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ENTREVISTA | Jorge Bodanzky no 20º CineOP

tenho uma preocupação de construir um olhar de dentro para fora e não de fora para dentro – Jorge Bodanzky

O documentarista Jorge Bodanzky durante a mesa “O Uso de Acervos na Criação de Novos Filmes” (imagem:Vinícius Terror/Universo Produção)

Apesar da origem austríaca, Jorge Bodanzky conseguiu desenvolver um olhar genuinamente brasileiro sobre o país e seu povo — algo que se revelou com força desde Iracema – Uma Transa Amazônica, seu filme mais emblemático. A câmera de Bodanzky é uma extensão do olhar e um reflexo da generosidade com que ele escuta seus personagens. Após décadas de registros, seu novo longa, Um Olhar Inquieto: O Cinema de Jorge Bodanzky, não é uma ode a si próprio, mas às histórias que captou ao longo do tempo.

Construído a partir do acervo pessoal, incluindo imagens em Super 8 de caráter doméstico, o filme propõe um gesto de memória — não apenas como evocação, mas como denúncia. A devastação do passado reverbera nos silêncios do presente. O longa foi exibido na Mostra Competitiva do 20º CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto, e, após participar da mesa “O Uso de Acervos na Criação de Novos Filmes”, o cineasta conversou com o Cinema com Crítica.


Alvaro Goulart – A partir do título do seu filme, imaginamos que ele trate bastante sobre você, sobre sua trajetória como cineasta. Mas o interessante é que ele dá voz a uma minoria que permaneceu silenciada por muito tempo. Você consideraria que é um protagonismo compartilhado dentro dessa construção?

Jorge BodanzkyTodo o meu trabalho, desde sempre, tem um olhar de jornalista. Mas também tenho uma preocupação de construir um olhar de dentro para fora — e não de fora para dentro. Gosto de ouvir as pessoas. Gosto que elas contem suas histórias. Eu apenas organizo isso. Todo o meu cinema tem esse viés.
E nesse trabalho que apresentei aqui, Um Olhar Inquieto, é… talvez eu seja inquieto mesmo. E o olhar, na realidade, não é o meu. É o das pessoas que eu retrato. Eu permito que elas olhem para dentro da minha câmera. Eu interpreto isso através da câmera, porque sou eu quem filma. Então sou o primeiro que enxerga o que estou fazendo, através da lente. E a minha câmera, na realidade, é uma câmera que eu empresto para quem estou retratando.


Alvaro Goulart – Essa ideia de ser ponte entre as pessoas e o mundo se manifesta de forma muito forte num trecho do filme: a filmagem feita de helicóptero, sobrevoando uma aldeia até então desconhecida. O registro da mata, daquelas pessoas… Quando comparamos com os tempos de hoje, vemos a devastação, o apagamento. Como você enxerga o arquivo como uma forma de denúncia, uma espécie de máquina do tempo que revela, décadas depois, as feridas ainda abertas?

Jorge Bodanzky – É claro que, na época em que fiz essa filmagem, não pensei em como isso seria visto 20 anos depois. Mas a tragédia dessa história é justamente essa: passaram-se 20, 30, 40 anos, e nada mudou. A situação é a mesma. As pessoas que eu retratei naquela época hoje são seus filhos, seus descendentes — mas sofrem os mesmos males.
A maneira como o Brasil enxerga essas áreas, a Amazônia, o Mato Grosso… a forma de ocupação não mudou. O modo como os militares queriam ocupar essa região continua igual até hoje.
Então isso não foi uma intenção inicial, mas está contido no material. Se a gente analisa essas imagens, se pergunta: “E hoje? Como está isso?” É isso que o filme mostra. Os problemas são absolutamente os mesmos — e hoje, muito piores. Muito maiores. Já estava tudo ali.


Alvaro Goulart – Você fala de filmar de dentro para fora. Mas certos grupos — como os povos originários — ainda são vistos quase como estrangeiros dentro do próprio país. Um Brasil real, mas tratado como exceção. E você, de origem estrangeira, tem uma vivência muito mais brasileira do que muitos brasileiros. Como enxerga isso?

Jorge Bodanzky – É a forma como você se coloca. Eu não chego com uma ideia pré-concebida. Acho que o jornalista precisa saber ouvir. Eu escuto. Escuto mais do que falo.
E hoje está acontecendo algo muito interessante no cinema brasileiro: a grande novidade é o cinema indígena.
Depois de mais de 20 anos de projetos de vídeo nas aldeias, formou-se uma geração nova de diretores indígenas que agora estão realizando seus próprios filmes. Estão mostrando a vida como eles a enxergam — e não como os outros a enxergam.
Sempre tive essa preocupação: ouvir. Mostrar aquilo que eles queriam mostrar — não o que eu queria mostrar. Não é uma imagem bonita. Não é uma imagem exótica. É a imagem da realidade deles.


Alvaro Goulart – Dentro desse cinema indígena, que com certeza você acompanha de perto, quais filmes você indicaria para quem quer conhecer mais a fundo?

Jorge BodanzkyO cinema indígena ainda não tem tantos filmes, mas muita coisa está surgindo. Eles estão num processo rapidíssimo de apropriação das mídias.
O documentário, no entanto, é um pouco mais complexo. Porque não é uma reportagem: na reportagem você ouve os dois lados, analisa e entrega ao espectador.
O documentário é diferente. Ele se afasta disso. É mais um pensamento sobre o que se quer dizer. O autor se envolve mais. Toma partido.
E os cineastas indígenas estão descobrindo isso. Estão se apropriando do documentário como forma de expressão.
Não saberia citar agora este ou aquele filme. Mas há um universo enorme surgindo. Há festivais de cinema indígena. Festivais tradicionais também vêm incorporando essa produção — que é viva, rica, e está florescendo. A cada momento, aparece algo novo. A gente tem que prestar atenção nisso.


Alvaro GoulartMas para além dessa diferença de fazer cinema, de quem faz cinema e do Brasil, desde o tempo do registro do sobrevoo, o que mais mudou no Jorge Bodanzky cineasta?

Jorge BodanzkyAcho que meu olhar foi ficando cada vez mais intimista.
Comecei apenas como um documentarista que registrava, mantendo uma certa distância daquilo que mostrava — justamente para não interferir, acreditando que isso traria mais presença da realidade do que de mim mesmo.
Mas, aos poucos, comecei a entrar na história. Virei personagem. E nos últimos filmes, isso foi se intensificando. Neste último, então, totalmente.
Mas não foi algo planejado. Foi acontecendo naturalmente. À medida que fui lidando com essa imagem, ela passou a vir de dentro de mim. Deixou de ser uma imagem de fora para dentro, para ser uma imagem de dentro para fora.


Alvaro Goulart – Podemos dizer, então, que buscando o olhar do outro, você encontrou o olhar sobre si?

Jorge BodanzkyExatamente! Procurando o olhar do outro, eu acabei achando o meu olhar.

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