Desde minha pré-adolescência, o nome de Stephen King despertava minha curiosidade. É natural que um garoto de 11 anos se interesse por histórias de terror, ainda mais quando a trilha sonora da vida era composta por Kiss, Black Sabbath e Ozzy Osbourne. Lembro das locadoras recebendo minisséries para TV, compactadas em dois VHS — Rose Red, A Dança da Morte e tantos outros. Os livros também marcaram esse período, especialmente It – A Coisa e O Iluminado — cuja versão de Kubrick King despreza, enquanto a adaptação que ele aprova considero incrivelmente morna. Mas foram Conta Comigo, Um Sonho de Liberdade e À Espera de um Milagre — obras menos associadas ao horror — que renderam as adaptações mais premiadas.
A Vida de Chuck segue essa mesma linha: um conto de King que foge do terror. Dividido em três partes não lineares, acompanha a trajetória de Chuck, um homem de 39 anos cuja vida é interrompida por um tumor cerebral. Mas, curiosamente, o filme não se apressa em apresentá-lo. O protagonista está no centro, sim, mas divide espaço com as pessoas que o cercam. E, como é típico de King, a narrativa ganha corpo também pela voz de um narrador.
Para quem, como eu, não conhecia o conto nem leu sinopses, a primeira parte traz certa surpresa. Ela não se concentra em Chuck, mas em uma enfermeira intensivista (Karen Gillan) e em um professor de filosofia (Chiwetel Ejiofor) diante de um possível apocalipse. Além do drama pessoal de cada um em dar sentido ao fim iminente, surge a pergunta: quem é esse Chuck (Tom Hiddleston) que aparece constantemente homenageado em mensagens de agradecimento por 39 anos de atividade?
Mais que o mistério em torno do personagem-título, o que prende aqui é a incerteza sobre o que está realmente acontecendo. E, sobretudo, como agiríamos diante do fim — principalmente quando os desastres naturais retratados lembram tanto os que vivemos no presente. Continuaríamos nossa rotina? O trabalho faria sentido se fosse apenas para gerar dinheiro? Com quem passaríamos os últimos instantes? O suicídio seria uma última forma de escolha, ou até mesmo um ato de resistência?
Quando o filme resolve o “grande mistério” sobre quem é Chuck, a narrativa recomeça. Desta vez, seguimos uma cena em que uma baterista inicia seu show e cruza olhares com ele. Chuck dança; uma mulher se junta a ele, e o momento parece um La La Land mal disfarçado, menos elaborado e até caricato. Tive a impressão de que Hiddleston só foi escalado por conta de sua performance no programa Alan Carr Chatty Man.

Na última parte, voltamos à infância de Chuck: seu gosto pela dança nasce de uma paixão juvenil e do carinho da avó (um retorno encantador de Mia Sara, eternizada em Curtindo a Vida Adoidado). Também vemos a influência do avô contador (Mark Hamill, eterno Luke Skywalker), que mistura sisudez e afeto. É nesse trecho que o filme mais se aproxima do universo típico de King: uma cidade interiorana dos anos 70, com atmosfera nostálgica e uma pitada de fantástico. O sótão proibido, inevitavelmente explorado pelo garoto, funciona como metáfora — uma janela para os momentos finais, que mais do que perguntar pelo “sentido da vida”, questiona quais caminhos devemos tomar.
Mas o resultado final decepciona. Mike Flanagan, diretor de quem nunca gostei muito, dá ao filme a estética de um comercial de plano de saúde — ou funeral. Fotografia estourada, excesso de bokeh e raios de sol invadindo janelas: se em Superman esse efeito funciona, aqui beira o kitsch. A redundância é constante: a ideia de que somos a soma das pessoas que orbitam nossas vidas é explicada, reiterada, ilustrada e martelada, como se o público não fosse capaz de compreender sozinho. O intercâmbio forçado de personagens de diferentes linhas temporais reforça essa subestimação.
Tudo acaba soando piegas. Até a metáfora de neurônios morrendo como estrelas que se apagam, que deveria ser poética, se torna gasta. O pior, porém, é ver um conto reduzido a uma mensagem de autoajuda. Saí da sessão com a sensação de ter assistido a uma palestra de coaching. Mesmo sem ter lido o original, tive a impressão de que King buscava justamente o oposto do que Flanagan entrega. Seu Chuck é insuportavelmente correto, um “bom moço” pasteurizado. O fato de ele escolher os números em vez da arte não deveria ser lido como maturidade, mas como covardia — ainda mais para alguém diante de um fim precoce.
Talvez por isso o desfecho da primeira parte seja tão abrupto: o personagem de Ejiofor não consegue declarar seu amor. E a mensagem que realmente deveria ressoar é essa: o Tempo — protagonista invisível da história e vilão implacável da vida real — não perdoa os que hesitam.
JORNALISTA, PUBLICITÁRIO E CRÍTICO DE CINEMA. Cresceu no ambiente da videolocadora de bairro, onde teve seu primeiro emprego. Ávido colecionador de mídia física, reune mais de 3 mil títulos na sua coleção. Já participou de produções audiovisuais independentes, na captura de som e na produção de trilha musical. Hoje, escreve críticas de filmes pro site do Cinema com Crítica e é responsável pela editoração das apostilas do Clube do Crítico. Em 2025, criou seu perfil, Cria de Locadora, para comentar cinema em diversos formatos.

