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Meu Pai e Eu

Classificado como 4 de 5

Meu Pai e Eu

2025

70 minutos

Classificado como 4 de 5

Diretor: Thiago Moulin

É curioso pensar nas várias facetas da minha figura paterna. Além do pai, existe o marido, o filho, o baterista, o brincalhão, o cara da segurança, o cara do incêndio, o que acerta, o que erra, o que em muitos momentos esteve presente e o que, em outros, não conseguiu estar. A voz dele é inesquecível — seja nas lembranças das broncas e brigas, seja nas das brincadeiras. Eu ainda posso abraçá-lo e beijar seu rosto. Uma dádiva.

Em seu documentário, Thiago Moulin vai em busca da própria figura paterna através de uma mala que resta como herança. Aprisionados por décadas em um cárcere de couro, um passaporte ao íntimo: fotos e anotações. Aquele volume abrigava uma espécie de diário, fragmentado em pensamentos e desabafos. Para completar as diversas lacunas que ficaram, cartões postais e as lembranças dos que permaneceram.

A cena de abertura do documentário exibe uma comemoração familiar que apresenta os personagens da vida do diretor e, por fim, nos revela o rosto da figura buscada. Seria um equívoco presumir que reconhecer um rosto significa conhecer de fato aquela pessoa. Apenas conseguimos notar um homem que simula um sorriso, enquanto falha ao esconder o semblante de melancolia. E Thiago nos convida a acompanhá-lo nessa jornada de redescoberta, escancarando uma ferida aberta ao puxar o zíper da maleta.

Na voz do diretor, as palavras mais duras nos atingem. Logo nas primeiras linhas, ele nos confessa o constrangimento que sentia pelo pai. Mais impactante ainda é o registro desse sentimento em um trabalho de escola, onde descreve as ocupações dos familiares e destaca o alcoolismo do pai como principal aspecto de sua decadência — em contraste com os tempos pretéritos, quando era bancário.

Em uma espécie de sessão de terapia familiar, Meu Pai e Eu nos entrega um dos momentos mais tocantes: os três sobreviventes sentados à mesa, ao redor da mala. É indiscutível a força daquela figura feminina que criou os dois moleques diante da dissolução do casamento e da decadência do pai de seus filhos.

Algumas das reflexões de Jorge Luiz encontradas guardadas na mala (Imagem: Divulgação)

Fica claro que a produção é, para além de uma tentativa de reconexão ou redescoberta, um caminho para o processamento de traumas e sentimentos represados — principalmente quando sentimos a ambiguidade de ter que amar aquela figura que é, ao mesmo tempo, distante e traumática. Como o próprio realizador ressalta: o perdão parece uma solução fácil para quem está de fora.

Ainda assim, notamos que Moulin tenta, em diversos momentos, se colocar no lugar do pai. Esse exercício de empatia — apesar de o diretor verbalizar não conseguir realizar — é sentido quando posiciona as lentes dos óculos (que imagino terem pertencido a seu pai) como filtro diante da câmera. Sua ida à Angola também ressoa como uma tentativa inconsciente de refazer os passos paternos.

Diante dos desdobramentos dessa jornada, somos colocados diante de heranças traumáticas e vivências que se repetem. Seu pai, Jorge Luiz, carregava um sentimento de abandono parental e desconexão com seus genitores — o que é revelado em cartas escritas durante uma viagem aos Estados Unidos. A expectativa de cartas que não chegavam ou os gestos de afeto, como abraços, que não faziam parte da criação, se revelam reflexos de uma infância sem referências de cuidado, marcada por uma mãe áspera e um pai assombrado por uma virilidade ferida.

Contudo, o diretor encontra o melhor caminho para não perpetuar seus traumas e transferir sua melancolia às filhas. Seu pai escrevia suas dores e, ao guardá-las para si, transformava-as em frustrações. O resultado é um homem sempre em fuga. Thiago, por sua vez, processa a dor na produção das imagens dessa jornada de luto tardio — em que escolhe olhar para dentro de si e compartilhar o que é encontrado.

O documentarista é poético na forma como finaliza sua obra. Ao trazer a si mesmo se barbeando, evoca um hábito que representa a chegada à maturidade e o ensinamento entre pai e filho — no caso, imaginamos que esse gesto tenha sido algo que precisou aprender sozinho. Esse registro também carrega um quê de transformação e renovação. Mas nada é tão impactante quanto a imagem da ultrassonografia de sua primeira filha: mais que uma homenagem, um grito silencioso de esperança. O gesto simples de centralizar a vida em formação, pode ser mais eloquente do que todas as palavras guardadas numa mala.

Meu Pai e Eu foi assistido na Mostra Competitiva do 20º CineOP, a mostra de cinema de Ouro Preto.

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