Aumentando seu amor pelo cinema a cada crítica

Apenas Coisas Boas

Classificado como 3.5 de 5

Apenas Coisas Boas

2026

104 minutos

Classificado como 3.5 de 5

Diretor: Daniel Nolasco

Em Apenas Coisas Boas, Daniel Nolasco escapa de abordagens óbvias à relações queer, seja na ousadia das sequências eróticas ou mesmo na construção de dois segmentos distintos, ainda que com certo desequilíbrio.

Este mês de junho de 2026 tem se mostrado muito gratificante para o cinema queer brasileiro, porquanto recheado de lançamentos aptos a demonstrar a grandeza das produções nacionais como um todo, e o desenvolvimento de temas correlatos a essa comunidade que durante muito tempo esteve renegada às margens da sociedade – incluindo o próprio campo da cultura. É o caso de filmes como a fábula de terror O Labirinto dos Garotos Perdidos, de Matheus Marchetti, na exploração do cenário urbano de encontros, e o receio de ser vítima da violência homofóbica; e a comédia romântica ‘coming of age’ Quinze Dias, de Daniel Lieff, em uma abordagem sensível voltada ao público adolescente.

Apenas Coisas Boas volta-se a um público mais maduro. A partir de dois momentos distintos, entre passado e presente, lança um olhar sobre a união improvável de duas vidas pelo acaso – literalmente por um acidente –, que evolui para um romance capaz de desafiar o conservadorismo de um estado brasileiro ainda muito conservador, e mais ainda no interior, em região afastada da capital, em plena década de 1980.

Na prática, tal como o citado longa de Marchetti, existe um aspecto fabular trabalhado neste, a partir da abordagem de Daniel Nolasco, tanto como roteirista quanto diretor do projeto. A sequência inicial oferece uma visão idealizada de um personagem inicialmente excêntrico – Marcelo, vivido por Liev Carlos –, pilotando sua moto pela estrada. Em uma parada em um posto de gasolina, no reflexo de seus óculos, um desejo se manifesta, silenciosamente: encontrar alguém para passar a vida, quando avista um veículo, conduzido por um casal de homens, comemorando o próprio casamento (uma cena incomum para a época, em que a liberdade era bem mais restrita).

Como um gesto de surpresa, um acidente com uma televisão arremessada do céu à estrada (mais um indício desse aspecto fabular, trabalhado a partir da metalinguagem) o faz cair ao solo, apenas para ser encontrado por Antônio, um fazendeiro local, muito bem interpretado por Lucas Drummond, o grande destaque do filme. O que se inicia com uma relação de cuidado – afinal, Marcelo estava ferido e inconsciente – aos poucos evolui para uma paixão.

Lucas Drummond e Liev Carlos em cena de Apenas Coisas Boas.

A direção de Nolasco explora essa relação sem pudores, e com um toque de fantasia que reside na causalidade dos eventos, em gesto de coragem ao colocar ambos os atores de frente para a câmera, nus, aproximando-se cada vez mais, até o momento que iniciam a prática de atos sexuais. Filmados de perto, com uma câmera próxima aos órgãos genitais, as cenas íntimas se estendem para além do esperado, e mostram ao espectador muito mais do que se imagina – e do que se está acostumado no cinema. É como se não houvesse barreiras no olhar para as intimidades desses personagens, abertas ao extremo, cujo filme trabalha sem soar apelativo.

Ainda que possa gerar ares de polêmica justamente em razão dos inúmeros momentos envolvendo a nudez e as práticas sexuais, Apenas Coisas Boas nunca se aproxima de um filme pornográfico. Tais atos aqui não são o centro da proposta narrativa, mas tão somente um recurso, dentre muitos outros, utilizado pela direção de Daniel Nolasco para aprofundar a dinâmica existente entre os personagens Antônio e Marcelo. O que mais importa ao cineasta, de verdade, é o olhar de Antônio, que assume o protagonismo, para o parceiro, e a transformação que essa relação, quase caída do céu – tal como a televisão causadora do acidente de moto – provoca em sua vida, enquanto mantém má relação com o pai, um sujeito homofóbico, que constantemente o ameaça, ainda que à distância.

