Conheci o cinema de Bodanzky por sua obra mais emblemática. Iracema – Uma Transa Amazônica havia sido apontado por Caio Blat, em uma entrevista que fiz com o ator em outro festival, como seu filme brasileiro favorito. Na ocasião, o ator falou sobre a narrativa híbrida que mistura elementos de ficção e realidade, além da participação de atores sociais, o que eleva a sensação de legitimidade do que é visto na tela. Em casa, pude conferir o clássico e concordar com sua avaliação.
Marshall McLuhan define os meios de comunicação como extensões do homem, e Bodanzky incorpora esse conceito em seu fazer cinema ao afirmar que a câmera é a extensão de seu corpo, sempre em movimento. Nesse sentido, seu olhar sobre o mundo se dá pela mediação das lentes e por uma experiência pavimentada pela necessidade de capturar imagens, para além da simples observação.
Dessa maneira, o documentarista faz de sua câmera também uma extensão de sua memória. Tudo o que captura com o olhar se transforma em frame, ora registrado como fotografia, ora como filme, fazendo da câmera uma espécie de caderno de notas.
O registro de seu olhar, quando organizado em forma de filme, ecoa suas reflexões de volta para o mundo. E esse seu grito imagético ressoa também a voz e os pensamentos daqueles a quem o cineasta direciona seu instrumento.
Um Olhar Inquieto nos convida a visitar a obra de Jorge Bodanzky por meio do reencontro do diretor com seu acervo. Essa revisita foi possível graças ao cuidado do artista com o armazenamento de sua obra e à parceria com o Instituto Moreira Salles, que digitalizou todos os registros em película.
A redescoberta do registro de um sobrevoo de helicóptero durante uma reportagem para a TV alemã reacendeu a curiosidade de Bodanzky a respeito da região de Aripuanã, no Mato Grosso. Sua filmagem em Super 8 enquadra uma pequena aldeia isolada em meio à selva amazônica. O gigante de aço que corta os céus provoca a curiosidade e os disparos de flechas por parte dos indígenas, criando um marco na vida daquela comunidade.
As décadas que separam a filmagem em Super 8 da filmagem digital de Um Olhar Inquieto foram marcadas por feridas na história daquela população e por uma sequência de políticas públicas, de diferentes governos, focadas na exploração. Hoje, o diretor octogenário se depara com o que restou do verde que havia registrado e com os descendentes dos donos originais daquela terra.

Entre denúncias e lamentos, Um Olhar Inquieto se revela uma máquina do tempo não apenas daquele Brasil, mas também do próprio diretor. Acessamos sua filmografia também como uma maneira de ilustrar a elipse de décadas entre o presente e o dia do sobrevoo de helicóptero. Os bastidores de Iracema, que marca a primeira filmagem dentro da floresta, são também um estudo sociológico do desenvolvimento — ou da exploração — daquele território.
O debruçar-se sobre a jornada profissional do diretor conecta o público com informações privilegiadas, como, por exemplo, o acréscimo de sua experiência como navegador, que auxiliou no domínio da luz ambiente e no manejo do fotômetro durante as filmagens de Menino de Engenho, de Walter Lima Jr. Outro tema explorado são suas personagens femininas fortes e Gitirana, outro de seus filmes que foi lançado em Cannes, mas que se perdeu.
Percebemos o olhar progressista do documentarista quando localizamos cronologicamente suas produções. Sua abordagem e escolhas temáticas trazem ora uma denúncia política, ora uma crítica aos costumes conservadores da época. Seu grande diferencial está em sua capacidade de escuta àqueles que estão diante de sua câmera. O que permite que sua visão não carregue ruídos de pré-disposições preconceituosas, fazendo com que seu olhar seja construído a partir do olhar do outro e, portanto, resulte em um cinema de dentro para fora — como diria o próprio Bodanzky.
Um Olhar Inquieto – O Cinema de Jorge Bodanzky é mais que um glossário, mas flerta em ser uma ode aos feitos do diretor com uma câmera na mão pela constante participação do cineasta não dar respiro para outras figuras atrás da câmera trabalhem. A figura de Bodanzky é onipresente, salvo seus entrevistados. O diretor aparece diante e atrás da câmera, e ainda em forma quase divina através de sua narração em Off. Pouco se consegue sentir da codiretora do documentário, Liliane Maia.
No entanto, Um Olhar Inquieto manifesta-se também como uma ode à preservação e recuperação de acervos cinematográficos — uma vulnerabilidade latente na cinematografia brasileira. Também é um lembrete para que estejamos atentos ao passado, pois este é uma baliza para o futuro que pretendemos construir e para as feridas que precisamos curar ainda no presente.
Um Olhar Inquieto – O Cinema de Jorge Bodanzky foi assistido na Mostra Competitiva do 20º CineOP, a Mostra de Cinema de Ouro Preto.
JORNALISTA, PUBLICITÁRIO E CRÍTICO DE CINEMA. Cresceu no ambiente da videolocadora de bairro, onde teve seu primeiro emprego. Ávido colecionador de mídia física, reune mais de 3 mil títulos na sua coleção. Já participou de produções audiovisuais independentes, na captura de som e na produção de trilha musical. Hoje, escreve críticas de filmes pro site do Cinema com Crítica e é responsável pela editoração das apostilas do Clube do Crítico. Em 2025, criou seu perfil, Cria de Locadora, para comentar cinema em diversos formatos.


