaro Goulart.]
Os eixos de educação e preservação audiovisual proporcionaram encontros entre produtores culturais, educadores e representantes de instituições públicas, como o diretor da Ancine Paulo Alcoforado, a secretária nacional do audiovisual Joelma Gonzaga, o reitor da UFOP Luciano Campos e a deputada federal Jandira Feghali, que lançou seu livro Cultura é Poder – Reflexões sobre o papel da cultura no processo emancipatório da sociedade brasileira.

[Confira aqui a entrevista com Jandira Feghali, por Alvaro Goulart.]
Ainda dentro da pauta da preservação, o CineOP promoveu o debate “A Crise Climática e os Desafios para a Preservação Audiovisual”. Nele, foram apresentados indicadores de investimento, ações realizadas, obras em risco e o agravamento dos desafios. Em outra mesa, Mauro Domingues, chefe da Divisão de Preservação da Secretaria do Audiovisual, alertou que as mudanças climáticas interferem diretamente na conservação dos acervos: “Os registros e documentos são afetados assim como nós também somos afetados”.
Mais do que um palco de encontros, o CineOP se consolida como um agente transformador e disseminador de conhecimento, estruturado nos pilares da educação, preservação e memória. Um dos destaques da edição foi a realização de oficinas, workshops e masterclasses internacionais, com profissionais ligados a grandes festivais, como o Festival de Cannes e o Festival Lumière.

Como Ouro Preto é uma cidade que transpira cultura, o CineOP também abriu espaço para outras manifestações artísticas além do cinema. Todos os dias do evento encerraram-se com apresentações musicais. Ana Canãs homenageou Rita Lee, Tacy integrou o Baile da Amandona, Tutu com Tacacá conectou Minas ao Pará e até a vencedora do Grammy Latino Xênia França se apresentou ao lado dos DJs Viviane e Pátrida.
Para marcar as duas décadas de existência, o festival estreou sua Mostra Competitiva, dedicada a obras que utilizam imagens de arquivo como motor narrativo. “Essa estreia é uma forma de aproximar os cineastas da preservação”, explicou a coordenadora geral Raquel Hallak, que também defendeu a importância de discutir a necessidade de salvaguardar o patrimônio audiovisual como forma de contar novas histórias.
A Mostra Competitiva exibiu os longas documentais:
- Itatira, de André Luiz Garcia [confira aqui a crítica]
- Meu Pai e Eu, de Tiago Moulin [confira aqui a crítica]
- Os Ruminantes, de Tarsila Araújo e Marcelo Mello [confira aqui a crítica]
- Paraíso, de Ana Rieper
- Um Olhar Inquieta: O Cinema de Jorge Bodanzky, de Jorge Bodanzky e Liliane Maia [confira aqui a crítica]
Na cerimônia de encerramento, o Troféu Vila Rica foi concedido ao filme Paraíso. Ao receber o prêmio, a diretora Ana Rieper agradeceu à equipe e aos profissionais de preservação e arquivos públicos que tornam possível que a memória siga viva e que filmes como o seu existam.

A 20ª edição do CineOP se despediu do público com a exibição a céu aberto de O Garoto, de Charles Chaplin, em uma versão especial acompanhada ao vivo por uma trilha com clássicos do choro brasileiro. O cine-concerto foi performado pelas musicistas Natália Barros, Isabella Alencastro e Jennifer Cunha — uma experiência única no centro histórico, onde o passado se faz tão presente, e o cinema é celebrado com uma de suas obras mais mágicas e eternas.


Crítica de cinema, formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films e da Comissão de Cinema da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).