São esses olhares, assumidos pela câmera sob o ponto de vista de Antônio, que fazem da fotografia assinada por Larry Machado um dos atributos mais poderosos do longa. O corpo de Marcelo, reluzente, ao reflexo do sol, trabalha em tela a admiração e o desejo do protagonista por um mundo não aceito pela própria veia familiar, e que luta para, de uma vez por todas, fazer parte. Não à toa, em um momento decisivo do seu arco de transformação, uma perseguição armada, a tiros de espingarda, acontece com um arco-íris ao fundo, de maneira muito significativa aos sentimentos do personagem, tanto em relação à causa quanto ao que se encontra em jogo naquele momento de sua vida.

Ao mesmo tempo, o filme também busca esquivar-se de uma abordagem limitada ao desejo, e aos primeiros passos, na forma dessa fábula trágica, de um homem rumo à assumpção definitiva da homossexualidade. É quando Nolasco propõe um salto temporal, para quase quarenta anos no futuro, já nos dias presentes, que troca essa atmosfera mais fantasiosa por um clima denso – não mais preenchido com desejo, mas com desgaste. Na prática, reina o enigma, a partir de uma série de interpretações possíveis, com base nos eventos da cena em que ocorre a tal transição entre os tempos, com naturalidade, através da boa montagem assinada por Will Domingos, sem necessitar de um indicativo em tela que não o personagem.

Nesse sentido, trata, por um lado, dos limites aos quais chega uma relação, antes tomada por uma paixão calorosa, e agora tornada fria, no clima de um gélido apartamento na capital goiana. Indícios sugerem uma série de possibilidades para esse desencontro entre Antônio e Marcelo, com os pés na realidade, novamente trabalhado sob o ponto de vista do primeiro – agora interpretado por Fernando Libonati, sem tanto da naturalidade de Drummond no papel – agora um homem de posses, em confortável situação financeira, mas cuja vida pessoal pouco conhecemos. No entanto, são deixados indícios também da nunca existência de um futuro ao casal, de que todo o segmento pode tratar-se de uma ilusão, ou estado de espírito tomado por depressão e infelicidade, diante de um trauma passado nunca superado.

Fernando Libonati e Igor Leoni em cena de Apenas Coisas Boas.

Seja qual interpretação mais convir ao espectador, creio ser quase uníssono que a alma da narrativa e seus melhores momentos se encontram, majoritariamente, no primeiro segmento, de certo seu instante mais interessante e de conexão mais profunda, seja na relação em tela ou mesmo com o público, ao qual a própria direção mostra-se mais engajada em se debruçar sobre. É de bastante ousadia as propostas de Daniel Nolasco, seja pela abordagem mais crua do relacionamento, com a explicitude das sequências eróticas, cujo elenco demonstra conforto em contracenar nestas passagens, quanto da própria escolha por situar a narrativa em dois momentos distintos, e depositar na relação de causalidade passado-presente duas perspectivas distintas sobre a vida real, com a possibilidade para diferentes interpretações. E assim, Apenas Coisas Boas consegue escapar à obviedade de tantos projetos que apenas ficam no “mais do mesmo”, ainda que haja um desequilíbrio na qualidade e interesse de seus dois segmentos, no contraste entre a fantasia fabular e a realidade deprimente.

Apenas Coisas Boas estreia hoje, 25/06, nos cinemas brasileiros.

Compartilhe

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Você também pode gostar de:

Críticas
Marcio Sallem

Eddington

Uma farsa perfeita do mundo contemporâneo? Os Irmãos

Críticas
Marcio Sallem

Perro Bomba

Crítica publicada durante a cobertura do 47 festival

Rolar para cima